João Ganço: "Considero o Nelson um bom filho e vou torcer por ele"

Ex-treinador de Nelson Évora fala dos passos da sua carreira e relação entre ambos, no dia em que o saltador português disputa a final de triplo salto (20.20, Eurosport)

João Ganço tem 64 anos e cerca de 40 dedicados ao atletismo. Não se pode falar de um antes, porque tudo começou aos 15 anos como saltador em altura, nem de um depois, porque o treinador não vê um fim para aquilo que o faz feliz.

No salto em altura, deixou uma marca que ninguém lhe tira: foi o primeiro português a passar a fasquia dos dois metros. E só não fez mais porque a tropa e o casamento lhe roubaram os anos seguintes. Voltaria aos 30 a esta paixão, também como mestre dos mais novos. E foi assim que descobriu vários talentos, sendo o mais sonante um pequeno rapaz, que fez crescer, chamado Nelson Évora.

Em entrevista ao DN, em Londres, onde esteve a acompanhar a sua atleta Susana Costa, João Ganço confessa-se apaixonado por aquilo que tanto gosta de fazer: ensinar. "Quando falamos de uma paixão, não se nota desgaste ou cansaço. Só me provoca alegria e vontade de continuar. Esforcei-me imenso para aprender. Seria uma pena não continuar a transmitir aos outros o que tenho dentro de mim." Perguntamos-lhe se continua a colecionar filhos no atletismo. Responde, entre risos, que agora "já é um misto de netos também". Mas, se a idade de ser avô chegou, isso não o impede de se divertir como um jovem no grupo de treino que orienta no Benfica: "Às vezes, até me sinto mais jovem do que eles nas brincadeiras e na forma de estar. Esqueço-me da idade e isso é motivador também."

Mas a experiência transformou-o como transforma qualquer um. Hoje mede mais as palavras, e os verbos ouvir e ensinar ganharam outra importância. "Escuto mais do que falo. É importante saber dizer as coisas no momento certo. E sou mais observador. Em competição não estou só a reparar no gesto técnico, mas também na postura do atleta, na forma como reage. Isso ajuda-me a transmitir-lhe na altura certa o que deve fazer", explica.

No atletismo o técnico é, literalmente, um treinador de bancada. João Ganço assume que o papel de ator secundário, que nem direito a Óscar tem, nem sempre cai bem. "Na hora da vitória, aparecem todos à volta do atleta e o treinador é posto à margem, afasta-se. O treinador é quem dá mais ao atleta e não é reconhecido por isso", desabafa.

Durante anos a fio, as vidas de João Ganço e Nelson Évora confundiram-se. Até que um dia tudo terminou. Os caminhos separaram-se no ano passado. João Ganço também sente que há um antes e um depois, não porque tenha mudado, mas porque os outros, a sua volta, mudaram: "Eu já não sou o João Ganço. Quando treinava o Nelson, ligavam-me todas as semanas, agora não acontece. É estranho, porque eu continuo a ser a mesma pessoa."

Nesta conversa, Évora surgiu de uma forma natural. Não como uma mágoa ou um passado doloroso, mas como uma relação profissional que terminou, ficando a amizade que os unia. "A relação entre nós é boa. Os caminhos foram distintos, mas continuamos a respeitar-nos. Falamos sobre os assuntos que nos são importantes, como a família. Não falamos sobre a vida profissional, mas continuo a querer que ele faça grandes marcas", esclarece.

Sobre esta caminhada por estradas diferentes, João Ganço refere ficar contente por Nelson Évora estar a experimentar coisas novas: "Se ele acabasse a carreira comigo, talvez se interrogasse como seria se tivesse a experiência com outro treinador. Fico contente por ele ter uma nova experiência."

Recentemente, o atleta viveu um momento pessoal mais complicado, e João Ganço esteve lá para o antigo pupilo. "Disse-lhe que o meu apoio vai continuar a ser total, como era anteriormente. Quando precisar de mim, eu estarei sempre lá", acrescenta.

Hoje, a partir das 20.20 (com transmissão televisiva na Eurosport), Nelson Évora irá saltar na final do triplo salto nos Mundiais de Londres. João Ganço assume que será mais um a torcer por ele, não só por "o considerar um grande atleta, mas também um bom filho".

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