Blatter não desiste. Acossado por todos os lados, agarra-se a promessa de mudança

Corrupção na FIFA. Presidente não se rende e vai a votos, hoje, apesar das pressões da UEFA, de patrocinadores e de líderes mundiais.

Patrocinadores, líderes mundiais, dirigentes desportivos de topo: de todos os lados surgem apelos à resignação de Joseph Blatter. Porém, mesmo acossado e sem estar completamente ilibado do escândalo de corrupção que corrói a FIFA, o presidente da instituição não desiste (nem se demite). E, por entre atos de contrição e promessas de mudança, hoje vai a votos pelo 5.º mandato na liderança do organismo que tutela o futebol mundial - contra o jordano Ali bin al-Hussein.

"Sepp" Blatter sempre controlou os ponteiros do relógio (dirigia a secção de cronometragem de eventos desportivos da relojoeira Longines até entrar na FIFA), mas agora nem ele sabe quando irá parar a contagem dos largos anos de ligação ao organismo (de 1975 a 1981 como diretor técnico, depois até 1998 como secretário-geral e desde aí como presidente). O suíço, de 79 anos, está debaixo de fogo, por causa do esquema de corrupção desmontado na quarta-feira, em Zurique, pela justiça norte-americana.

Mesmo por entre notícias - não confirmadas - de que estaria prestes a ser ouvido pela polícia e proibido de sair da Suíça, Blatter não se rende. Nem perante a iminência de de ver a FIFA perder patrocínios milionários. Nem diante de vozes críticas como as do presidente da UEFA, Michel Platini, e do primeiro-ministro britânico, David Cameron - passando pela do líder da Federação Portuguesa de Futebol (FPF), Fernando Gomes. O helvético ainda admite que "mais más notícias se seguirão", mas aponta ao futuro, dizendo que "é preciso restaurar a confiança" na instituição.

Frente I: UEFA e federações

Ontem, enquanto alguns tentavam limpar a história - a Confederação Brasileira de Futebol retirou da fachada do seu edifício-sede o nome de José Maria Marín, um dos 14 (nove dirigentes da FIFA) acusados de associação criminosa e corrupção -, Blatter procurava conter os estragos. Reuniu-se com os líderes das seis confederações que compõem a FIFA, para debater o tema e encontrar apoios para levar para a frente o ato eleitoral marcado para hoje. Não encontrou unanimidade. Mas o plebiscito avança.

A oposição mais direta veio da parte do líder da confederação europeia, Michel Platini, que pediu a Blatter que se demitisse. "Não é fácil dizer a um amigo que ele deve sair, mas é assim que a história está a avançar. Digo isto com tristeza, com lágrimas nos olhos: houve demasiados escândalos", afirmou o dirigente francês.

A grande maioria dos membros da UEFA está contra Blatter (e, caso nada mude, até a hipótese de boicote europeu ao Mundial 2018 está em cima da mesa). Portugal não é exceção. "A FIFA não pode ficar como está", disse Fernando Gomes, lembrando que a FPF apoiou a candidatura à presidência de Luís Figo (entretanto retirada). No entanto, a maioria dos países asiáticos e africanos continua com o suíço. Como cada associação - seja a Alemanha ou Anguilla - vale um voto, o recandidato continua a ser favorito ante o concorrente jordano.

Frente II: líderes mundiais

Ainda assim, Ali bin al-Hussein reuniu apoios de peso, nas últimas horas, entre a elite da politica internacional. Primeiro, foi David Cameron a dizer que "apoia totalmente" a sua candidatura. Depois, os chefes de Estado de França (François Hollande), Brasil (Dilma Rousseff) e Bolívia (Evo Morales) juntaram-se ao coro de vozes que insistem que "os dirigentes deviam ser substituídos". "A credibilidade da FIFA já está há bastante tempo em causa", concluiu o ministro do Interior da Alemanha, Thomas de Maizière (responsável pelo Desporto).

Contra a corrente - e a iniciativa das autoridades norte-americanas - levantou-se o presidente da Rússia, Vladimir Putin. "É uma clara tentativa de bloquear a reeleição de Blatter e uma muito séria transgressão dos princípios de como funcionam as organizações internacionais", atacou o governante, acusando os EUA de imporem "a sua jurisdição em outros países".

Putin saiu em defesa também do processo de atribuição da organização do Mundial 2018 à Rússia (um dos casos que estão a ser investigados). "Também sabemos que lhe foram feitas pressões para proibir a realização do Mundial 2018 na Rússia", salientou.

Frente III: patrocinadores

Da Rússia veio o mais recente main sponsor das competições da FIFA. A Gazprom juntou-se a uma lista que inclui grandes marcas como Adidas, Coca-Cola, Hyundai e Visa. Agora, quase todas elas pedem mexidas na instituição para manterem o patrocínio. "O nosso desapontamento e preocupação com a FIFA é profundo. Esperamos que tome iniciativas para reconstruir uma cultura com práticas éticas fortes. Caso contrário, teremos de cessar o nosso apoio", ameaçou a Visa, em comunicado.

No final do ano passado (chegadas ao fim de contrato), Emirates e Sony já tinham abandonado a instituição. E agora a FIFA vê tremer uma das suas principais fontes de rendimentos: no Mundial 2014, os patrocínios renderam 1,4 mil milhões de euros.

A reação do "patriarca"

Perante tudo isto, o "patriarca" do império FIFA não desarma. "Não posso monitorizar tudo. Há corrupção no futebol, mas é uma minoria", disse Blatter, na abertura do congresso eleitoral, entre promessas similares às que fizera antes da última reeleição. "Temos oportunidade de iniciar um longo caminho de reconstrução da confiança", afiançou, de olhos no futuro.

No entanto, para já, são demasiadas as nuvens negras sobre a linha do horizonte. "Dei ao FBI os documentos que desencadearam as prisões de ontem [quarta-feira]. Vão acontecer mais. Blatter é o alvo", concluiu, no Twitter, Andrew Jennings, um dos jornalistas ingleses que têm denunciado os casos de corrupção que agora fazem tremer a cúpula do futebol mundial.

Outras Notícias

Outros conteúdos GMG