A grande tarde de um inédito vencedor sobre um leão deprimido

O Desportivo Aves venceu (2-1) o Sporting e fez história após uma semana em que foi completamente abafado pela crise leonina

Esta não era apenas mais uma final da Taça de Portugal. Os acontecimentos de Alcochete, que levaram malfadadamente Portugal a todos os cantos do mundo, tinham transformado o jogo da apelidada prova rainha do futebol nacional como uma espécie de tentativa de reconciliação entre os jogadores do Sporting - alguns deles a jogar de leão ao peito pela última vez - e os seus adeptos. Tamanha era (e continua a ser) a diferença de dimensão entre um e outro clube que pouca gente pensava noutro desfecho que não o triunfo leonino.

O Desportivo, principal equipa da Vila das Aves, com oito mil habitantes, após uma semana em que passou ao lado da esfera mediática, engalanou o Jamor com os seus empolgantes adeptos e aproveitou o facto de ter pela frente um leão verdadeiramente deprimido, que agora podia estar a festejar não fossem os problemas de base que Gelson Martins evidencia na finalização - já lá vamos.

Esta não é uma crónica normal porque o jogo começou antes do apito inicial. Paulinho, o famoso roupeiro do Sporting, quando abandonou o aquecimento, percorreu as bancadas leoninas numa espécie de apelo à reconciliação da família sportinguista. Esse foi um momento verdadeiramente tocante, como muito bonita foi a forma como os adeptos do Aves aplaudiram a equipa do Sporting quando esta entrou para aquecer. Este não era apenas um jogo.

Ao primeiro abanão...

Quando se iniciou o jogo após o apito de Tiago Martins vimos um Sporting destemido na procura do golo. Até aos 16 minutos, Gelson fez brilhar o guarda-redes quarentão Quim - que venceu uma final à terceira tentativa - em duas ocasiões quando o golo era o desfecho natural. Até esse momento qualquer disparate feito por um jogador do Sporting era quase aplaudido como se um golo fosse pelos seus adeptos. Até que... num contra--ataque rápido desenvolvido pelo lado direito do ataque da equipa de José Mota... Alexandre Guedes emendou ao segundo poste um centro de Braga. Refira-se que Rui Patrício não fica bem na fotografia, mas não foi o único. Mérito para o avançado formado no Sporting.

A formação leonina abanou, e de que maneira, com o golo de Guedes. Parecia que havia uma anestesia geral, até Jesus não era aquele homem acutilante sempre a exigir o máximo dos seus jogadores. Era indisfarçável o problema psicológico que transtornava os futebolistas verdes e brancos. Um misto de querer e não poder. Entre o 1-0 e o intervalo se houve uma equipa com possibilidades de marcar foi o Desportivo das Aves por intermédio de Braga e Rodrigo.

A segunda parte começou com Montero no lugar de William e logo nos primeiros instantes o colombiano combinou bem por duas vezes com (o muito afetado) Bas Dost. Seguiu-se um livre de Mathieu que Quim deteve com dificuldade, uma pressão intensa do Sporting com muito coração mas pouca razão. Os jogadores tentavam fazer depressa e bem, mas com pouco discernimento.

Estávamos nesta toada quando o inspirado Guedes foi isolado pela esquerda, bailou sobre Coates e atirou para o 2-0, o que levou muitos adeptos leoninos a abandonar o Jamor. O Aves tinha mão e meia na Taça, mas sabia que precisava de aguentar o último fôlego leonino que começou com uma perdida de Bas Dost - remate à barra, digna dos apanhados - e ainda deu para Montero (85") reduzir a passe de cabeça do já ponta-de-lança Coates - houve quem se lembrasse da final 2014-15 em que o Sporting esteve a perder 0-2 com o Sp. Braga e ainda empatou levando a decisão para os penáltis.

A festa acabaria por ser dos homens da Vila das Aves - para desencanto também do Rio Ave que fica sem a Europa -, que não tiveram qualquer culpa de tudo o que tornou o Sporting notícia nesta semana. Ainda assim foi bonita a guarda de honra feita pelos vencedores da Taça à equipa leonina quando esta desceu a escadaria do Jamor - um momento que devia ser visto e revisto.

No que diz respeito ao Sporting, a crise segue dentro de momentos, nos quais ouviremos falar muito de rescisões, demissões, eleições. Mas se há coisa que os futebolistas leoninos perceberam no Jamor é que têm o carinho da esmagadora maioria dos seus adeptos. Mas isso, hoje, vale o que vale...

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