Casos, pedradas e feridos: era assim o Portimonense-FC Porto

Há exatamente 28 anos, portistas deixaram Portimão debaixo de uma chuva de pedras, que acabou com Pinto da Costa no hospital. Hoje, tudo deverá ser bem mais calmo

O árbitro José Guímaro saiu sem dar nas vistas, pela porta dos fundos, e a fúria dos adeptos algarvios abateu--se sobre a comitiva portista - em particular, Pinto da Costa e Reinaldo Teles, que acabaram atingidos à pedrada. Foi há exatamente 28 anos - a 25 de fevereiro de 1990 - que se viveu o mais inflamado dos intensos Portimonense-FC Porto de antigamente. Hoje (20.15, Sport TV1), com relações normalizadas - e até próximas - entre os dois clubes, tudo deverá ser mais calmo.

O clube do dragão sempre sentiu muitas dificuldades nas deslocações ao Algarve: apenas venceu 28 das 60 visitas à região (a Olhanense, Lusitano VRSA, Farense e Portimonense) e jogou muitas vezes sobre brasas em Portimão. E, com relações tensas entre as direções dos emblemas alvinegro e azul e branco - lideradas por Manuel João e Pinto da Costa -, os encontros na época dourada do Portimonense na 1.ª Divisão (11 presenças consecutivas, entre 1979/80 e 1989/90), distinguiam--se pelo ambiente galvanizado e constante incerteza no resultado final. No entanto, em nenhum terá sido tão exaltado como no de há exatamente 28 anos.

Então, o Portimonense lutava por não descer (era último, com 12 pontos) e o FC Porto por conservar o 1.º lugar (com dois pontos de avanço sobre o Benfica) - ambos os desfechos se confirmaram no final da época. Os dragões venceram por 0-1: Figueiredo, hoje treinador de guarda-redes dos dragões (trabalha com Sérgio Conceição desde 2010), só não travou um desvio de Rui Águas a um cruzamento de Bandeirinha, ao minuto 70. Mas o jogo ficou marcado por um caso de arbitragem nos minutos finais, com Vítor Baía a derrubar José Pedro na área portista - segundo os relatos da imprensa da época - e José Guímara nada assinalou.

"O árbitro usou de uma gritante dualidade de critérios e, para culminar a sua excelente atuação, escamoteou-nos um penálti. Foi um roubo tão grande como a Sé de Braga", queixou-se Narciso, treinador adjunto de Quinito no Portimonense. "Quando uma equipa nada faz para ganhar, há que atirar as responsabilidades do fracasso. Se houve um lance discutível no final, também podemos dizer que houve um sobre o Rui Águas", respondeu Octávio Machado, técnico adjunto de Artur Jorge no FC Porto. Mas a polémica não se ficou pelas reações no final da partida.

Os adeptos do Portimonense descarregaram a sua fúria sobre os dirigentes portistas que se encaminhavam para o autocarro que iria transportar a equipa para o aeroporto de Faro: Pinto da Costa e Reinaldo Teles acabaram atingidos pela chuva de pedras, sofrendo alguns ferimentos. O presidente ficou com uma ferida na testa, suturada com três pontos, e o (então) diretor-geral fraturou uma costela.

O incidente e a descida dos algarvios no final da época marcaram o fim da era mais inflamada das relações entre os dois clubes - ainda plasmada no equilíbrio das estatísticas dos encontros no Municipal de Portimão (seis vitórias e quatro derrotas para o FC Porto, em 14 jogos). Com a chegada de Fernando Rocha, conotado com o FC Porto, à presidência do Portimonense (Manuel João, líder até 1993, também era benfiquista) houve uma aproximação entre as direções. E os negócios entre ambos os emblemas tornaram-se frequentes desde que o brasileiro Theodoro Fonseca, empresário do ex-portista Hulk, se tornou acionista maioritário da SAD da equipa promovida este ano à I Liga.

Em janeiro, o FC Porto contratou Paulinho ao Portimonense: o médio brasileiro foi emprestado, com cláusula de compra obrigatória no final da época. Em troca, enviou ainda Rafa Soares (a título definitivo), Fede Varela e Galeno (ambos por empréstimo) - recebendo a devolução de Inácio e Chidera Ezeh (que tinham sido cedidos no início da temporada). Dos casos, pedrada e feridos de antigamente, já só reza a história.

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