Criminosos usam futebol para lavagem de dinheiro

Os clubes de futebol são vistos pelos criminosos como "veículos perfeitos para a lavagem de dinheiro" sujo, indica o relatório "Lavagem de dinheiro através do sector de futebol", elaborado pelo Grupo de Acção Financeira (FAFT-GAFI).

O relatório, ontem divulgado pela Organização de Cooperação e Desenvolvimento Económicos (OCDE), salienta que nas duas últimas décadas o futebol passou de um passatempo popular para indústria global e os investimentos e fluxos financeiros do sector "cresceram exponencialmente", nalguns casos com "ligações criminosas".

O relatório salienta que, com a crescente cooperação do sector financeiro no combate à lavagem de dinheiro sujo, os criminosos adaptaram-se e procuraram novos canais para lavar os resultados das suas actividades ilegais, ficando vários sectores de actividade legais em risco de serem infectados pelas suas actividades.

O documento salienta que a lavagem de dinheiro sujo através do futebol não passa apenas por investimento em clubes, mas também pelas transferências de jogadores, que por vezes envolvem "verbas astronómicas", pela indústria de apostas, designadamente online, e pelos patrocínios e publicidade.

O sector das apostas desportivas, tema não desenvolvido no relatório, deve ser objecto de especial atenção.

O FAFT-GAFI, organização inter-governamental de combate à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo, que funciona em Paris na sede da OCDE, assinala que as vulnerabilidades relacionadas com a estrutura, o financiamento e a cultura do sector tornam a indústria de futebol atractiva para os criminosos.

O relatório explica a vulnerabilidade do futebol pela facilidade de penetrar neste mercado, pela complexidade e opacidade das redes de accionistas e interdependência entre diferentes actores, pela falta de uma gestão profissional do sector, pela diversidade de estruturas legais, de clubes a sociedades anónimas, muitas vezes com gestão autónoma de estádios e outras actividades e de fundos de jogadores.

Facilita a vulnerabilidade da indústria a existência de enormes verbas envolvidas, muitas vezes com elevados fluxos em dinheiro vivo, num sector em que tradicionalmente grande parte das verbas vinha da venda de bilhetes e quotas de sócios, e pela irracionalidade de algumas verbas envolvidas.

O FAFT-GAFI adianta que há exemplos de clubes que trocaram jogadores sobreavaliando-os para inflacionarem o valor dos activos nas suas contas.

O relatório assinala que as dificuldades financeiras de muitos clubes levam os seus responsáveis a aceitar financiamentos de proveniência duvidosa, observando que a actual crise económico-financeira pode acentuar essas dificuldades pela perda de patrocínios e receitas televisivas.

O documento destaca que a importância da imagem dos clubes para a sua actividade pode levar os seus gestores a não denunciar situações de lavagem de dinheiro e outras actividades ilegais de que tenham conhecimento.

Considera que a vulnerabilidade social de alguns jogadores, em particular jovens, pode facilitar negócios nebulosos.

O FAFT-GAFI sublinha que o estatuto social, local, nacional ou internacional, conferido aos dirigentes dos clubes, pode ser uma forma atractiva de criminosos obterem prestígio social e ganharem acesso a pessoas e círculos poderosos na sociedade.

A organização apresenta ainda um conjunto de recomendações às autoridades públicas nacionais e internacionais, nomeadamente da União Europeia, e às entidades desportivas internacionais, incluindo FIFA e UEFA, sobre medidas a adoptar para combater a lavagem de dinheiro através das indústrias do desporto.

FVZ.

Lusa

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