Argentina: campeões do Mundo, já

Desde desempregados a família inteiras, há até adeptos sem bilhete: os argentinos fazem trinta por uma linha, todos unidos pelo sentimento do puño apretado

Ai é uma droga? Então quero. Muchisimo. Vá, dia sim, dia não. É uma droga, a Argentina. A equipa é uma droga má, sofrível, aquilo não tem pés nem cabeça, é o mundo de pantanas (daí que dois esquerdinos como Messi e Rojo decidam a vitória sobre a Nigéria com o pé direito). Falo é dos adeptos. Droga boa, buenisima. De nos fazer sonhar acordados até às tantas da manhã, num misto adrenalina-excitex muy bárbaro. É doce e travessura ao mesmo tempo, alegria ilimitada, prazer sem fim. Isto já não é futebol nem campeonato do mundo, é algo superior, mais intenso e inalcançável.

Vejo a Argentina no Mundial 2018 assim ao longe, sem dar muito cavaco. Quer dizer, estaciono em São Petersburgo e eles andam por Moscovo e Nizhny Novgorod. Baaaaah, quero lá saber. Gosto deles, sobretudo daquele azul da inesquecível camisola patrocinada pela Le Coq Sportif no Mundial 86. Só que não. Para já, estão longe. Da minha cabeça, do meu coração. Ao empate desastroso na jornada de abertura (atenção, atenção, a última selecção a empatar 1-1 com a Islândia na primeira jornada é campeã desse torneio: Portugal no Euro 2016), segue-se o arrepiante 3-0 da Croácia. Pior, o único remate à baliza de Messi é o penálti falhado. Ou melhor, defendido por Halldarsson, o tal realizador de cinema. A coisa está preta. E lá vêm eles para Petersburgo. Sim, ao fim de semana e meia, já tirei o São da equação. Já sou da casa. Mais uns dias e lá se vai o burgo, é só Peter e está a andar de moto. Ou autocarro, como faço para chegar aos estádios.

Vejo um golo de Ronaldo (vs. Marrocos), outro de Neymar (vs . Costa Rica), só falta um de M... Moses? Cool. Messi? Olha, e porque não? Perfila-se como candidata a equipa das camisolas mais badaladas do Mundial (filas e filas, horas e horas de espera na Nike de Londres). Eis a Nigéria, animada com o 2-0 à Islândia. A Argentina aterra aqui completamente destroçada. No 3-0 da Croácia, chora-se no estádio, à grande e à argentina. Desde o choro copioso à lágrima solitária, aos olhos cheios de água. Choram adultos e crianças, mulheres e homens, todos unidos pela fatalidade do destino: a seleção do seu país batida, sem apelo nem agravo. Três bolas a zero. Messi: zero talento para dar a volta aos acontecimentos.

Do River ao Gimnastica de Jujuy
O caminho para o estádio do Zenit é uma viagem aos sentidos. Há adeptos a mais, todos argentinos, vestidos à argentina. Ou é a camisola da selecção ou é a dos clubes. Há de River, Boca, Newell's, Independiente, Racing, Huracán e até do Gimnastica de Jujuy. Porra, de Jujuy. Jujuy é para lá do sol posto. Mesmo, é longe para cacete. Dentro da Argentina, digo. É uma aventura, Buenos Aires-Jujuy. Imaginem agora Jujuy-São Petersburgo. Malta de todo o lado, aos magotes, eles não páram. De cantar e de saltar. Todos juntos, unidos pela mesma paixão. (abro um parêntesis curvo para dar conta da loucura generalizada pela selecção, superior à atitude clubite madness bué da baldas)

Fecho o parêntesis e retomo o fio à meada. Há argentinos a mais. Pudera, muitos chegam aqui sem bilhetes. A sério, acreditem. Viajam completamente sem rede, na esperança de entrar e gritar pelo seu país. À espera de ouvir um need ticket? que encha a sua alma. E há argentinos desempregados. Com bilhete, só que desempregados. Esgotam as suas poupanças e faltam ao emprego só para cruzar o Atlântico mais a Europa toda de fio a pavio. À espera de uma alegria. Como diria Victor Hugo Morales, a respeito daquele slalom de Maradona aos súbditos de Sua Majestade em 1986 (o doce na ressaca da travessura na mão de Deus), para que el país sea un puño apretado gritando por Argentina.

Basta-nos o hino para entender a dinâmica do puño apretado. Arrepiante. Se só houvesse o campeonato mundial dos hinos, Argentina apurada diretamente para as meias-finais, juntamente com Brasil e Rússia (sim, seriam as meias-finais mais desconcertantes de sempre, tipo vocês os três façam um quadrado). A bola ainda está no meio-campo, antes daquele folclore piroso da FIFA com a contagem decrescente ao ritmo de uma música fatela, e a ideia de desequilíbrio é óbvio. Nenhuma selecção deste Mundial merece estes adeptos, não há ninguém que jogue tanto à bola para cativar 60 mil-e-tal "índios", loucos, travessos, aos pulos. Talvez a Croácia se aproxime, talvez. A Argentina não, nem pensar. Jogam aos repelões, sem imaginação nem critério. Ora avançam todos, desnorteados, ora mobilizam-se, congelados. E têm imensas paragens cerebrais.

Break. De repente, não há net. Pela primeira vez no Mundial, não há net na zona de imprensa. Os senhores da FIFA parecem baratas tontas, de um lado para o outro, acompanhados pelos voluntários cheio de clearasil. A culpa é dos argentinos. Lo siento, é mesmo. Eles consomem tudo, tudo, tudo. E assobiam o seleccionador Sampaoli sempre que ele sai do banco. Que é quase sempre. E só aplaudem energeticamente Messi mais Higuaín, os outros ainda não têm estatuto para tal. Rojo rouba a bola, entrega-a a Banega e Messi faz o resto. Que é domínio, controlo e cabuuuuuum. Um-zero. Euforia. A Nigéria empata de penálti. Segue-se o quê? Mais euforia ainda.

Ninguém desiste, todos aos saltos, todos a cantar. Nem por sombras se vislumbra o 2-1 da Argentina. Continua a jogar pouco e mal, sem perigo para a baliza do adolescente Uzoho (19 anos). Até que Rojo aparece na área sabe-se lá de onde e toma lá, vai buscar - tal como decidira o Argentina 3 Nigéria 2 no Mundial 2014, é seu o 2-1 final. É o fungagá da bicharada. Acho eu. As doze horas seguintes derrubam categoricamente o "acho eu". Para já, o estádio continua composto 45 minutos depois do apito final. Os argentinos não arredam pé, todos aos abraços, seja nas casas-de-banho, escadas rolantes ou até no chão. E quando o fazem é para colorir Petersburgo do seu azul mágico. É a noite branca mais entusiasmante e longa do Mundial. Sem saber ler nem escrever, a Argentina aguenta-se mais uns dias. Os adeptos do puño apretado merecem.

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