2006: Zizou do avesso, Itália certeira

Portugal perdeu com a Alemanha no jogo de atribuição do terceiro e quarto lugares

Não era a primeira vez, mas foi a última: Zidane foi expulso na final, depois de um grande mundial, por dar uma cabeçada no peito do nada inocente Materazzi. Curiosamente, o 1-1 que ditou prolongamento e penáltis foi construído com golos dos dois. E a Itália sagrou-se tetracampeã frente à França. Era a despedida do melhor do mundo, mas a apresentação dos sucessores: Cristiano Ronaldo e Lionel Messi. E 40 anos depois, Portugal chegava às meias-finais, sobrevivendo à batalha de Nuremberga.

Foi um mundial marcado pela reabertura do coração dos alemães, que viveram praticamente 60 anos envergonhados em fazer afirmações patrióticas. Bandeiras, cachecóis, caras pintadas e um apoio ruidoso à Mannschaft foi uma constante catarse nacional. Oito seleções estrearam-se: Angola, República Checa, Gana, Costa do Marfim, Togo, Trindade e Tobago, Ucrânia e Sérbia e Montenegro. E as sanções disciplinares saíam como pãezinhos quentes: 345 cartões amarelos e 28 vermelhos são um recorde do torneio. Entre estes, não se contabiliza o terceiro cartão amarelo que o árbitro inglês Graham Poll mostrou a Simunic no Croácia - Austrália...

Mas houve um jogo que bateu recordes. Nos oitavos-de-final, Portugal defrontava a Holanda no jogo que ficou conhecido como a "Batalha de Nuremberga". Foram mostrados 16 cartões amarelos (9 a lusos, 7 a holandeses) e quatro vermelhos (por acumulação de amarelos, dois para cada lado). Tudo começou com uma entrada animalesca de Boulahrouz sobre Ronaldo logo aos 7" - a jovem estrela teria mesmo de sair antes do intervalo. No final de um jogo muito violento, vingou o golo (23") de Maniche a apurar Portugal.

Antes, a seleção instituíra uma regra: sempre que vencia os três jogos da fase de grupos, chegava às meias-finais. Fora assim com a seleção do brasileiro Otto Glória, seria assim com a equipa do brasileiro Luiz Felipe Scolari (1-0 a Angola; 2-0 ao Irão, estreia de Ronaldo a marcar, de penálti; 2-1 ao México). Não foi assim no México 86, no Japão/Coreia 2002, não seria assim no África do Sul 2010, no Brasil 2014 e nem no atual Rússia 2018.

Ainda alimentada pela geração que fora uma amargurada finalista do Euro 2004 (derrota na Luz com a Grécia, 0-1), Figo, Ronaldo e Deco eram as estrelas maiores. E repetiu-se um confronto épico nos quartos-de-final: Portugal - Inglaterra. Se no Portugal 2004 Ricardo foi herói ao defender um penálti sem luvas e disparar o tiro decisivo, na Alemanha voltou a ser um muro no desempate através de grandes penalidades após 0-0. Defendeu três (Lampard, Gerrard, Carragher) e a seleção portuguesa ganharia por 3-1, com Simão, Postiga e Ronaldo a acertarem nas redes (Viana acertou no poste e Petit também falhou).

Na meia-final, o algoz, de novo. A França que já nos Euro 1984 e Euro 2000 eliminara nesta fase Portugal, travou a excelente caminhada da equipa de Scolari. Uma falta de Ricardo Carvalho sobre Henry permitiu a Zidane bater Ricardo de penálti. Não era para todos, mas para Zizou tudo ainda era possível.

Num mundial dominado pelas grandes potências, a expressão máxima foram os quartos-de-final: seis equipas europeias, Brasil e Argentina, que foram eliminados por França (0-1) e Alemanha (nos penáltis, após 1-1 no final de 120 minutos). Ou seja, as meias-finais eram europeias, com a Itália a arrumar a Alemanha com dois golos nos últimos minutos do prolongamento (Grosso e Del Piero).

Golos não foi coisa que abundasse - e Portugal foi um exemplo dessa escassez, tendo ficado em branco desde o minuto 23 dos oitavos-de-final até aos 88" do jogo de atribuição do 3.º e 4.º lugares, que perdeu 1-3 com a Alemanha. Foram 331 minutos sem marcar um golo. Klose fez cinco golos (aumentando para dez o pecúlio que chegaria ao atual recorde de 16 em mundiais) e oito jogadores chegaram aos três.

Mas abundavam as estrelas: Ballack, Klose, Schweinsteiger e Lahm (Alemanha; Figo, Cristiano Ronaldo e Deco (Portugal); Shevchenko (Ucrânia); Nedved (R. Checa); Beckham, Rooney, Gerrard, Owen e Lampard (Inglaterra); Riquelme, Tévez, Crespo e um jovem de 21 anos chamado Messi (Argentina); Van Nistelrooy, Van Persie e Robben (Holanda); Casillas, Xavi, Raúl e Villa (Espanha); Ronaldo, Ronaldinho, Kaká, Adriano e Roberto Carlos (Brasil); Zidane, Vieira, Thuram, Ribéry e Henry (França); Buffon, Totti, Pirlo e Cannavaro (Itália). Uma galáxia de estrelas.
Sobre todas pairou o futebol inteligente, bonito e eficaz de Zizou. E a arte de defender de Cannavaro. O primeiro foi o Bola de Ouro, o segundo foi o único defesa da história a ganhar, mais para o final do ano, o prémio FIFA para melhor jogador do Mundo em 2006. Referência ainda para a discussão do prémio de melhor jovem por CR7 (perdeu para o alemão Lukas Podolski) e para a inclusão nos 23 melhores de Ricardo, Ricardo Carvalho, Figo e Maniche (uma escolha do Gabinete de Estudos Técnicos da FIFA).

A final, no Olímpico de Berlim, foi um jogo de muitos nervos, com a Itália muito forte a defender e a gerir a pouca bola que tinha, e Zidane contra o Mundo. O francês colocou os gauleses na frente logo aos 7", de penálti, mas o seu carrasco Materazzi empatou de cabeça aos 19" (e fechava um ciclo inédito: o primeiro golo da prova também foi de um defesa, Lahm). O jogo manteve-se tenso, Materazzi provocou Zidane até à exaustão e num momento em que a bola estava no ataque italiano, já no prolongamento, o francês perdeu a cabeça. Ou melhor, atirou-a sobre o peito do defesa italiano, aos 110". Foi uma despedida triste e pouco consentânea com os créditos de um dos melhores jogadores de sempre do jogo. Nos penáltis, só Trezeguet falhou, mas foi o suficiente para a Itália, que marcou cinco contra três do adversário.

E 24 anos depois a Itália voltou à glória. O Brasil continuaria a dominar com cinco títulos, mas a azzurra aproximou-se com o quarto, adiantando-se à Alemanha (três), Argentina e Uruguai (dois). Inglaterra e França continuariam com um.

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