Futebol é propício a personalidades egocêntricas

Especialistas em comportamentos referem características de personalidade que se manifestam mais em certos ambientes

Personalidades egocêntricas, impulsivas, emocionais, centralizadas nos seus problemas, que procuram emoções e não medem os atos. São características de personalidade e que encontram no desporto um espaço privilegiado para se manifestarem. No futebol podem ter mais ênfase precisamente por ser mediático, dizem os peritos em comportamento.

O DN falou com psicólogos e psiquiatras na tentativa de traçarem um perfil de Bruno de Carvalho, algo que se recusaram por desconhecerem do ponto de vista clínico a pessoa em causa. Mas não se recusam a fazer uma análise do que se passa atualmente na liderança do clube de Alvalade.
"Há determinadas pessoas que são impulsivas ou procuram sensações, esse tipo de pessoa não mede completamente o resultado dos seus atos, age primeiro e pensa depois, são características de personalidade. Depois, o tipo de comportamentos que manifestam tem maus resultados porque agem de acordo com a impulsividade", começa por dizer o psicólogo clínico Américo Batista. E conclui: "São características de quem faz coisas fora do habitual e tudo o que sejam atividades que impliquem alta emotividade. E claramente que o futebol é propício à existência de pessoas que procuram sensações."

O psiquiatra Afonso Albuquerque defende que os comportamentos fazem parte da pessoa desde criança, mas existem ambientes em que determinadas características não se manifestam, podendo até nem se dar por elas. "Agora se estão num ambiente de maior exposição e se são inteligentes, o que acontece em geral, em 90 % dos casos há mais possibilidade de se manifestarem."

Exemplifica com os comportamentos psicopatas e que trazem dificuldades acrescidas quando implica uma relação com os outros. "A psicopatia é uma perturbação que existe e que pode tornar-se problemática não só para a própria pessoa como para os outros com quem se envolve. Às vezes têm delírios paranoides, desconfiam mais do que a média das pessoas, têm uma grande frieza afetiva, só contam os sentimentos que as favorecem, são egocêntricas, centralizadas nos seus problemas e ideias. Quando são inteligentes, podem causar grandes danos, são capazes de liderar esquemas maquiavélicos em seu próprio benefício."

O psicólogo forense Rui Gonçalves entende que o que se passa com o Sporting vai além dos principais protagonistas. "Estamos a falar de uma situação que pode vir ter repercussões muito importantes a vários níveis. Entre a euforia clubística e as necessidades racionais para manter a gestão de uma empresa, que é o clube, jogam-se situações muito contraditórias. É preciso fazer uma leitura em conjunto com outras pessoas e perceber o que se está a passar. Este incêndio que entretanto se ateou tem de ser rapidamente extinto. O futebol é uma atividade desportiva que envolve competição e as pessoas exaltam-se quando as coisas não correm como o esperado, isso é aceitável. O que não é aceitável é a violência, aí já estamos a falar de crime."

Jorge Silvério, mestre em psicologia do desporto, explica que as pessoas têm diferentes comportamentos no dia-a-dia e o futebol é um contexto onde se expressam. "Funciona como um escape para determinado tipo de reações. É o futebol porque é o mais mediático, os outros desportos também proporcionam isso. Mas, ressalva, "não acho que o futebol seja um mundo à parte. Há pessoas que em geral se comportam obedecendo a princípios éticos e dentro da lei e outros que não o fazem. E no futebol, como em outras áreas da sociedade, quando as pessoas não cumprem a regras devem ser punidas."

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