Boicote? Kaepernick está sem equipa depois dos protestos

Quarterback que dividiu a opinião pública nos EUA, por ajoelhar-se durante o hino, está sem contrato na liga de futebol americano

Culpa do braço ou do joelho? A dúvida alimenta o debate em torno de Colin Kaepernick, o quarterback de futebol americano que continua a dividir a opinião pública nos Estados Unidos. Depois de, no ano passado, se ter convertido numa espécie de ícone do ativismo social na América - ajoelhando-se durante o hino nacional, antes dos jogos, em protesto contra a discriminação racial e os maus-tratos policiais às minorias -, Kaepernick é agora um jogador livre no mercado da NFL (National Football League), "ignorado" pelas equipas que começam a preparar a próxima temporada.

A teoria de um boicote coletivo ao jogador que se tornou indesejado pelos setores mais conservadores dos EUA, tendo passado até alvo recorrente nos discursos do agora presidente Donald Trump desde a campanha eleitoral, não demorou a ver a luz do dia. E o debate em torno de Kaepernick volta a inflamar-se, mesmo se o quarterback já anunciou que não tenciona repetir as suas ações de protesto na próxima época.

De um lado da balança, neste debate, estão as exibições menos positivas de Colin Kaepernick na última temporada. O quarterback, que em 2013 liderou os San Francisco 49ers até ao Superbowl, esteve longe dos seus melhores números e perdeu o estatuto de titular, num ano em que voltou a jogar após uma grave lesão num ombro em 2015. Mas, ainda assim, o jogador de 29 anos conseguiu melhores estatísticas do que vários outros quarterbacks entretanto já contratados nesta offseason desde 9 de março, dia em que abriu o mercado para contratação de jogadores livres.

No entanto, Kaepernick, que optou por prescindir do último ano de contrato que tinha com os 49ers na expectativa de obter um contrato melhor, continua sem equipa, o que fez ganhar voz a ideia de que o jogador que "ousou" ajoelhar-se perante o hino está a ser boicotado pelos patrões da NFL. Entre aqueles que já saíram a público para denunciar o "tratamento injusto" a Kaepernick está Richard Sherman, cornerback dos Seattle Seahawks. "Estou certo de que sim [está a ser boicotado]. É difícil de compreender como é que alguém que jogou a um nível tão alto é preterido por quarterbacks que nunca conseguiram jogar a esse nível. Isto não tem anda que ver com o futebol, é fácil de ver", referiu Sherman à ESPN.

Quem também já saiu em defesa de Kaepernick, apontando o dedo aos propietários e diretores gerais das 32 equipas da NFL, foi o realizador Spike Lee, também ele um habitual ativista contra as discriminações raciais na sociedade americana. "Como é que Kaepernick ainda não tem equipa? Que crime é que ele cometeu?", interrogou num post publicado na semana passada no Instagram, após um brunch com o jogador em Nova Iorque.

É certo que a pré-temporada é longa e os jogadores livres ainda têm mais um par de meses para encontrar uma equipa, mas, lembra Sherman, "na NFL, a ação no mercado livre costuma acontecer logo nos primeiros dias" e as vagas de quarterback vão sendo preenchidas em quase todas as 32 equipas.

E a teoria do boicote ganhou força com um texto no site Bleacher Report, que citou um diretor-geral de uma equipa, sob anonimato, a admitir que "70% dos diretores-gerais da NFL odeiam-no [a Kaepernick] pelo que ele fez e acho que querem usá-lo como exemplo para prevenir outros casos do género no futuro". "Além de que ninguém quer ser alvo de protestos ou de um tweet crítico de Donald Trump", acrescentou a mesma fonte.

Kaepernick, esse, tem estado em silêncio, mas mantém a consciência social ativa. Pouco depois de Trump propor cortes na ajuda federal ao programa Meals on Wheels, que distribui refeições por pessoas carenciadas, o quarterback doou 50 mil dólares para a causa solidária.