Irlanda há só uma: McClean defende unificação após o brexit

Nasceu na Irlanda do Norte, mas representa a República da Irlanda e há muito que defende a unificação dos países. O futebolista que recusa usar papoilas vermelhas publicou uma foto ao lado de político do Sinn Féin, mas acabou por apagar a sua conta no Twitter

Quando perguntam a James McClean, titular no jogo de ontem entre a "sua" República da Irlanda e a França, onde nasceu, a resposta é sempre esta: "Sou católico e irlandês." O futebolista é natural de Derry, a segunda maior cidade da Irlanda do Norte, mas é há muito um assumido defensor da unificação dos países.

Na sequência do brexit, o atleta de 27 anos aproveitou para, uma vez mais, apelar a uma só Irlanda. O jogador do West Bromwich Albion, da Premier League, publicou no Twitter uma foto ao lado de Martin McGuinness, membro do Sinn Féin, partido republicano irlandês que após a saída do Reino Unido da União Europeia apelou à votação de uma proposta para a unificação entre República da Irlanda e Irlanda do Norte.

E esta é uma das razões que tornam McClean um dos jogadores mais detestados do Reino Unido, e que tem colecionado ameaças de morte nas redes sociais nos últimos anos. Assobiado em quase todos os estádios onde joga, o futebolista foi criado por uma família católica, alvo de opressão por parte dos protestantes na Irlanda do Norte.

Ainda assim, McClean viveu na Irlanda do Norte até 2011, altura em que o Sunderland o contratou ao Derry City. Na altura, o extremo era internacional sub-21 pela Irlanda do Norte, mas em 2012 causou controvérsia ao anunciar que pretendia representar a Irlanda.

Porém, não foi pela escolha da sua nação que McClean se tornou um dos jogadores mais assobiados na Premier League, mas sim pela forma como se opõe à celebração do Remembrance Day em Inglaterra. Anualmente, o dia 11 de novembro é celebrado em memória dos combatentes e vítimas britânicas das duas grandes guerras, e a tradição manda colocar uma papoila vermelha nos casacos.

Na Liga inglesa, os jogadores utilizam uma papoila vermelha junto ao emblema do clube que representam. Mas desde 2012 há um jogador que se opõe a fazê-lo. "Se a papoila fosse apenas em homenagem às vítimas das Primeira e Segunda Guerras Mundiais, eu utilizá-la-ia sem problemas. Até a usaria o ano todo. Mas não é o caso, pois a papoila simboliza todos os acontecimentos em que o Reino Unido esteve envolvido. Por motivos históricos, e sendo eu de Derry, não posso usar isso", explicou.

Em causa está o evento de 30 de janeiro de 1972 em Londonderry, conhecido como Domingo Sangrento, no qual 14 católicos foram assassinados por tropas britânicas. "Foram assassinadas na minha terra natal. Respeito quem usa as papoilas, por isso peço também que me respeitem e compreendam a minha posição", desejou. No entanto, logo no dia em que se recusou, pela primeira vez, a ostentar a papoila, McClean começou a receber ameaças de morte no Twitter. Ontem decidiu fechar a sua conta, depois de fazer o apelo à unificação irlandesa, após anos a ignorar todos os protestos. Acusado de falta de respeito, o atleta de 27 anos defende que é precisamente o contrário. "Se eu usasse a papoila, isso sim, seria um ato de desrespeito para com o meu povo e para com os meus conterrâneos", justificou.

A última época, curiosamente, também começou mal para McClean, que numa digressão de pré-época do WBA virou as costas enquanto se ouvia o hino britânico. "Lamento, mas vou respeitar sempre as minhas origens", reforçou.

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