Evereste no inverno sem oxigénio: Alex volta a desafiar o impossível

Após ter conquistado a montanha assassina Nanga Parbat em fevereiro, espanhol vai tentar outra missão delicada. "Esta é a época mais selvagem mas é possível fazê-lo", garante

O impossível não existe no alpinismo. Aliás, existe para ser desafiado. E Alex Txikon fá-lo como poucos. Depois de ter conquistado a "montanha assassina" Nanga Parbat no último inverno, o espanhol vai tentar concretizar outra missão tida como impossível: chegar ao topo do Evereste, na estação invernal, e sem recurso a oxigénio artificial.

O feito é tão emblemático como parece: apenas 15 pessoas chegaram ao topo dos 8848 metros da montanha mais alta do mundo (acima do nível do mar) durante o inverno, só uma o conseguiu sem oxigénio e até esse feito é questionado pelos puristas porque o seu obreiro - o sherpa Ang Rita - começou a ascensão durante o outono. Ou seja, Alex Txikon, de 35 anos, propõe-se a algo realmente raro: desde 1993 que ninguém alcança o cimo do Evereste na estação mais fria do ano.

"Esta é a época mais selvagem da montanha. Todos estes meses são muito duros. É possível fazê-lo mas não vai ser fácil", aponta o alpinista, que inicia amanhã a aventura, viajando de Bilbau para Katmandu. "Estes dias são uma loucura porque uma expedição envolve muito trabalho prévio. Não é só chegar à montanha e iniciar a subida, são meses de preparação, mais ainda nestas últimas horas", descreveu, em declarações ao jornal ABC, antes da partida para os Himalaias.

Para o alpinista, natural do País Basco, nada dessa azáfama é novo: já conquistou onze das 14 "oito mil" - as montanhas mais altas do mundo, com mais de 8000 metros de altitude. O Evereste, no coração do Nepal, pode ser o 12.º da lista. Mas Txikon está bem ciente das dificuldades. "Não há só um problema ao ascender ao Evereste nesta época. Tudo se junta para convertê-lo numa tarefa de dificuldade máxima: É o frio, o vento, as poucas horas de luz... parece que tudo está contra", explica.

Nessascondições extremas, até as tarefas mais básicas e essenciais do quotidiano, como beber água ou cozinhar, se tornam complexas. "As temperaturas podem chegar aos 60 graus negativos. Está tudo conge-lado e é preciso derreter gelo para tudo. A aclimatação no campo--base é mesmo tremendamente complicada", nota Alex Txikon.

Nada disso desmobiliza o espanhol, apaixonado pelo montanhismo desde os 11 anos. Afinal, ele já foi capaz de outra façanha que todos julgavam impossível, quando avançou para outra montanha mítica nunca conquistada no inverno sem oxigénio artificial nem sherpas (carregadores de altitude originários do Nepal): a Nanga Parbat.

Nanga Parbat significa, em urdu, "montanha nua". Contudo, o pico é conhecido por um nome menos inocente, "montanha assassina", desde que uma avalanche matou sete alpinistas germânicos e nove sherpas em 1937. Essa foi a primeira de sucessivas tragédias naquele monte localizado no extremo ocidental dos Himalaias. Ao longo dos últimos 28 anos, 29 expedições foram mal--sucedidas na tentativa de conquistá-lo no inverno.

A primeira campanha de Txikon, nos primeiros meses de 2015, também fracassou. Mas, ao segundo ensaio, entrou na história, chegando ao topo: fê-lo a 26 de fevereiro, na companhia do italiano Simone Moro e do sherpa Ali Sadpara.

Alcançado um feito histórico, o alpinista mal descansou e começou logo a pensar no ataque invernal ao Evereste. "Esta aventura começou a desenhar-se durante a expedição à Nanga Parbat e quase sem tempo já estamos no Nepal."

Na conquista da montanha mais alta do mundo, Txikon voltará a contar com o apoio de um pequeno grupo de alpinistas da sua confiança. E o principal obstáculo da longa caminhada, que se iniciará a 5 ou 6 de janeiro, já está identificado: é o glaciar de Khumbu. "Será uma tarefa complicada, para a qual contaremos com a ajuda de um grupo de sherpas [que conhecem a zona como ninguém]. No entanto, o grupo que me acompanha será reduzido", explica o basco.

Para o resto, basta a ambição de desafiar o impossível. "É uma espécie de inspiração que a própria montanha te dá, como quando te apaixonas por uma rapariga sem saber porquê", conclui Alex, habituado a seguir a paixão até aos picos mais altos da Terra.

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