Duas equipas de treinador

Jorge Jesus e Sérgio Conceição têm assinatura reconhecida neste Sporting e neste FC Porto que amanhã se enfrentam

Até à última quarta-feira, as melhores exibições (e resultados) do Sporting nesta época tinham sido fora de Alvalade, quer na Liga quer na Liga dos Campeões. A exibição, francamente melhor do que o resultado, frente ao Barcelona para a Champions mostrou um outro Sporting, mais seguro de si, estrategicamente mais adulto e capaz de manter a organização em todos os momentos, perante um colosso como a equipa de Messi e C.ª.

Com o FC Porto acontece o contrário. Até aqui, mostrara grande força em casa, com muitos golos, exceto na Champions, em que baralhara as contas. A vitória categórica no principado do Mónaco mostrou o crescimento da equipa e sobretudo da sua organização, porque até aqui vira-se mais o forte espírito de grupo do que a capacidade estratégica que esteve em exibição no Estádio Louis II, na passada terça-feira.

Como este primeiro clássico da época é em Alvalade, apareciam ambos um bocadinho com o pé trocado. Mas note-se que o Sporting não ganha há três jogos - empates com Marítimo para a Taça da Liga e Moreirense para a Liga, e agora derrota em casa com o Barcelona -, o que não é bom, até porque dois desses jogos foram em casa. Mas com o FC Porto é outro tipo de jogo, mais próximo do que é preciso fazer com um Barcelona do que com um Marítimo.

O FC Porto vem, de resto, de uma série de maus resultados e maus jogos em Alvalade nos últimos anos, onde não ganha desde 2008, ao tempo com Jesualdo Ferreira ao leme: na época passada perdeu (2-1) num jogo muito polémico arbitrado por Tiago Martins; há dois anos, em janeiro, perdeu o jogo e a liderança (2-0) que tinha conquistado na jornada anterior e Lopetegui foi-se embora menos de 15 dias depois; há três empatou (1-1), depois de ter levado um banho de bola na primeira parte; há quatro épocas, com Paulo Fonseca, foi derrotado também em janeiro. E nos últimos dez anos ganhou uma vez. Ou seja, o Sporting tem mandado.

Pragmatismo e ambição

Jorge Jesus aceitava há dias que este Sporting é mais pragmático, procura correr menos riscos, controlar mais e expor-se menos. O que se explica pela ideia do treinador e também pela injeção de jogadores que teve nesta época - Mathieu, Coentrão, mesmo Acuña ou Doumbia, são homens com quilómetros de experiência e que transmitem uma forma de jogar diferente.

Do FC Porto, pelo contrário, dir-se-á que Sérgio Conceição trouxe uma ideia de ambição em campo, não só no resultado. Este FC Porto é mais Marega do que Brahimi, mais Danilo do que Óliver, e os golos de Aboubakar. Mas é facto que uma equipa que quase tinha renunciado ao contra-ataque nos últimos anos - uma das piores heranças de Lopetegui -, hoje não renuncia a nenhuma arma de ataque. E é assim que tem de ser.

Mas há outra ideia muito forte neste clássico: são duas equipas com a assinatura clara dos seus treinadores. FC Porto e Sérgio Conceição parecem ser hoje uma única palavra, tão óbvio é o impacto que o treinador teve nestes três meses à frente da equipa; de Jorge Jesus e do Sporting nem é preciso falar, no terceiro ano do treinador em Alvalade. Antes dos jogadores, há o impacto do treinador. Não se compreendem as equipas sem compreender os treinadores.

No FC Porto não se esperam grandes mudanças - jogar Sérgio Oliveira ou Óliver, para completar o meio-campo com Danilo e Herrera, será a única dúvida, porque em princípio o desenho tático será mais próximo do 4-3-3. No Sporting tem havido mais mexidas, mas neste jogo deverá alinhar a equipa que defrontou o Barcelona, com Bas Dost em vez de Doumbia.

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Cinco 'duelos' do clássico

Coates e Felipe, senhores da marcação

› O duelo podia ser Mathieu-Marcano e era igualmente de nível muito elevado, porque as duplas de centrais são pontos fortes em qualquer destas equipas, até porque também marcam golos. Às vezes na baliza errada - sucedeu a Coates com o Barcelona (a jogar contra Messi um desses nem devia valer como golo único...), como já sucedeu a Felipe na época passada. Dois centrais do lado direito fortes na marcação, melhor no passe longo o uruguaio do Sporting, mais rápido em distâncias curtas o brasileiro do FC Porto. E são dois pilares das suas equipas pela força que põem no corpo a corpo, em que ganham a maioria da vezes.
35 - Bolas ganhas na liga por Coates, contra 33 de Felipe.

William e Danilo, pivôs do meio-campo

Dois competidores por um lugar na seleção nacional, dois campeões europeus (haverá mais dois em campo, Rui Patrício e Casillas), dois homens de grande importância e ambos em bom momento. William Carvalho fez um grande jogo frente ao Barcelona, como fez (a atacar sobretudo) com o Moreirense, estando envolvido no golo do Sporting; Danilo Pereira idem, com o Mónaco, e até marcou ao Rio Ave, num jogo-chave. São em princípio homens da posição 6, mas hoje essa posição está em declínio em favor do duplo pivot, o que permite a William e a Danilo terem eventualmente ainda mais peso nas suas equipas e no jogo. Pode ver-se isso neste clássico.
11 - Faltas cometidas por Danilo na Liga até agora, contra 13 de William.

Bruno Fernandes e Herrera a ligar setores

São jogadores diferentes, mas o sportinguista da Maia teve um impacto imediato e enorme na equipa e no campeonato, assumindo-se como o grande valor do primeiro quarto da prova. Pela capacidade de tiro e não só. Herrera parece estar numa das suas melhores fases, embora tenha uma percentagem de imprecisão no passe acima do admissível em grandes equipas. Bruno Fernandes parecia ser 8 ou 10, mas hoje parece mais talhado para a segunda, para jogar mais próximo da baliza, posição em que não tem de defender tanto e mais facilmente pode aplicar o seu remate; HH tem um bocadinho a mesma ambiguidade, porque as más decisões de passe têm mais custos diretos mais atrás.
19 - Remates de Bruno Fernandes no campeonato, contra apenas dois de Herrera.

Gelson e Brahimi, os magos de serviço

Gelson, nascido na Cidade da Praia, tem o ADN cabo-verdiano: a técnica de jogar na praia traduzida para campo duro. Resolve os problemas de várias maneiras - umas vezes com técnica, outras com velocidade, outras com a inteligência. Mas esta época não parece tão bem como estava há um ano. Já Brahimi, pelo contrário, parece finalmente ter encontrado o registo certo, não se confiando só à ala mas encontrando cada vez mais liberdade - e mais responsabilidade - no sistema de Sérgio Conceição (que raramente o substitui, ao contrário do que acontecia antes). Qualquer deles pode ser a chave deste clássico.
59 - Bolas perdidas por Brahimi, para 28 de Gelson.

Bas Dost e Aboubakar, os homens-golo

Dois pontas-de-lança, duas morfologias (1,96 m e 78 kg para o holandês, 1,84 para 78 kg do camaronês), duas maneiras de interpretar a posição. Dost foi o melhor marcador da Liga passada (34 golos/31 jogos), Aboubakar foi apenas oitavo na Turquia (12/27) mas foi campeão. Aboubakar gosta de espaço, Bas Dost gosta de cruzamentos. Neste ano a sua média de golos não é tão elevada (4 em 7 jogos), mas também na época passada foram os 15 nas últimas dez jornadas que o elevaram à estratosfera. Já o camaronês nunca começou uma época com tanto peso na equipa e a marcar golos essenciais (Mónaco, Tondela e Braga decididos com o seu golo). Dois homens destinados a outros voos.
25 - Remates dentro da área para Aboubakar. Dost tem 11.

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