Inês Henriques: "Este foi um grande desafio. E eu ganhei-o"

Ontem, Inês Henriques bateu o recorde do mundo dos 50 km marcha, conquistou o ouro nos Mundiais de Londres e provou que as mulheres conseguem cumprir a distância disputada pela primeira vez nesta competição. Mais do que isso, a nova campeã mundial - primeiro ouro para Portugal desde Nelson Évora, no triplo salto, em 2007 - treinou durante meses a fio entre as incertezas de um possível wildcard ou da realização da prova feminina. Acreditou quando os outros a questionavam, e hoje sorri, porque tudo valeu a pena.

Aos 37 anos, chega pela primeira vez ao lugar mais alto do pódio, numa grande competição internacional. O que é que lhe custou esta caminhada?

Isto é o culminar de 25 anos de atletismo. Eu sempre tinha dito que queria fazer 50 km marcha. Achava que se os homens podiam, eu também conseguia. Em novembro de 2016, o meu treinador, Jorge Miguel, desafiou-me e disse: "Vais ser a primeira a fazer o recorde do mundo." E eu fiquei naquela: "Mas você acha que eu consigo?"... Ele disse-me para falar com o Nuno - companheiro e que colabora nos treinos -, que também foi perentório: "Se tu não conseguires, não haverá outra mulher que consiga."

A Inês diz várias vezes que estes resultados não são fruto do talento, mas sim de muito trabalho. Isso é humildade ou a verdade?

É verdade. Porque eu sempre fui uma atleta que nunca deve quilómetros ao treinador, pelo contrário. Raramente falho um treino, só mesmo por doença. Desde miúda que sempre fui assim, é preciso ser o treinador a travar-me para não me exceder. Talvez pela educação que os meus pais me deram. Sou como sou pelo que aprendi em casa. O meu pai sempre disse: "Minha amiga, ninguém dá nada a ninguém. E, quando te querem dar, desconfia."

Mas a sua participação aqui - e a realização desta prova de 50 km marcha femininos - só foi confirmada a três semanas da competição. Como é que conseguiu treinar na incerteza?

Sempre achei injusto haver três mulheres e seis homens nos pódios da marcha. Não percebia o porquê disto. Algumas pessoas da Federação Portuguesa de Atletismo chegaram a dizer-me para esquecer, que isto não iria acontecer. Mas algo me dizia que era possível, um sexto sentido, não sei. Os meus colegas perguntavam-me: "Mas vais treinar para 50 km sem saber?" E eu respondia que precisava de acreditar para conseguir treinar, porque eram muitos quilómetros. E, enquanto não me dessem um não definitivo, eu iria continuar a acreditar que era possível. No dia 23 de julho recebi a notícia de que iria ter muito mais do que eu esperava: haveria uma prova só para mulheres e com direito a tudo. Com 25 anos de carreira, o que me dá energia são desafios. Este foi um grande desafio e ganhei-o.

Fala várias vezes do seu treinador, que a acompanha desde sempre. Como é que se explica a longevidade da relação?

Temos formas de ser semelhantes. Para mim, é o melhor treinador de Portugal e um dos melhores do mundo. Por isso é que conseguiu criar tantos atletas olímpicos. Temos os nossos problemas, mas ambos queremos chegar lá acima. Quando corre bem, ganhamos os dois. Mas, quando corre mal, também perdemos os dois.

Ao longo do percurso desta prova foi visível ele a gritar consigo, para a Inês ter calma.

[risos] Eu tinha de ter paciência e manter o ritmo. Havia quilómetros em que eu passava a 9m40s e outros a 9m53s. Algumas vezes não abrandava tanto como devia, e tinha logo o treinador: "Calma, Inês, calma!"

Até aos 30 quilómetros de prova teve a companhia da chinesa Hang Yin. Parecia não a querer largar.

Nós tínhamos previsto que isto ia acontecer. Porém, tendo em conta a idade dela, sabia que ela não tinha muita prática. O meu treinador sempre me disse para manter o meu ritmo, mesmo que ela fosse mais rápida, porque a prova começa a partir dos 30 quilómetros. É óbvio que aquela carraça sempre atrás já me estava a incomodar. Os quilómetros iam avançando, e eu não sabia como é que ela estava. Depois, aos 30, começou a ficar para trás, e eu pensei que a partir daí era ir com calma e controlar.

Quando faltavam apenas uns metros para cortar a meta, o que é que lhe veio à cabeça?

Comecei a chorar, foi um misto de sensações. Por um lado, não queria acreditar no que estava a acontecer, por outro pensei que estava próxima de concretizar este grande objetivo e este grande sonho.

Já parou para pensar o que acaba de conquistar para Portugal e para a marcha?

A minha irmã ligou-me a contar que está tudo louco. Que eu tinha aparecido em todo o lado, e que era mais importante do que todas as outras notícias. Os meus colegas de Rio Maior tiveram de ir para o centro de estágio para serem entrevistados. Queriam que os meus pais e a minha irmã também fossem. Só vou ter noção disto quando chegar a Portugal e vir a dimensão do meu feito.

Esta é também uma vitória de todas as mulheres. O que poderá mudar na marcha?

Mostrei aqui que o que eu fiz pode ser feito por outras mulheres. Sinceramente, o meu principal objetivo era mostrar-lhes que isto é possível, que nós também conseguimos. Aventurei-me nisto porque adoro o que faço, e quero permanecer por mais uns anos. Tudo vai depender das mulheres. Se mais começarem a fazer esta distância, e se daqui a dois anos tivermos 20 a 40 mulheres, acho que o Comité Olímpico não tem forma de fazer a prova masculina e não fazer a competição feminina [nos Jogos Olímpicos].

E onde vai guardar essa medalha?

Em minha casa. Vai ser guardada com muito carinho. Eu já tinha uma medalha de bronze de uma Taça do Mundo, em Chihuahua (México), mas esta tem outro sabor. É na prova mais dura do atletismo, é de campeã do mundo e do recorde do mundo [4:05.56 horas, menos 2.29 minutos do que o seu registo anterior]. O mundo inteiro esteve aqui a ver o que eu fiz.

E, nos próximos dias, como vai ser?

Não faço a mínima ideia, mas vai ser uma coisa fantástica. Nunca vivi nada disto, e quero desfrutar deste grande feito.

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