Da glória à depressão num penoso caminho dos jovens campeões

Vanessa Fernandes interrompeu a sua carreira aos 25 anos. A triatleta é mais um exemplo de jovens que após o sucesso descem ao inferno.

Medo de falhar, dificuldades em lidar com a pressão, perda de confiança, desmotivação, cansaço físico e psicológico são apenas algumas das inúmeras razões que podem explicar o abandono precoce de jovens atletas de alta competição. Os campeões são afinal "pessoas frágeis", como as outras que "lidam com di-ficuldade" com o stress e com o insucesso. "Entram em depressão", quando começam a questionar as razões que os levaram a uma actividade altamente exigente física e psicologicamente e da qual já não tiram prazer, explicam os psicólogos.

Vanessa Fernandes foi a última "vítima" da sua própria vontade, e de todos os que a rodeiam, no treino e na vida, de tudo conquistar. Na sexta-feira, aos 25 anos, anunciou que iria fazer uma interrupção temporária da sua carreira. A benfiquista terá hipotecado a possibilidade de participar nos Jogos de Londres 2012. "Por razões de saúde que me têm impedido nos últimos meses de me dedicar à prática da modalidade que abracei e que tantas alegrias me proporcionou, queria comunicar- -vos a minha intenção de interromper temporariamente a prática desportiva", disse a atleta medalha de prata em Pequim, lançando a toalha ao chão como o fizeram tanto outras jovens campeões (ver outros casos).

Para o psicólogo Sidónio Serpa, quando os jovens entram num processo de alto rendimento, "a especialização ainda é maior, deixa de existir tempo para socializar, para os amigos. Nessa transição tende a existir uma processo de reorganização social. É aqui que acontece a maioria dos abandonos".

Para o ex-praticante de ginástica e professor, a gestão da carreira, a forma como o atleta se envolve no alto rendimento e as pressões sociais criadas por familiares e amigos são factores determinantes para um abandono precoce. "Nos atletas de alta competição a origem social pode ser importante. A redução da vida a essa prática é altamente redutora. A inexistência de outras actividades paralelas pode provocar problemas aos atletas que quando falham no desporto falham na vida", acrescenta.

As mesmas razões levam Hugo Sousa, ex-empresário de Vanessa Fernandes, a defender que "as pessoas que existem nas vidas dos atletas criam muita pressão. As famílias projectam-se demasiado. Os pais acabam por ver os filhos como super-heróis. Os atletas não querem desiludir os pais. Por outro lado, pais, treinadores, dirigentes, empresários e patrocinadores, muitas vezes, pensam mais nos seus benefícios que nos problemas dos atletas, levando à falta entendimento na gestão das carreiras. Para o actual empresário de Jessica Augusto, campeã da Europa de crosse, " o atleta não pode existir isolado na alta competição. Tem de estar integrado numa equipa". Ainda assim, continua a existir um equilíbrio muito frágil. Muita pressão. "Falta definir objectivos a longo prazo. Em muitos desses casos os objectivos são atingidos fácil demais. Há atletas que em dez anos conseguem grandes resultados e pouco depois atingem situações de fracasso. Muitos acabam por desistir numa competição e não sabem porquê. As razões podem estar no medo de falhar. Não há verdades absolutas."

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