"Bernardo Silva e Gelson podem ser os pequenos príncipes deste Mundial"

O magriço acredita que Portugal pode ser campeão do mundo, colocando a nossa seleção num segundo grupo de favoritos, logo atrás de Brasil, Espanha e Alemanha

António Simões foi uma das principais figuras de Portugal no Mundial de 1966, a primeira fase final que contou com a seleção nacional. Em conversa com o DN, confessa que espera uma boa participação no Mundial da Rússia, quem sabe na senda do terceiro lugar alcançado há 52 anos, em Inglaterra.

Quais as suas expectativas para a participação da seleção portuguesa no Campeonato do Mundo que se avizinha?

Estou otimista. Depois do título de campeão europeu, Portugal tem um estatuto que nunca teve à entrada para uma fase final. O nosso objetivo será responder ao desafio proporcionado por esse estatuto. A pergunta que se faz é se o grupo se encontra estimulado para voltar a fazer uma grande fase final e a resposta é sim.

Quais os principais requisitos que Portugal tem de obedecer para ter sucesso na Rússia?

O Campeonato do Mundo é uma prova intensa e curta, em que muitas vezes não existe tempo para emendar os erros cometidos. O mais importante é estarmos bem física e mentalmente mas se só cumprirmos um desses requisitos será mais complicado ter sucesso. Se os jogadores estiverem bem mentalmente e não tão bem fisicamente, o cansaço quase desaparece, mas se estiverem em condições físicas perfeitas mas a parte mental não estiver a funcionar, teremos um problema.

É possível pensarmos no título de campeão do mundo?

Sim, é possível sermos campeões do mundo, mas há seleções com mais tradição, nomeadamente o Brasil, que este ano me parece fortíssimo, a Alemanha e a Espanha. Nós temos a tradição de possuirmos bons jogadores e de termos vocação para o jogo, mas não temos a tradição de lutar pelo título mundial. Mas que ninguém duvide de que depois dos três favoritos, aparecemos numa segunda linha de seleções, juntamente com a Argentina e com a Bélgica. Se o vento começar a soprar a favor, como no Euro 2016, podemos aspirar ao título mundial, mas estou mais inclinado em pensar que podemos simplesmente atingir o pódio.

Pensa que Fernando Santos deve de novo assumir um discurso muito confiante, tal como fez no Campeonato da Europa?

O nosso selecionador é um homem de fé e de convicções, a que junta as skills necessárias para o cargo. O seu discurso no Euro 2016 permitiu uma extraordinária mobilização afetiva e na minha opinião não existem razões para mudar este discurso. No fundo, na cabeça de cada português há um click de que nós podemos ser campeões do mundo. No entanto, claro que depois os jogadores é que terão de responder dentro de campo, sem esquecer que existem seleções com mais tradição do que a nossa e que um Campeonato do Mundo tem um nível superior ao Campeonato da Europa, nomeadamente devido à presença das seleções sul-americanas.

Na sua opinião, os acontecimentos que afetaram os jogadores do Sporting podem prejudicar o seu rendimento no Mundial?

Foi extremamente desagradável aquilo que aconteceu e estou obviamente a referir-me às agressões. É impossível passar ao lado daquilo, mas acaba por ser positivo os jogadores do Sporting saírem do ambiente que viviam no clube e estarem no palco mais elevado da carreira de um jogador, que é o Campeonato do Mundo. O jogo vai ser um aliviador dos problemas. Isto é o mesmo que acontece quando temos maus vizinhos no nosso prédio: temos imensa vontade de nos ir embora e ir para um sítio onde podemos ser mais felizes. Mas atenção: mesmo estando concentrados na seleção nacional, nada impede que os jogadores do Sporting discutam o seu futuro desde que os seus representantes tenham o bom senso de conduzir o processo de forma adequada e nos momentos certos.

Renato Sanches foi a grande revelação de Portugal no Euro 2016. Acredita que algum jogador poderá seguir as suas pisadas no Mundial?

Este Mundial será a consolidação para alguns jogadores em final de carreira e também a oportunidade para outros passarem a ser reconhecidos universalmente. Eu com 18 anos fui campeão europeu pelo Benfica, mas foi no Campeonato do Mundo de 1966 que me consolidei internacionalmente. Penso que o Bernardo Silva e o Gelson Martins podem ser os pequenos príncipes deste Campeonato do Mundo.

Esteve presente no Campeonato do Mundo de 1966, a primeira fase final que contou com a participação de Portugal, que terminou em terceiro lugar. Quando partiram para Inglaterra, ambicionavam realizar uma prova tão boa?

Nem pensar nisso! Isto apesar de o Sporting ter ganhado a Taça dos Vencedores das Taças e a Taça dos Campeões Europeus em anos que antecederam o Mundial de 1966. Portugal não tinha estatuto e isso viu-se no facto de não termos jornalistas estrangeiros à nossa espera no aeroporto, quando chegámos a Inglaterra. Ainda por cima, ficámos num grupo complicado, com o Brasil, pelo que se previa que as dificuldades seriam grandes.

A partir de que momento é que passaram a acreditar que seria possível chegar longe no Mundial de 1966?

No primeiro jogo do grupo, ganhámos com dificuldade [3-1 à Hungria], depois voltámos a vencer [3-0 à Bulgária], até que eliminámos o Brasil depois de lhes ganharmos por 3-1, pois quem passou connosco para os quartos-de-final foi a Hungria. E depois de eliminarmos o Brasil evidentemente que começámos a pensar que seria possível chegarmos bastante longe. Batemos a Coreia do Sul nos quartos-de-final e acabámos por cair com Inglaterra, nas meias-finais.

O que recorda com mais saudade desse Campeonato do Mundo?

O futebol de qualidade que a seleção nacional apresentou e que surpreendeu toda a gente. Posso dizer, com orgulho, que as pessoas começaram a gostar mais de futebol em Portugal a partir desse Campeonato do Mundo. Mas houve um episódio em especial que se passou no jogo com a Coreia do Norte, nos quartos-de-final, em que virámos o resultado de 0-3 para 5-3. Os adeptos ingleses ficaram de pé a aplaudirem-nos, isto apesar de até preferirem que a Coreia do Norte fosse a adversária da sua seleção nas meias-finais. Foi um distinto exemplo de fair play dos ingleses. Em Portugal um gesto destes não seria possível.

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