Mundial russo deve ter mão de engenheiro

Análise de José Manuel Freitas: Não é surpreendente ver quatro portugueses no onze ideal do Europeu. Mas o que interessa saber é se Santos vai continuar

É através de oportunidades como esta que o DN me proporciona que posso dar corpo ao que milhões de portugueses tanto gostam de fazer: vestir a fatiota de treinador e tecer considerações, como é o caso, sobre a equipa eleita na conclusão do Europeu, logo este que marca a maior conquista de sempre do futebol português. E ainda antes de mostrar desacordo (não muito) sobre algumas das escolhas, desde para aí de metade da saga em França que todos os dias penso na mesma coisa: continuará Fernando Santos a liderar este projeto?

Mesmo não coincidindo com todas as ideias do engenheiro, particularmente no que diz respeito às suas opções resultadistas, pois defendo um modelo de jogo mais criativo, com alguns riscos, mais ofensivo - iniciando a campanha russa até posso admitir algumas mudanças no sentido de um melhor espetáculo -, não vejo, de momento, ninguém melhor para desempenhar o cargo. Só se José Mourinho ou Jorge Jesus estivessem disponíveis... Não estando, Fernando Santos, até pela resposta - e no meu entender nem seria fundamental o título... -, tem tudo a seu favor para continuar: honestidade, dedicação, perfecionismo, liderança, empatia com jogadores e adeptos e segurança fazem parte do seu ADN. Sem ter ficado percetível no discurso que leu após o final do jogo com a França se está disponível para continuar, a verdade é que da parte da FPF ainda não houve sequer um leve esgar relativamente a esse assunto. Tenho (temos) de aguardar, mas a campanha para o Mundial começa dia 6 de setembro, na Suíça, e depois de ter conquistado o Europeu - e de haver pelo meio a Taça das Confederações - a mais do que provável presença lusa na Rússia tem contornos de maior responsabilidade. Logo, o futuro deve (tem) passar pelo engenheiro (ou arquiteto...) do Euro 2016.

Olhando, então, para a equipa ideal do Europeu, a maior surpresa nem será a ausência de Nani (percebo que com quatro portugueses era capaz de ser de mais e para entrar ele tinha de sair Payet, e sair só porque chocou, e sem maldade, quero crer, com CR7 era uma malfeitoria...), mas sim não ver neste onze nem espanhóis nem italianos. Assim, trocava no lado direito da defesa Kimmich pelo italiano Chiellini e no meio-campo sacava Joe Allen, por nada de especial, mas porque naquela perspetiva de um futebol mais atrativo e virado para o golo tinha de ter espaço para Iniesta - para lá do bom Europeu, é para mim, depois de Ronaldo e Messi, o jogador que qualquer treinador quer dirigir.

Fazia também estas mudanças, especialmente a de Allen por Iniesta, porque também trocava o 4x2x3x1 em que assenta a equipa eleita pelo 4x3x3 de que tanto gosto. Assim, teríamos: Rui Patrício, Chiellini, Pepe, Boateng e Raphaël Guerreiro; Ramsey, Kroos e Iniesta; Payet, Griesmann e Ronaldo. Aliás, embora mereça referência o facto de grande parte dos finalistas terem apostado em dois avançados, nem por isso o futebol praticado foi mais ofensivo ou teve aquela vertente estética tanto do agrado de quem observa. E, obviamente, neste lote está incluído Portugal, independentemente do mérito da conquista.

Numa análise mais privilegiada aos escolhidos do campeão da Europa para a seleção final, a derradeira atuação de Rui Patrício foi a cereja no topo do bolo que construiu logo a partir do jogo com a Islândia, atirando-o para um patamar de excelência; Pepe, está como o vinho do Porto, e jogando como o fez em França tem de estar no lote dos melhores defesas mundiais; Raphaël Guerreiro será rapidamente um dos mais notados laterais esquerdos do mundo e, por isso, achar que o Dortmund o contratou (passe a expressão) por uma pechincha; e Ronaldo revelou nesta competição um espírito coletivo desconhecido para muitos, muito por força de um esquema que não o deixa muito confortável, com pouca bola para jogar e com espaço reduzido para as cavalgadas que tantas vezes protagoniza.

Do mês de competição que teve França como anfitriã quatro notas a encerrar: a qualidade do jogo, salvo raras exceções - Alemanha, Espanha e Itália, vá lá, a Croácia, provaram ter outras ideias, mas no fim ganhou quem assenta o seu jogo numa quase inultrapassável organização defensiva -, deixou muito a desejar e não sei se este modelo de fase final, com 24 seleções, será o melhor para a sua consolidação; muito preocupados (e bem!) com o problema latente que é o terrorismo, os franceses descuraram as questões relacionadas com o hooliganismo levando a que a fase de grupos tivesse sido uma preocupação constante para quem gosta de futebol, realidade que se espera sirva de alerta para os russos, que vão responder pelo próximo mundial; quanto a adeptos, ninguém bate (sem qualquer menosprezo pelo haka islandês) os da República da Irlanda e da Irlanda do Norte, como provam dezenas de vídeos para mais tarde recordar; a única verdadeira grande revelação para mim deste Europeu foi o País de Gales - Chris Coleman é um treinador com boas ideias, Gareth Bale é a estrela cintilante, mas para se ter uma equipa (como Portugal, também) é preciso mais qualquer coisa.

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