Não é Setúbal, é Vitória e dizem que é "enorme"

O clube comemora a sua fundação. Para os adeptos é o "quarto grande", mas a verdade é que está numa encruzilhada.

Subiu a pulso. À semelhança do próprio estádio, onde homens e mulheres cruzaram forças e saberes para erguerem o carismático Bonfim. O país chama-lhe "Setúbal". Mas os sadinos corrigem de imediato: "Vitória". Asseguram que "não é grande, é enorme", embora já não una a cidade como nos anos dourados da década de 70. Terá sido "traído", dizem, pelo marketing em torno dos "grandes de Lisboa". Mas ainda arrasta multidões a reboque de um século de história - hoje assinalada - que o coloca no topo do futebol nacional.

Os olhos de Maria da Conceição Casaca brilham com uma intensidade exuberante à medida que vai avançando entre as maiores conquistas em plena sala de troféus. É ela, do alto dos seus 70 anos, que conhece cada recanto do espólio. Desafia quem quiser a comprovar a dimensão do Vitória. "Somos o quarto clube português", afirma, alicerçada, sobretudo, entre as três taças de Portugal e a primeira edição da Taça da Liga, alertando para outros troféus conquistados lá fora, embora passe a mão com especial carinho por uma tal de "Taça Recompensa". O troféu que a população mandou fazer na Ourivesaria Pedroso para oferecer ao clube, após a derrota com o Sporting na final da Taça de Portugal, em 1954. "O terceiro golo foi em fora de jogo escandaloso. Roubaram-nos em campo", lamenta.

Os actuais 20 mil sócios colocam o Vitória de Setúbal na sexta posição, a par do Sporting de Braga. Na economia local continua a ser um parceiro privilegiado na promoção de algumas empresas e é amado entre os donos das principais bancas do Mercado do Livramento, onde cachecóis e bandeiras verdes e brancas se "misturam" com sardinhas e carapaus. A própria autarquia distinguiu o clube com a Medalha de Ouro da cidade, pelos cem anos.

Mas é o passivo de aproximadamente 12 milhões que tem amputado outros voos. Há duas épocas, os três meses de salários em atraso quase ditaram uma greve no plantel profissional. Foi Fernando Oliveira, o actual presidente que recuperou o moribundo.

"A culpa é dos paizinhos que levam os filhos a treinar para Benfica e Sporting" remata, garantindo residir aqui a quebra acentuada em que o clube mergulhou nos últimos 20 anos, depois dos saudosos domingos, entre finais de 60 e princípios de 70, em que raramente alguém passava em Setúbal. O reconhecimento teve o ponto alto a 10 de Dezembro de 1969, quando o Vitória viu sete jogadores convocados para a selecção - Vital, Conceição, Carlos Cardoso, Tomé, Guerreiro, Figueiredo e Jacinto João - num jogo com Inglaterra.

Sócia desde os 13 anos (492), Maria da Conceição guarda diariamente os troféus como voluntária, quase que a agradecer todas as alegrias que o Vitória lhe deu.

Tinha 17 anos quando abraçou, com a população, o maior desafio da vida do clube: construir um estádio nos terrenos do Bonfim. Perdeu a conta ao número de fitas que confeccionou, com as cores vitorianas, para os homens usarem na lapela. "Até havia potes espalhados na rua onde as pessoas davam o que podiam. Já viu o que seria isso hoje?", ironiza.

"As mulheres faziam este género de trabalhos e os homens acarretavam pedra." Não faltava quem saísse do trabalho e ofertasse largas horas de labuta ao projecto. Percebem-se os olhos revirados de Maria da Conceição quando se puxa o tema da deslocalização do estádio para o Vale da Rosa.

Mas as mais recentes notícias têm deixado esta adepta dormir mais tranquila. O presidente rejeita retirar o clube do centro da cidade. O dirigente já solicitou uma reunião com a Pluripar, promotora do projecto Nova Setúbal e detentora dos direitos de superfície do Bonfim a troco de 750 mil euros por ano, com o objectivo de rescindir o contrato. Acontece que a Pluripar adiantou algumas verbas quando em 2008 assinou o contrato com o clube e câmara para a exploração comercial dos terrenos. Mas com o projecto "encalhado" e depois da Pluripar ter deixado de pagar a verba estipulada, Fernando Oliveira quer aproveitar para recuperar a casa e remodelar o Bonfim. Diz que se o clube se libertasse deste compromisso teria condições para encontrar outros investidores. E ganhar asas.

Exclusivos

Premium

Espanha

Bolas de aço, berlindes, fisgas e ácido. Jovens lançaram o caos na Catalunha

Eram jovens, alguns quase adultos, outros mais adolescentes, deixaram a Catalunha em estado de sítio. Segundo a polícia, atuaram organizadamente e estavam bem treinados. José Manuel Anes, especialista português em segurança e criminalidade, acredita que pertenciam aos grupos anarquistas que têm como causa "a destruição e o caos" e não a luta independentista.