Benfica-Sporting. "Roubo" de jogadores vem desde a fundação

Em 1907 foram oito águias seduzidas pelos leões. Desde a criação do campeonato já foram 17 atletas a mudar de barricada... quem serão os próximos?

"Vou fazer uma pequena loucura, que se calhar não devia. Mas vou. Há 25 anos brincaram connosco mas não brincam mais." Estas foram as palavras de Luís Filipe Vieira na assembleia geral do Benfica, já madrugada dentro, em jeito de aviso ao rival Sporting, que horas antes recebera mais uma onda de cartas de rescisão enviadas por Bruno Fernandes, Gelson Martins, William Carvalho e Bas Dost.

O líder dos encarnados não esqueceu o ano de 1993, quando o então presidente leonino Sousa Cintra foi à Luz buscar Paulo Sousa e António Pacheco, e quase conseguiu "roubar" João Vieira Pinto, que rescindiram por salários em atraso. Bruno Fernandes e Gelson serão agora os alvos benfiquistas.

A história da rivalidade entre Benfica e Sporting existe quase desde o berço. Tudo começou em 1907, um ano depois da fundação dos leões, quando José Alvalade seduziu oito jogadores encarnados, então ainda denominados Sport Lisboa, com um excelente campo de futebol, bons balneários, uma bola nova em todos os jogos, lanches e jantares pagos. As crónicas da altura revelam até que terá existido dinheiro envolvido. E com essa proposta irresistível, na altura, Cândido Rosa Rodrigues, António Rosa Rodrigues, José da Cruz Viegas, Emílio de Carvalho, Albano dos Santos, António Couto, Daniel Queiroz dos Santos e Henrique Costa mudaram-se para o Sporting.

Pérides pagou para ir para a Luz

O futebol em Portugal estava ainda nos primórdios, mas a rivalidade terá nascido nesse momento, existindo nos anos seguintes várias trocas de camisola. Já após a criação do campeonato nacional foram 17 os jogadores que trocaram diretamente de rival. Os precursores dessa era foram o médio Joaquim Alcobia (1936/37) e o guarda-redes António Martins (1938/39) trocaram os leões pelas águias.

Já nos anos 60, no início da época 1963/64, o guarda-redes José Barroca, farto de ser suplente do histórico Costa Pereira na Luz, mudou-se para o rival, em sentido inverso seguiu, na época seguinte, o médio Pérides, depois de pagar 250 contos pela desvinculação do Sporting. Por essa altura, a tensão entre os rivais era imensa, ainda resquícios da novela que envolveu a chegada de Eusébio à Luz.

A década de 70 do século passado, foi bem mais animada em relação a trocas diretas entre os dois rivais. O defesa Artur Correia estava há seis temporadas no Benfica, mas não se conformou com o facto de o diretor para o futebol Romão Martins querer baixar-lhe o ordenado na renovação de contrato, contrariando uma promessa anterior e perante isso deixou o clube do coração e rumou a Alvalade em 1977/78. O verão de 1979 foi marcado por quatro trocas diretas, pois o guarda-redes António Botelho e o defesa Laranjeira não chegaram a acordo para um novo contrato com o Sporting e rumaram ao Benfica e em sentido inverso o guarda-redes António Fidalgo e o defesa Eurico Gomes trocaram a Luz por Alvalade pelo mesmo motivo.

Dez anos depois, Fernando Mendes, um jovem defesa-esquerdo formado em Alvalade, decidiu rescindir contrato com o Sporting por ter salários em atraso... apesar da ligação ao clube que o viu nascer, acabou por mudar-se para o Benfica, originando depois uma autêntica guerra de palavras entre os dois clubes.

Verão quente na Luz

Um dos momentos mais conturbados entre Benfica e Sporting ficou conhecido como "verão quente". O campeonato de 1992/93 tinha terminado e os encarnados estavam mergulhados numa crise profunda, com vários meses de salários em atraso aos seus futebolistas. Sabendo disso, Sousa Cintra, presidente dos leões, lançou um forte ataque ao plantel benfiquista, convencendo então o extremo Pacheco e o médio Paulo Sousa, um dos meninos queridos da Luz, a rescindir os seus contratos e a assinar pelo Sporting. Foram apresentados na pista de atletismo do Estádio José Alvalade, onde chegaram com pompa e circunstância, numa limusine branca. Nesse ataque foram ainda alvos Isaías, Vítor Paneira e João Pinto... que acabaram por permanecer no Benfica.

João Pinto, no entanto, havia mesmo de seguir para o Sporting sete anos depois, quando Vale e Azevedo, presidente do Benfica, decidiu rescindir contrato de forma amigável com aquele que era o ídolo dos adeptos encarnados, ficando então livre para decidir o seu futuro, que passou por Alvalade, pois claro. Pelo meio dois produtos da formação leonina tinham trocado o leão pela águia: Jorge Amaral (1993) e Marinho (1995), que tinham terminado os seus vínculos com o Sporting.

Já neste milénio (2007) foi o avançado brasileiro Derlei a ser contratado pelos leões, depois de seis meses no Benfica, clube que não exerceu o direito que tinha de assegurar o antigo futebolista do FC Porto para a época seguinte. Três anos depois, Yannick Djaló estava sem clube depois de ter falhado a sua transferência do Sporting para o Nice, tendo o Benfica aproveitado para assegurar mais um jogador proveniente da formação.

Carrillo fugiu na era de Bruno

Foi já com Bruno de Carvalho como presidente do Sporting que se deu a última mudança direta entre os dois rivais. No início da época de 2015/16, a relação entre o peruano Andre Carrillo e o líder leonino degradou-se devido ao facto de o jogador não pretender renovar contrato, que terminava no final dessa temporada. As posições extremaram-se a tal ponto que em meados de setembro o líder leonino afastou o extremo do plantel, passando a treinar sozinho.

O destino do futebolista, que atualmente se encontra ao serviço da sua seleção no Mundial2018, ficou traçado em janeiro de 2016, após um encontro com Luís Filipe Vieira, presidente do Benfica, em casa do empresário Paulo Barbosa. O contrato foi logo na altura assinado e depois foi só Carrillo contar os meses, sem jogar, até poder ser apresentado de águia ao peito.

Agora, são novamente as relações entre Bruno de Carvalho e os jogadores a estarem na base de outra possível deserção para o eterno rival. Bruno Fernandes e Gelson Martins parecem estar na mira do Benfica, mas é bom ter em atenção que outros jogadores já deixaram Alvalade através de rescisões em que alegam justa causa, são os casos de Rui Patrício, William Carvalho, Daniel Podence e Bas Dost.

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Nuno Artur Silva

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