De abril a junho: os episódios da crise do Sporting

A atual crise no Sporting começou na madrugada seguinte à derrota da equipa principal de futebol do clube no jogo dos quartos-de-final da Liga Europa, frente ao Atlético de Madrid. E não tem fim à vista

Quando começou a atual crise do Sporting?

A 5 de abril, a equipa de futebol perdeu (2-0) frente ao Atlético de Madrid, em jogo a contar para a primeira mão dos quartos-de-final da Liga Europa. Descontente com a exibição, Bruno de Carvalho publicou um post no Facebook onde criticou a exibição de alguns dos jogadores, nomeadamente Coates e Mathieu.

Os jogadores reagiram?

Sim. A 6 de abril, Rui Patrício e William Carvalho (os dois capitães da equipa) publicaram uma mensagem, que praticamente todo o plantel divulgou depois, a defender o plantel. Entre outras frases escreveram: "Apontar o dedo para culpabilizar o desempenho dos atletas publicamente, quando a união de um grupo se rege pelo esforço conjunto, seja qual for a situação que estejamos a passar, todos os assuntos resolvem-se dentro do grupo." No dia seguinte, em que o Sporting jogou com o Paços de Ferreira em Alvalade (2-0), Bruno de Carvalho viu lenços brancos e ouviu assobios. E saiu do banco de suplentes com uma alegada dor de costas. Neste dia o treinador Jorge Jesus salientou que esteve sempre ao lado dos jogadores.

Depois desta vitória os ânimos acalmaram?

Antes pelo contrário. A 13 de maio, o Sporting jogou na Madeira, com o Marítimo, e perdeu 2-1. Este jogo era essencial para o clube conseguir o segundo lugar e a presença no play-off da Liga dos Campeões. No regresso, ainda no aeroporto Cristiano Ronaldo, um grupo de adeptos, incluindo o antigo líder da Juventude Leonina Fernando Mendes, tentou agredir os atletas, o que foi evitado pelos agentes da PSP. Já em Lisboa, a equipa foi recebida com insultos e na garagem do Estádio de Alvalade houve tentativas de agressões a Rui Patrício e a William Carvalho.

As polémicas em Alvalade envolveram apenas o futebol?

A 15 de maio o Correio da Manhã noticia a existência de um alegado esquema de corrupção envolvendo o andebol do Sporting, que terá subornado jogadores para ser campeão nacional. Um dos envolvidos era o team manager do clube, André Geraldes, que foi detido com mais quatro pessoas. O clube negou esta situação.

O ataque aos jogadores em Alcochete

A 15 de maio, um grupo de 50 adeptos do Sporting entrou no Centro de Estágio do Sporting, em Alcochete. Muitos com a cara tapada, entraram nos balneários e agrediram futebolistas como Bas Dost, Misic, Battaglia, Acuña e o treinador Jorge Jesus. O Sporting emitiu um comunicado a repudiar as agressões e, mais tarde, na Sporting TV, Bruno de Carvalho disse que a situação "foi chata". Expressão que lhe valeu muitas críticas. Ao início da noite, a GNR identificou e deteve 23 elementos do grupo que nos dias seguintes foram presentes a tribunal tendo ficado em prisão preventiva.

Que consequências teve no plantel este ataque?

Durante uma semana, a que antecedeu a final da Taça de Portugal com o Desportivo das Aves, o plantel do Sporting não treinou por não estarem reunidas as condições físicas e psicológicas. Os jogadores acabaram por divulgar um comunicado onde garantiram que estariam presentes na final da segunda competição mais importante do futebol profissional. O ataque ao plantel foi, entretanto, condenado por várias personalidades, incluindo o presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues, que frisou ter de existir "medidas sérias doa a quem doer, ao nível do Sporting, da federação e do Governo português". Bruno de Carvalho respondeu que a segunda mais alta figura do Estado não tinha a "mínima noção do cargo que ocupa" e disse que ia processar Ferro Rodrigues.

As ameaças de despedimentos que não aconteceram

Depois de nos dias e semanas anteriores, o presidente, agora destituído, Bruno de Carvalho, ter ameaçado jogadores e treinadores com o despedimento - o que mais tarde diria não ser verdade - foi o presidente da Mesa da Assembleia Geral, Jaime Marte Soares, a convocar uma reunião dos órgãos sociais e mais tarde uma Assembleia Geral para destituir o presidente.

A final da Taça de Portugal.

Com os ânimos muito exaltados, o plantel do Sporting jogou com o Desportivo de Aves a final da Taça de Portugal. Bruno de Carvalho não esteve no Estádio do Jamor e, por isso, não presenciou no estádio a derrota da equipa, por 2-1.

As ameaças de rescisões

Depois de terminada a competição aumentam as noticias sobre eventuais rescisões de contrato por parte dos jogadores. Entretanto, a 21 de maio, os membros do Conselho Diretivo, da Assembleia Geral e do Conselho Fiscal e Disciplinar reúnem-se durante duas horas, mas sem tomar decisões.

Várias comissões e decisões judiciais

Depois de a Mesa da Assembleia Geral ter anunciado a constituição de uma comissão de fiscalização para exercer, de forma transitória, as funções do Conselho Fiscal e Disciplinar, entretanto demissionários, Bruno de Carvalho anunciou que a MAG não tem competências pois já se tinha demitido.

Rescisões avançam

No primeiro dia de junho, surge a primeira carta de rescisão alegando justa casa: é de Rui Patrício, que na altura já estava ao serviço da seleção que preparava a presença no Mundial de 2018, na Rússia. Seguiram-se mais oito: Daniel Podence, Bruno Fernandes, William Carvalho, Gelson Martins, Bas Dost, Rúben Ribeiro, Battaglia e Rafael Leão.

As várias assembleias marcadas e a que se realizou

Alegando não reconhecer a legalidade da assembleia geral marcada para 23 de junho pela MAG - para votar a destituição do presidente do clube - Bruno de Carvalho marcou para dia 17 e dia 30, esta para apresentar o orçamento. Depois de várias decisões judiciais, a única assembleia geral que ficou certa foi a de dia 23.

Processo a Bruno de Carvalho

O Conselho de Fiscalização decidiu abrir um processo disciplinar que pode levar à expulsão de Bruno Carvalho de sócio. Depois desta decisão o então presidente disse que não iria à assembleia de dia 23, onde se votava a sua destituição, pois estaria impedido de o fazer. No entanto, compareceu mesmo, votou, mas não lhe foi permitido falar aos sócios presentes pois já teria passado o período de intervenções.

Novo treinador

À parte das questões jurídicas e institucionais relacionadas com a vida e futuro do clube, Bruno de Carvalho já tinha contratado Augusto Inácio para diretor para o futebol e o sérvio Sinisa Mihajlovic como treinador.

A assembleia geral em que 70% votaram pela saída de Bruno de Carvalho

No sábado passado (23 de junho) realizou-se mesmo a assembleia geral onde os sócios do Sporting votaram pela destituição do presidente. De acordo com os dados oficiais votaram 14 615 sócios, com os resultados a serem de 71% pela saída de Bruno de Carvalho e 28,64 pela sua continuidade.

A mudança de ideias

Na madrugada de domingo, Bruno de Carvalho publicou no Facebook um post onde dizia que iria deixar de ser sócio e sportinguista. Depois, na tarde de domingo, garantiu na sua página que afinal iria impugnar a assembleia geral e que iria candidatar-se às eleições marcadas para 8 de setembro.

Sousa Cintra impedido de entrar em Alvalade

A comissão nomeada por Jaime Marta Soares para gerir o clube até às eleições nomeou o antigo presidente do Sporting, Sousa Cintra, para a liderança da SAD para o futebol. No entanto, esta segunda-feira de manhã, Sousa Cintra terá sido impedido de entrar nas instalações da Sociedade Anónima.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ricardo Paes Mamede

A "taxa Robles" e a desqualificação do debate político

A proposta de criação de uma taxa sobre especulação imobiliária, anunciada pelo Bloco de Esquerda (BE) a 9 de setembro, animou os jornais, televisões e redes sociais durante vários dias. Agora que as atenções já se viraram para outras polémicas, vale a pena revistar o debate público sobre a "taxa Robles" e constatar o que ela nos diz sobre a desqualificação da disputa partidária em Portugal nos dias que correm.

Premium

Rosália Amorim

Crédito: teremos aprendido a lição?

Crédito para a habitação, crédito para o carro, crédito para as obras, crédito para as férias, crédito para tudo... Foi assim a vida de muitos portugueses antes da crise, a contrair crédito sobre crédito. Particulares e também os bancos (que facilitaram demais) ficaram com culpas no cartório. A pergunta que vale a pena fazer hoje é se, depois da crise e da intervenção da troika, a realidade terá mudado assim tanto? Parece que não. Hoje não é só o Estado que está sobre-endividado, mas são também os privados, quer as empresas quer os particulares.