Fernando Santos poliu o talento do "rei da trivela"

Extremo encontrou o seu melhor período na seleção com o atual selecionador. E, aos 34 anos, estreou-se por fim em Mundiais

Ricardo Quaresma tinha a trivela mais do que pronta para a sua estreia como titular num jogo do campeonato do mundo. Aos 34 anos, o extremo que em adolescente parecia destinado a voar mais alto até do que Cristiano Ronaldo teve por fim o seu momento de fama num Mundial, palco para o qual só agora foi convidado, no reconhecimento tardio de uma careira recheada de altos e baixos.

O próprio Quaresma já o assumiu publicamente em algumas ocasiões: a escolha de Fernando Santos para selecionador foi o melhor que lhe podia ter acontecido. Os portugueses também já se tinham apercebido, muito antes da trivela que abriu o marcador neste duelo com o Irão. Sobretudo pela forma como o extremo ganhou o estatuto de arma secreta para resolver jogos complicados, saltando geralmente do banco para, com golos e/ou assistências, abrir caminho a alguns feitos importantes da seleção nos últimos anos - como o cabeceamento que deu a preciosa vitória sobre a Croácia no prolongamento dos oitavos-de-final do Europeu, por exemplo.

"Na seleção, o único treinador que sinto que confia em mim e que me passa essa confiança é o Fernando Santos. Com todos os outros nunca senti essa confiança. Se calhar é por isso que nunca tinha feito grandes jogos na Seleção", confessou Quaresma no final de 2017, numa entrevista à rede de televisão beIN Sports.

Os números estão aí para comprová-lo. Segundo dados do site zerozero, Quaresma leva 44 jogos, 7 golos e 15 assistências desde que Santos pegou na seleção, no final de 2014, numa fase em que o extremo já tinha 31 anos. Antes disso, em 11 anos, com três selecionadores diferentes - Luiz Felipe Scolari, Carlos Queiroz e Paulo Bento -, tinha feito 35 jogos, 3 golos e 7 assistências. E, por incrível que isso hoje pareça, nenhuma presença em Mundiais.

Na seleção, o único treinador que sinto que confia em mim e que me passa essa confiança é o Fernando Santos. Com todos os outros nunca senti essa confiança

Curiosamente, o mais perto que Quaresma tinha estado de jogar um campeonato do mundo, antes deste na Rússia, foi mesmo em 2002, quando irrompeu pela equipa principal do Sporting de Bölöni. Nessa altura, confessou mais tarde o então vice-presidente da FPF António Boronha, Quaresma era o 24.º jogador da lista de convocados do selecionador António Oliveira, que estava determinado a levar o "miúdo" de 18 anos caso Figo não estivesse em condições. Mas a opção ficou em segredo - Figo acabou por ir.

Nos Mundiais seguintes, o extremo com fama de bad boy - pela personalidade e por um futebol sempre difícil de domar também para os próprios treinadores - acabou sempre sacrificado. Scolari ignorou-o em 2006, apesar de ter sido jogador do ano na I Liga, pelo FC Porto (o brasileiro resgatá-lo-ia para a campanha do Europeu seguinte e até teria o famoso episódio em "defesa do "minino"" frente à Sérvia); Queiroz deixou-o de fora em 2010, após uma época em que foi o "Bidão de ouro" [pior jogador] da liga italiana, às ordens de Mourinho no Inter; Paulo Bento eliminou-o da lista para o Brasil, em 2014, apesar da excelente segunda metade da temporada (de novo no FC Porto), não esquecendo os problemas com o extremo no Euro2012.

Até que chegou Fernando Santos. E, aos 34 anos, Quaresma pôde finalmente estrear-se no palco mais importante, tornando-se também, frente ao Irão, o mais velho futebolista português a marcar um golo em Mundiais. Justiça feita. A trivela de Quaresma merecia ficar na história do torneio.

NÚMEROS

Dois
O golo de trivela ao Irão foi o segundo marcado dessa forma por Quaresma ao serviço da seleção, 11 anos depois de uma outra trivela monumental, à Bélgica.

Dez
Chegou à dezena de golos na seleção A, sete deles já com Fernando Santos. Marcou em todas as grandes provas (Mundial, Europeu e Confederações)

Ler mais

Exclusivos