Blatter sob pressão contra-ataca. "Não posso controlar tudo. As pessoas que se deixaram corromper são uma minoria"

ATUALIZADA. Platini pede demissão de Blatter. Primeiro-ministro britânico apoia demissão. Em Zurique, há manifestações "anti-Blatter". Governo alemão pressiona FIFA.

O presidente da FIFA, Joseph Blatter, abriu hoje o congresso da instituição, em Zurique, falando da "vergonha e humilhação" sentidas pela detenção de vários dirigentes do futebol mundial, acusados de corrupção e associação criminosa.

"Vêm aí mais más notícias", advertiu também o candidato a novo mandato à frente da FIFA, de 79 anos, que sexta-feira deverá ir às urnas contra o jordano Ali bin al Hussein, em pleno clima de escândalo, desencadeado pela detenção de nove dirigentes ou ex-dirigentes e cinco parceiros da FIFA.

Blatter não fugiu ao caso e afirmou que "os suspeitos detidos lançam a vergonha e a humilhação" sobre o futebol, mas também se demarcou, frisando que "não poder vigiar toda a gente".

Na abertura do 65.º congresso da FIFA, foi claro que Blatter pretende mostrar-se acima do caso, desencadeado pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos. "Não posso vigiar todos os membros da nossa família no mundo", defendeu-se, antes de dizer que "não há refúgio para a corrupção" no seio das FIFA e que o organismo "coopera com as autoridades.

"É preciso restabelecer a confiança no nosso seio. É preciso fazer mais para que cada um se comporte de forma responsável e ética e o congresso vai dar-nos a ocasião para abrir essa grande obra de restabelecer a confiança em parte perdida", disse ainda.

Para Blatter, a equipa dirigente "é soberba" e é importante "não perder de vista o espírito do futebol" e "por alterações positivas".

"Não estamos no futebol pela cupidez ou pelo poder, mas pelo amor a este jogo. A solidariedade e a unidade são necessárias", apelou ainda.

A reação de Platini

Joseph Blatter, atual presidente da FIFA, participou esta quinta-feira numa reunião de emergência onde estiveram os representantes das seis confederações de futebol, incluindo Michel Platini, o presidente da UEFA, avança o The Guardian. Platini pediu a Blatter para se demitir, tendo o suíço recusado. A UEFA, que tinha ameaçado boicotar o ato eleitoral de 29 de maio, não o fará, mas vai apoiar o príncipe jordano Ali bin Al Hussein.

"Não é fácil dizer a um amigo que tem de ir embora", disse Platini, em conferência de imprensa esta quinta-feira, realçando que a UEFA lançou um apelo a todas as federações nacionais da Europa para que apoiem o príncipe Ali nas eleições, contra o atual presidente da FIFA. O francês, que já apoiou Blatter, garantiu não estar arrependido por não ter avançado com uma candidatura à presidência da FIFA, mas sublinhou que a permanência de Blatter não contribuiu para a boa imagem do organismo.

Platini manifestou-se "enojado e desiludido" e garantiu que "uma grande maioria das associações" da UEFA "vai votar Ali [bin Al-Hussein]", adversário de Blatter nas eleições de sexta-feira. E revelou ainda que na reunião de hoje, que Blatter manteve com as seis confederações mundiais, pediu ao presidente da FIFA para se demitir, mas que recebeu como resposta do suíço que agora "é demasiado tarde".

Sepp Blatter tem sido alvo de pressões por parte de várias entidades, que questionam a sua liderança da FIFA depois de sete dirigentes e ex-dirigentes do organismo terem sido detidos em Zurique, onde se encontravam para o encontro anual da FIFA, que se realiza sexta-feira.

Para o mesmo dia, estão marcadas as eleições para a presidência da FIFA, às quais Blatter se candidata pela quinta vez. Mesmo perante os acontecimentos, a FIFA recusou o adiamento das eleições e do encontro, tendo Blatter - até ao momento - recusado abandonar a liderança, mas garantindo que irá expulsar da FIFA todos os corruptos. Em conferência de imprensa, o diretor de comunicação da FIFA, Walter de Gregorio sublinhou quarta-feira que o organismo é parte prejudicada em todo o processo e que, apesar das consequências, esta é uma oportunidade para a FIFA começar a fazer as reformas de que necessita.

O Departamento de Justiça dos Estados Unidos indiciou na quarta-feira nove dirigentes ou ex-dirigentes e cinco parceiros da FIFA, acusando-os de conspiração e corrupção nos últimos 24 anos, num caso em que estarão em causa subornos no valor de 151 milhões de dólares (quase 140 milhões de euros).

Protestos sobem de tom

Até ao momento, a Confederação Africana de Futebol e a sua congénere asiática são as únicas que manifestaram apoio a Blatter, recusando igualmente um adiamento das eleições. O único oponente do atual presidente da FIFA no ato eleitoral é o príncipe jordano Ali bin Al Hussein, depois de o português Luís Figo e o holandês Michael Van Praag terem abandonado a corrida em favor de Hussein.

Já a UEFA, que regula o futebol europeu, manifestou-se a favor de um adiamento das eleições. Os representantes máximos da UEFA consideraram mesmo boicotar o ato eleitoral mas já confirmaram que não o farão.

Apesar de não ser suspeito, Blatter não está ilibado e a investigação das autoridades norte-americanas continua a decorrer. A Suíça, que paralelamente ao FBI abriu um inquérito à atribuição dos Mundiais de 2018 e 2022 à Rússia e ao Qatar, não prevê para já ouvir Blatter, segundo disse à France Press Andre Marty, porta-voz do Ministério Público suíço. O jornal inglês Daily Mail, no entanto, adianta na edição desta quinta-feira que Sepp Blatter está proibido de abandonar a Suíça enquanto estiverem a decorrer as investigações. E escreve mesmo que o candidato a novo mandato na FIFA poderá ser ouvido ainda esta quinta-feira pelas autoridades.

Os patrocinadores da FIFA começam entretanto a manifestar preocupação com o escândalo de corrupção. A Visa promete mesmo reavaliar o patrocínio caso não se verifiquem mudanças significativas no organismo. E até o primeiro-ministro do Reino Unido, David Cameron, admitiu através do porta-voz de Downing Street que apoia a declaração do seu ministro do Desporto, John Whittingdale, que pediu "reformas" na FIFA. A Federação Inglesa de Futebol já manifestou o seu apoio ao príncipe Ali bin Al Hussein nas eleições marcadas para sexta-feira, 29 de maio, e David Gill, vice-presidente da federação e membro do comité executivo da FIFA, garante que apresentará a demissão do organismo caso Blatter conquiste mais um mandato.

As pressões para uma tomada de posição de Blatter que defenda a reputação da FIFA estão esta quinta-feira plasmadas nos jornais de todo o mundo: a comunicação social pede nas primeiras páginas que o suíço deixe a presidência do organismo que tutela o futebol mundial, em nome da credibilidade. E em Zurique, conta o suíço Le Matin, vários manifestantes da Avaaz, uma organização ativista, juntaram-se para exigir a saída de Blatter. "Game Over for Blatter" (fim do jogo para Blatter) lê-se nos cartazes erguidos em protesto.

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