Árbitro gay retira-se farto de insultos homofóbicos

Jesús Tomillero, de 21 anos, argumenta que já não tem forças para continuar a lutar contra a discriminação

Desde que assumiu publicamente que era gay, através das redes sociais, Jesús Tomillero, 21 anos, nunca mais teve sossego. Dentro e fora dos campos de futebol, onde durante anos apitou jogos das camadas jovens e escalões inferiores em Espanha. Nesta semana fartou-se. E anunciou a sua retirada da arbitragem cansado dos constantes insultos homofóbicos que lhe são dirigidos.

"O que mais amo neste mundo é a arbitragem. Dediquei toda a minha vida a isto, é a única coisa que sei fazer. Mas decidi parar, pelo menos esta época. Já não tenho ganas para continuar a lutar", disse o árbitro espanhol, depois de no último fim de semana ter sido (outra vez) insultado por um adepto do San Fernando durante um jogo da II categoria juvenil da Andaluzia. "Pedi a presença da polícia para o identificar. E apresentei queixa", disse, magoado com a cumplicidade a que viu nas bancadas do estádio e de comentários de jogadores nas redes sociais a saudarem o seu abandono.

O árbitro lamentou a falta de apoio da Federação da Andaluzia em toda esta situação, mas fez questão de agradecer as muitas manifestações de solidariedade que recebeu através das redes sociais. Duas em especial. "Pablo Iglesias [líder do Podemos] e Mariano Rajoy [primeiro-ministro em funções] enviaram-me mensagens. Recebi milhares de mensagens de apoio", frisou. Os insultos homofóbicos desde que assumiu publicamente a sua orientação sexual foram uma constante nos últimos tempos. E Jesús Tomillo utilizou sempre as redes sociais para denunciar os casos. Em março, por exemplo, lamentou o castigo aplicado a um técnico de equipamentos de um clube de jovens de 14 a 15 anos (nove jogos e 30 euros de multa) que lhe dirigiu graves insultos por o árbitro o ter ameaçado de expulsão. Jesús Tomillo foi o primeiro árbitro de futebol espanhol de que há memória a assumir ser homossexual - "Sou o primeiro árbitro a sair do armário. Estava farto da discriminação. Ninguém tem o direito de julgar ninguém, amo quem me apetecer." Mas não tem dúvidas de que existem mais com a mesma orientação sexual: "Se há mais? Existem milhares, mas têm medo de assumir. Não imaginam quantos árbitros me contactaram nos últimos tempos. A maioria para me dar força e agradecer a minha luta."

O árbitro insurgiu-se recentemente contra um episódio passado com Cristiano Ronaldo, que num recente Barcelona--Real Madrid, realizado em abril, foi alvo de insultos homofóbicos por parte dos adeptos do clube catalão: "É algo vergonhoso. Acho que o Ronaldo não é gay, mas isso para o caso é insignificante. É inadmissível mexer com os sentimentos das pessoas para as deitar abaixo. Não há direito que o façam."