200 combates para ver em três dias na Odivelas Box Cup

A 5.ª edição do torneio, iniciativa do Privilégio Boxing Club, arranca sexta-feira e será a maior prova de boxe olímpico já realizada em Portugal, com perto de 300 atletas em competição

São mais de 290 atletas, homens e mulheres, com idades entre os 13 e os 40 anos, divididos por seis escalões, em representação de 55 clubes, de 16 países diferentes. Entre amanhã e domingo vão estar em competição no Pavilhão Multiusos de Odivelas naquele que será o maior torneio de boxe olímpico já realizado em Portugal.

Disputada desde 2014, a Odivelas Boxing Cup foi projetada por Bruno Carvalho, 41 anos, antigo pugilista campeão nacional e atual treinador, como uma forma de sujeitar os atletas que treinava no Privilégio Boxing Club, na Póvoa de Santo Adrião, a um nível de exigência superior devido ao contacto com competidores estrangeiros. "Como ia várias vezes a torneios internacionais, sempre ambicionei poder organizar um em Portugal, ao mesmo estilo do que encontrava noutros países. Um torneio Box Cup, como já existia na Europa, cuja vantagem é ser uma prova transitória, mais difícil do que um campeonato nacional, mas mais fácil do que uma prova de seleções, com a vantagem de oferecer experiência internacional aos atletas e a possibilidade de cada um fazer três combates, se atingir a final. É um torneio muito virado para a formação, para o crescimento dos atletas", explica o técnico ao DN.

O primeiro torneio teve lugar no pavilhão do Privilégio, em 2014, com apenas 32 atletas em prova, mas a ideia fez caminho e ganhou novos apoios (como o da autarquia local), que permitiram que nesse mesmo ano fosse disputada a 2.ª edição já no Multiusos de Odivelas. Depois, num curto espaço de tempo, a lista de participantes cresceu até às quase três centenas. "É fruto de muito trabalho. É uma tareia terrível de processos e detalhes, até porque a nossa modalidade não tem uma federação que nos dê esse apoio. Entre atletas, árbitros, treinadores, dirigentes, pessoal técnico e restante staff estão cerca de 500 pessoas envolvidas. É uma tarefa gigantesca conciliar isto tudo e obter um resultado que nos orgulhe", aponta Bruno Carvalho, acrescentando que até à 3.ª edição da prova os convites eram feitos pela própria organização aos clubes com que tinham relações mais próximas, enquanto agora a inscrição é aberta "ao mundo", o que ajudou a aumentar a quantidade de participantes. Dos 55 clubes em prova, 25 são nacionais e 30 estrangeiros - a maioria são europeus, mas também estarão representadas equipas de São Tomé e Príncipe, Senegal, Gana e Nigéria.

A falta de combates internacionais tem sido, na opinião de Bruno Carvalho, um dos principais obstáculos ao crescimento do boxe em Portugal, até porque é nos confrontos com atletas estrangeiros que se abre a possibilidade de contacto com os diferentes estilos de jogar. Destes, o treinador destaca o estilo cubano - "o melhor país do mundo em boxe olímpico, com mais títulos, cujos atletas são tecnicamente dotados e impõem um ritmo tal ao combate que mais faz lembrar uma dança em que conseguem bater e raramente ser golpeados" -, o ortodoxo - "desenvolvido pelos britânicos, com a guarda bem levantada e uma atitude guerreira de combater de peito aberto sem nunca desistir" -, o americano - "golpes curtos e fortes, de frente para o adversário, sempre a tentar esquivar-se dos ataques do adversário" - e o mexicano - "forte capacidade para aguentar golpe atrás de golpe, sem nunca cair, em que os pugilistas acabam por cansar o adversário graças a essa resistência". E o estilo português, onde se encaixa? "Nós somos atletas tecnicamente dotados, mas a quem falta alguma da frieza que vemos nos nórdicos e russos e alguma agressividade típica da América do Sul e Central. Ensinamos um boxe ortodoxo (mãos e braços bem subidos), mas, à parte da técnica, como é que vamos ensinar um atleta a ser combativo se ele não tem de combater por nada na vida, se tem tudo oferecido pelos pais? Essa combatividade acaba por depender em grande parte da própria personalidade do atleta. Esse traço é fundamental, até para escolher o melhor estilo de boxe para ele."

A aposta nas mulheres

Sendo um torneio olímpico, que não atribui títulos mas sim troféus individuais, a formação assume um papel central. O Privilégio vai contar com 11 atletas em prova. Um deles é o jovem Tomás Silva, de 15 anos, campeão nacional de cadetes, em quem Bruno Carvalho deposita esperanças de o ver competir numa futura edição dos Jogos Olímpicos. "O Tomás continua a evoluir muito bem, está no bom caminho. Um futuro atleta olímpico? Acredito muito nas potencialidades do Tomás, na maneira como trabalha e se dedica ao boxe. Ele tem potencial para lá chegar, mas esse é um longo caminho." No imediato, durante a Odivelas Box Cup (os bilhetes custam cinco euros para um dia e dez para toda a competição), Bruno Carvalho elege a competição feminina como aquela que deve ser seguida com mais atenção. "Será interessante ver o nível do boxe feminino português, porque é onde eu acho que podemos estar mais próximos da Europa e do mundo. As nossas mulheres são duras, aplicadas, e acredito que num curto espaço de tempo possam ter mais sucesso do que os homens. O boxe masculino internacional está muito desenvolvido, há muitos anos, e nós perdemos esse comboio, enquanto nas mulheres, por a competição olímpica ainda ser recente (só começou a disputar-se em Londres 2012), é mais fácil chegar a um nível superior", conclui o treinador.

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