Inspirou Obama e agora vai fazer história nos Jogos Olímpicos

Aos 30 anos, a esgrimista Ibtihaj Muhammad vai tornar-se a primeira mulher norte-americana a participar nas Olimpíadas com o véu islâmico vestido

A atualização de fevereiro da Infostrada Sports, que projeta o medalheiro dos Jogos Olímpicos de 2016, prevê que os EUA vão ser o país mais bem-sucedido no Rio de Janeiro, com 42 medalhas de ouro, 24 de prata e 28 de bronze. Ibtihaj Muhammad, esgrimista de 30 anos, não integra esta lista, mas é, até ao momento, a única atleta com um pedido presidencial: Barack Obama pediu-lhe a medalha de ouro das Olimpíadas deste ano.

Na visita à Sociedade Islâmica de Baltimore, o presidente dos EUA destacou, no seu discurso, Ibtihaj Muhammad, pedindo-lhe que se levantasse para que a aplaudissem. O pedido não foi feito ao acaso: a desportista de 30 anos, que nasceu em Maplewood, em Nova Jérsia, vai tornar-se a primeira atleta dos EUA a participar nos Jogos Olímpicos usando o véu islâmico.

"Uma das americanas que vão representar a nossa bandeira vai ser uma campeã esgrimista, que vai utilizar o seu véu islâmico nas próximas Olimpíadas. Ela está cá hoje. Levanta-te, vá lá", sorriu Obama, perante alguma timidez da atleta. "Eu pedi-lhe para trazer o ouro para casa. Sem pressão", atirou, provocando sorrisos entre a plateia.

O presidente dos EUA lembrou que o desporto nacional já beneficiou de grandes atletas ligados ao islamismo, citando os exemplos de Muhammad Ali, lenda do boxe, Kareem Abdul-Jabbar, melhor marcador da história da NBA, e Hakeem Olajuwon, outra antiga estrela da maior liga de basquetebol do mundo. Mas na esgrima Ibtihaj Muhammad é um caso raro.

Foi vista com desconfiança quando se iniciou na esgrima

"Há muitos atletas afro-americanos, mas não me consigo lembrar de uma única mulher muçulmana na qual me possa inspirar enquanto atleta", disse à CNN Ibtihaj Muhammad, recordando os preconceitos de que era alvo quando, aos 13 anos, decidiu começar a construir uma carreira na esgrima.

"Não havia pessoas negras nem sequer muçulmanas. Entre a comunidade islâmica, todos pensam sempre que os jovens devem ser doutores ou advogados. Não havia diversidade nenhuma na esgrima nos EUA. Sendo eu uma afro-americana muçulmana, posso ser essa mudança", congratulou-se Ibtihaj Muhammad.

O porquê da esgrima

Criada numa família com quadrigémeos, Ibtihaj foi desde pequena incentivada pelos pais a praticar desporto. Não só como forma de manter uma atividade física, mas também como medida de integração social. Porém, Muhammad sentia-se "diferente", pois o véu chamava todas as atenções. Até que a sua mãe propôs uma solução: a esgrima, que se praticava no liceu que Ibtihaj frequentava.

"O que me interessou na esgrima foi que encontrei um desporto adaptado às minhas crenças religiosas, em que posso usar o hijab [véu islâmico]. Queria poder utilizar confortavelmente o hijab num desporto. Se não fosse por isso, nunca teria experimentado a esgrima", contou a atleta. O facto de a esgrima se praticar com um fato próprio e uma máscara, que cobre todo o corpo, permitia que Ibtihaj passasse despercebida. Mas agora quer ser notícia por ser a primeira atleta com um véu a representar os EUA nos Jogos Olímpicos.

"Há que demonstrar que o hijab não é um obstáculo. Quero ser um exemplo para todas as mulheres que lutam pelos seus objetivos", desejou Muhammad, que em 2007 concluiu, na Universidade de Duke, o curso de Relações Internacionais e Estudos Afro-Americanos, tendo ainda feito uma especialização em língua árabe. Três vezes campeã nacional nos EUA, a atleta vai cumprir o sonho de participar nas Olimpíadas pela primeira vez, numa modalidade que se divide em três especialidades: florete, espada e sabre.

"Acreditei sempre no mesmo: trabalho e perseverança. Sonhei que podia ir aos Jogos Olímpicos com as minhas colegas norte-americanas e conseguimos. Quando as pessoas pensam num esgrimista norte--americano, de certeza que não imaginam alguém como eu. Mas, felizmente, não sou como a maioria", atirou a atleta, que é também proprietária de uma loja de roupa destinada a mulheres muçulmanas, nomeadamente de venda de véus islâmicos e vestidos que cubram todo o corpo.

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