1978: "papelitos" argentinos

Na final, a Argentina bateu a Holanda por 3-1 na final, após prolongamento

A Argentina representou bem os seus papéis, o de Estado tolerante (pior) e de equipa insaciável (bem melhor). As centenas de milhares de mortos promovidos pela ditadura militar do General Videla causaram grande apreensão global, e faziam ecoar o Mundial 1934 (ditadura de Benito Mussolini, com a Itália também a ganhar em casa/causa própria), mas o Mundial 1978 acabou mesmo por se realizar na Argentina, que seria campeã mundial pela primeira vez às custas de uma órfã Laranja Mecânica (sem Johan Cruyff). Ainda hoje se desconfia que, num jogo em que precisava de marcar quatro golos para chegar à final, houve um acordo entre a albiceleste e o Peru (e acabou 6-0, com o Brasil afastado). Foi o torneio em que os argentinos vibraram como se vivessem no mais livre e respeitador país do mundo, manifestando-se com o lançamento dos "papelitos": os adeptos atiravam milhões de pequenos papéis para o relvado para mostrar o seu apoio (insuportavelmente ruidoso), como uma praga de gafanhotos que ofusca o horizonte, conforme se pode comprovar nas imagens do relvado sempre altamente contaminado de papéis brancos. A Argentina assumiu os seus "papelitos".

Foi um mundial em que a cor se alastrou pelos televisores do planeta (depois da tímida expressão em 1970) e em que as ausências foram demasiado importantes: Beckenbauer e Paul Breitner (em rutura com o seleccionador), Johan Cruyff (30 anos depois, o próprio disse que se deveu à nova visão da vida com que ficou depois de uma tentativa de rapto de que ele, mulher e filhos foram alvo no lar familiar, em Barcelona) e um tal de Diego Armando Maradona. Este, aos 17 anos, foi preterido pelo lendário treinador Cesar Luis Menotti (por falar em treinadores lendários, Helmut Schon despediu-se da República Federal da Alemanha após quatro fases finais e um título quatro anos antes). Mas de D10S falaremos abundantemente nos próximos mundiais, particularmente no 1986, o do segundo título mundial argentino.

No capítulo das ausências, destaque para os campeões mundiais Uruguai e Inglaterra, com Portugal a continuar a travessia no deserto entre 1966 e 1986. A representação lusa ficou reduzida ao árbitro António Garrido, muito contestado pelos europeus, no primeiro jogo das duas equipas, o Argentina 2-1 Hungria. Dois húngaros foram expulsos.

Mas foi também o último torneio com apenas 16 equipas (e com aquele sistema peregrino adotado no Alemanha 1974, com duas fases de grupos a apurarem finalistas e contendores pelo 3.º lugar), com o primeiro triunfo de uma seleção africana (Tunísia 3-1 México). E em que novos craques emergiam na cena planetária: Hans Krankl, Paolo Rossi, Karl-Heinz Rummenigge, Kenny Dalglish. Ou outras confirmavam o estatuto: Johan Neeskens e Teófilio Cubillas (este último, já depois da passagem entre 1974 e 1977 pelo FC Porto, voltou a marcar cinco golos, tal como no Mundial 1970).

Acima de todos, Mario Kempes, "El Matador". O único a atuar fora do país (Valencia, Espanha), foi ele o melhor marcador do torneio com seis golos, dois decisivos na final frente à Holanda. Mas esta era a Argentina de Fillol, Passarella, Houseman e Luque (além de um certo Alberto Tarantini, que cedeu o apelido ao atual capitão do Rio Ave, Ricardo José Vaz Alves Monteiro).

A Holanda não tinha Cruyff, mas tinha Ruud Krol, Wim Jansen, Arie Haan, os gémeos van de Kerkhof (mais René do que Willy), Rob Rensenbrink, Johnny Rep e o craque do Barcelona Johan Neeskens.

As duas equipas sentiram algumas dificuldades na primeira (a Argentina perdeu com a Itália, a Holanda empatou com o Peru) e segunda fases (o Brasil empatou a Argentina, a Escócia bateu a Holanda num jogo épico - ver mais à frente). A propósito de campeã em título, o empate com a Itália e a derrota com a Áustria afastaria a equipa até do jogo de 3.º e 4.º, disputado por Itália e Brasil e ganho pelo escrete de Zico, Leão, Rivelino e Roberto Dinamite, frente à Itália de Zoff (titularíssimo), Cabrini, Gentile, Scirea, Rossi e Tardelli - ou seja, a base do título no Espanha 1982.

Na final, tudo muito equilibrado entre Argentina e Holanda, mas com a equipa da casa a ter a fortuna do seu lado. Esteve na frente com um golo de Kempes (38"), sofreu o empate aos 82" (Nanninga) e podia nem ter chegado ao prolongamento de toda a euforia: antes dos 90", Rob Rensenbrink dispôs de uma ocasião soberana, rematou dentro da área sem que Fillol pudesse fazer alguma coisa, mas a bola embateu no poste. Nos 30 minutos suplementares, o génio de Kempes veio ao de cima, apontando o 2-1 e assistindo Bertoni para o 3-1 final.

A terminar, uma referência a um jogo que figura como um dos clássicos dos mundiais: o 3-2 da Escócia sobre a Holanda. Foi uma partida de grande nível com um golo brilhante do escocês Archie Gemmell. Este golo seria levado para a cultura popular escocesa pelo romancista Irvine Welsh na sua obra de estreia Trainspotting, em 1993 (três anos depois, seria popularizado mundialmente com o filme protagonizado por Ewan McGregor.

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