Quatro golpes perfeitos levaram Telma ao bronze

Atleta do Benfica conquistou a 12.ª medalha em europeus. Ana Oliveira explica como a judoca superou a operação e continua em alta

David Pereira e Isaura Almeida

Não falha uma. Em 12 Europeus de judo, 12 medalhas para Telma Monteiro. A última, de bronze, foi conquistada ontem, em Telavive, Israel. Uma vitória por ippon (golpe perfeito, tal como nas três lutas anteriores), num combate com cerca de minuto e meio, deram à judoca portuguesa a medalha 14 anos depois da primeira, também de bronze, em 2004, com 18 anos.

"É sempre especial ganhar desta forma, é inexplicável... 12 em 12 é especial. Sempre disse que queria medalhas, mas com esta regularidade é incrível. Apesar de já ter passado a barreira dos 32 anos, ainda me sinto muito bem e com vontade de conquistar mais títulos e bater recordes", disse Telma em declarações à Antena 1.

Para Ana Oliveira, "não há palavras" para descrever os feitos de Telma. "Ela está no Benfica desde 2005 e é um orgulho enorme para mim e para o clube ela fazer parte do projeto olímpico. A consistência dela é extraordinária, é um feito só ao alcance dos predestinados e dos eleitos", disse ao DN a coordenadora do projeto olímpico do Benfica, amiga e fã da judoca.

Mas como "só o talento não ganha medalhas", a judoca teve de fazer pela vida para se tornar "uma campeã da resiliência e da humildade". É que a vida não foi fácil para a segunda judoca mais medalhada do mundo. O que conseguiu e conquistou foi a pulso, com mesma força que a ajuda a virar adversárias no tatami. Hoje, longe dos tempos em que a mãe teve de pagar a prestações o primeiro quimono, que custou 16 contos (80 euros), Telma é não só o orgulho da família como de um país.

Depois do bronze nos Jogos do Rio 2016, Telma não teve muito tempo para viver a glória olímpica. Menos de seis meses depois estava a ser operada ao ombro esquerdo. Uma intervenção que a obrigaria a ficar longe do tapete seis meses. "Depois de receber autorização médica para ir para o tatami eu perguntava-lhe: "Mas não te dói?" E ela respondia "claro que dói", assim como se fosse uma coisa normal", contou Ana Oliveira, revelando que já nos Jogos Olímpicos "ganhou a medalha com dores no joelho".

Aliás, "há alturas da época em que a Telma não passa um dia sem dores, mas isso para ela nunca foi impeditivo de treinar", elogiou Ana Oliveira, confessando que a judoca "é dos atletas que tem mais tolerância à dor". A forma como "ela consegue superar com excelência" uma adversidade como é uma lesão ou uma operação com paragem prolongada "é uma coisa notável", segundo a coordenadora do Benfica.

Na Luz, a judoca encontrou um projeto à sua medida. Integrada numa equipa multidisciplinar que a acompanha há anos, liderada pelo mestre Jorge Gonçalves, treina com todo o tipo de atletas, homens, mulheres, mais altos, mais baixos, mais pesados ou mais leves, para poder experimentar todo o tipo de adversárias. Além de ter médicos, fisioterapeutas, psicólogos, nutricionistas e massagistas à disposição, que a ajudaram a voltar à competição antes do prazo previsto, após a operação ao ombro esquerdo, em janeiro de 2017.

Voltou aos treinos depois do verão do ano passado e chegou ao bronze europeu depois de um sétimo lugar no Grand Slam de Paris e do ouro no Grand Slam de Ecaterimburgo, na Rússia. Algo que fazia adivinhar uma medalha em Israel. "A competição e a ambição faz parte do ser da Telma. Para ela é uma forma de vida", atirou Ana Oliveira, apontando a Tóquio 2020: "Os resultados motivam."

Depois recordou a menina e atleta que Telma era há 15 anos: "Era muito mais emotiva, uma atleta que se deixava influenciar nos combates e mesmo fisicamente. Hoje é uma atleta mais madura e muito mais forte fisicamente." Aliás, na opinião da coordenadora, "se a Telma em 2008 e 2012 tivesse a maturidade, a experiência e a resiliência que tem neste momento, a medalha de 2016 seria a terceira e não a primeira da carreira."

Quatro vitórias por ippon

A pentacampeã europeia e 12.ª do ranking mundial entrou ontem forte no tatami e venceu a israelita Maayan Greenberg e a croata Tena Sikic, ambas por ippon, antes de perder o terceiro combate da fase de grupos, com a kosovar Nora Gjakova, quinta do mundo, e já não poder disputar o ouro.

Relegada para a repescagem que dava acesso ao combate pelo bronze, defrontou a conceituada húngara Hedvig Karakas, com quem já tinha combatido sete vezes e vencido seis, terminando o combate com mais uma vitória por ippon. E seria novamente com um golpe perfeito, o quarto, que chegaria ao bronze, no frente-a-frente com a francesa Sarah Leonie Cysique.

"A Telma tem dos ippons mais bonitos e mais rápidos da história do judo mundial, é algo que tem melhorado. Ela consegue manter os níveis de concentração quando os sinais de fadiga são superiores, são duas conquistas dela conseguidas com treino. Consegue fazer isso com mais tranquilidade e quase no final do combate, esse pormenor foi trabalhado e melhorado", elogiou Ana Oliveira.

O bronze de Telavive junta-se às cinco medalhas de ouro em Europeus, a uma de prata e a outras cinco de bronze. A antiga líder do ranking mundial nas categorias de -52 kg e -57 kg, hoje com 32 anos, conta também com um bronze em Jogos Olímpicos (Rio 2016), cinco em Campeonatos do Mundo, quatro de prata e uma de bronze e muitos mais triunfos em Taças do Mundo e Grand Slams.