Dragõezinhos de Olhão procuram chegar a bom Porto

Tengarrinha, Castro, Ukra e Rabiola têm estado em evidência no clube algarvio e hoje defrontam o clube em que se formaram - o guarda- -redes Ventura, castigado, falha reencontro no relvado. Nas principais ligas europeias não se encontra caso semelhante ao FC Porto, rei dos empréstimos.

Quando Olhanense e FC Porto entrarem hoje (20.15, RTP1) no relvado do José Arcanjo, em Olhão, uma curiosidade salta à vista: o conjunto algarvio terá no seu onze mais jogadores formados nos dragões que a própria equipa orientada por Jesualdo Ferreira. Com cinco elementos cedidos pelo campeão nacional no plantel (um dos quais, o guarda- -redes Ventura, está impedido de jogar por ter sido expulso frente ao Sp. Braga na última jornada), mais dois que passaram pela formação azul e branca (Zequinha e Stéphane) - fora o técnico principal (Jorge Costa) e o responsável pelos guarda- -redes (Rui Correia) -, será interessante ver como é que esta espécie de equipa B dos azuis e brancos se vai bater com os pesos pesados.

Curiosamente não se encontra nas principais ligas europeias caso semelhante [ver quadro]. Nenhum outro grande tem tantos jogadores emprestados a outras equipas do mesmo escalão como o FC Porto e muito menos a uma só formação, como no caso do Olhanense - o exemplo mais próximo encontra-se na Liga espanhola, onde o Sevilha cedeu três jogadores ao recém-promovido Xerez. E, na Premier League inglesa, a situação seria até constrangedora se fosse permitida, uma vez que, segundo o regulamentado, os jogadores emprestados não podem defrontar o seu clube de origem. Na Velha Albion, qualquer clube apenas pode emprestar, na maioria dos casos, um jogador a uma mesma formação - ou dois, excepcionalmente (quando uma das cedências se torna definitiva ou se trata de um guarda-redes, dependendo das circunstâncias). Exactamente o contrário do que sucede em Portugal, onde as cláusulas impedindo a utilização frente ao clube de origem se tornaram ilegais.

O certo é que a situação dos empréstimos, por muito jeito que dê às equipas de menor capacidade financeira, tem-se prestado a alguns episódios duvidosos, colocando sobretudo em causa os jogadores, apesar de isto lhes ganhar experiência e minutos que não conseguiriam no seu clube de origem. Por um lado, se não jogam pode argumentar-se que a equipa em questão fica desfalcada de jogadores que, em princípio, têm qualidade; se jogam e a coisa corre mal, a idoneidade dos futebolistas é posta em causa; e, jogando bem, arriscam-se a ficar mal vistos no clube que lhes paga parte (ou todo) do ordenado...

"Acho que é relativamente bom para um jogador ser emprestado quando tem oportunidade de jogar, porque nos clubes grandes é mais difícil para os jovens poderem actuar", conta ao DN Sport Edgar Marcelino, actualmente nos cipriotas do APOP mas que passou por essa situação quando estava ligado ao Sporting. Desses tempos, recorda a cedência ao Penafiel, onde acabou por ser decisivo numa vitória em... Alvalade, quando os leões eram orientados por José Peseiro. "Havia um acordo verbal para não jogar frente ao Sporting e senti-me frustrado quando não joguei na primeira volta, porque queria mostrar o meu valor. Na segunda volta, senti uma motivação extra quando me disseram que ia defrontar a equipa que me formou", afirmou o extremo, antes de recordar o lance decisivo: "Foi mais ou menos aos 70 minutos. Fiquei isolado com o Ricardo pela frente e sabia que o Roberto me vinha a acompanhar, passei-lhe a bola e ele fez golo."

"Não senti que fosse traição ou vingança. Quando se pensa que se tem valor e que podíamos estar a jogar na equipa que vamos defrontar, há sempre uma vontade de demonstrar ainda mais o nosso valor. Depois, não festejei o golo em sinal de respeito, até porque o Sporting ainda pagava parte do meu ordenado", assinalou.

Tengarrinha, Ukra, Rabiola e Castro constituem o lote de jogadores que hoje estarão desejosos de mostrar que têm condições para, num futuro próximo, regressar à casa mãe. Mesmo que, para isso, tenham de cometer uma pequena "traição", conforme se pode depreender das declarações feitas esta semana: "Espero que o FC Porto ganhe o campeonato mas perca os dois jogos com o Olhanense", afirmou o médio Castro, enquanto o avançado Ukra garantiu que irá festejar, embora "menos efusivamente", se marcar ao clube onde se formou. E o próprio técnico Jorge Costa, não deixando de reconhecer as ligações afectivas aos dragões, deixou claro que é um "profissional" e que tudo fará "para ganhar" com a "ajuda dos jogadores".

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