A claque onde o Sol nunca se põe

Alguns nem ligam a futebol, mas a distância e os apuramentos sucessivos da equipa nacional foram acendendo o entusiasmo

Maria, DJ e jornalista e comentadora e fotógrafa e documentarista - tudo aquilo que faz e já fez, entre os cursos de Filosofia e Comunicação que começou e não acabou e dos quais "tirou o que interessava", mais o de fotografia de que tem diploma - tem riso na voz ao descrever como agora, pela primeira vez na vida, quando lhe perguntam de onde é, diz "do país de Cristiano". Nas ruas de Freetown, capital da Serra Leoa, onde está desde abril, reunindo-se ao namorado, Tiago, que tinha chegado em fevereiro, "há gajos na rua com T-shirts da seleção. Dizes que és portuguesa e começam logo a falar do Ronaldo e do Renato Sanches. Adoram-nos. Não sabem bem onde é Portugal, mas sobre eles sabem tudo." Tiago conta que foi há dias a um restaurante onde costuma ir e estavam uma série de mendigos à porta "sem uma perna, sem um braço, aqui há muitos mutilados por causa da guerra e costumo dar--lhes dinheiro. E estavam a dizer a uns franceses que iam torcer por Portugal."

Maria (Tengarrinha) e Tiago (Julião Neves), 39 anos ambos, estão na Serra Leoa - cujo nome, descobriu ela, foi dado por um português, Pedro de Cintra, em 1460, quando do navio avistou a serra e a achou parecida com uma leoa - porque ele, economista especialista em ambiente e energia, foi contratado pela African Governance Iniciative, uma fundação estabelecida pelo ex-PM britânico Tony Blair para dar assistência a governos africanos. "Sou o assessor regional do Power Africa [uma organização do governo americano que ajuda os países de África a terem acesso a eletricidade através de energias limpas] para a África Oeste [que inclui, além da Serra Leoa, o Burundi, Cabo Verde, São Tomé, Libéria, etc]."

Maria tem estado até agora a "trabalhar numa base de voluntariado". "Agora estou a fazer um documentário sobre um projeto de micro-crédito. Antes estive a ajudar na produção de um programa de rádio, depois na reabilitação de um jornal. Mas o diretor morreu, a semana passada. Com 50 anos. Nem percebi exatamente de quê. É só um dos que morrem antes do tempo, a esperança média de vida é curta. É muito impressionante. Falta tanta coisa aqui, em termos de medicina."

Entre as tantas coisas que faltam na Serra Leoa está aquela que Tiago veio para ajudar a resolver: eletricidade. Razão pela qual ver os jogos em casa pode não ser a melhor opção: de vez em quando falha a energia ou a net. "Temos visto em vários lados. Aqui em casa, ou na do nosso vizinho português (que está cá por uma organização francesa, a Solthis, a treinar médicos para lidar com a sida) e em hotéis. No outro dia fomos a um hotel e foi muito giro, porque a assistência local se dividia entre os que torciam por Portugal e os outros." Maria ri: "Eu nem gosto de futebol mas estou a vibrar imenso. É mesmo uma coisa de emigra, bonita." Hoje vão ver num restaurante "muito bom", o Lagoonda, que "tem os melhores ecrãs". Vai ser uma final fraterna: combinaram com dois franceses, com os quais viram já o França-Alemanha. Tiago virá de uma praia a 50 quilómetros, Dureh, Maria vai direta de casa para ter a certeza de que não se atrasa: "As estradas aqui são muito más, leva-se horas a fazer distâncias pequenas. Vou esperar que o Tiago venha com areia nos pés a tempo de ouvir o hino comigo. No outro dia estava em casa e num café perto estava a começar um jogo e ouvi o hino daqui e foi um momento... Senti assim uma coisa." E não aceita ceticismo: "Vamos acreditar até ao fim."

Uma final de madrugada

Paulo Ramalho, 42 anos, sente o mesmo. Professor em Díli, Timor, desde 2014, descreve ouvir ali A Portuguesa como "uma sensação incrível, muito emocionante". Tanto mais incrível quando o apanha estremunhado. "Por norma durmo sempre um pouco e depois acordo por volta das 3.30 da manhã para ver o jogo." No último, quando Portugal se apurou para a final e os timorenses encheram as ruas a celebrar, juntou-se à festa. "Foi muito emocionante ver aquele mar de gente. Tantas pessoas na rua, com tantas bandeiras portuguesas." Os planos para hoje incluem juntar-se com colegas, "seis ou sete, para assistirmos ao jogo num dos bares da cidade que abrem à noite para jogos importantes." Mas há outra hipótese: "Fala-se de que poderão colocar um ecrã gigante em frente ao Palácio do Governo."
Bernardo Jerónimo, 27 anos, bodyboarder, partilha a fé de Maria: "Vamos ganhar. Dois a zero." Originário da Figueira da Foz, Bernardo está em Elliston, uma aldeia que descreve como "muito pequena, com menos de 300 pessoas, no deserto do Sul da Austrália." Chegou ao país em dezembro, com visto para um ano e um plano: "Correr atrás de boas ondas." Para viver trabalha em mudanças e muda-se a ele próprio frequentemente: "Agora vou para outra cidade, a seguir." Devido à diferença horária - não é à toa que Austrália é nos antípodas de Portugal - não é fácil assistir aos jogos em direto: "Têm sido por volta das cinco da manhã." À final, porém, não há como faltar. "Vou ver no computador com a minha namorada mais dois amigos de Portugal. A aldeia felizmente tem sinal, tudo o resto à volta não." E se o resultado for de celebrar, como vai ser? "Vou beber uma cerveja gelada aqui em pleno outback [a palavra que se usa na Austrália para denominar os locais remotos]."

Os brasileiros a torcer por nós

Remota é palavra que Bárbara Bulhosa, a editora da Tinta da China (e da Tinta da China Brasil) poderia usar para descrever a hipótese de que viveria com tanta emoção um campeonato de futebol. "Normalmente não ligo nenhuma. Até fiz uma aposta de 100 euros com o Afonso, o meu filho do meio [tem três: João, Afonso e Vasco, de 22, 19 e 13 anos], de que não passávamos do início." Dá uma gargalhada. "Como empatámos nenhum de nós teve de pagar. Mas chegados aqui claro que estou entusiasmada." O principal motor do entusiasmo, porém, é Ronaldo. "Não lhe ligava muito mas passei a ter um enorme respeito por ele. Achei incrivelmente injusto o que lhe fizeram por falhar um penálti. A opinião pública pode ser tão má com um herói, é terrível. Quando não se passa o que se espera que ele faça é crucificado. Acho uma injustiça ver estas manadas de gente a manifestar-se contra uma pessoa."

No Brasil desde Junho, para acompanhar um dos seus autores, Ricardo Araújo Pereira (um notório doente da bola, com quem viu os jogos até agora), à Festa Internacional Literária de Paraty e para lançar uma coleção de clássicos da literatura portuguesa (Agustina, Herberto, Antero, Eduardo Lourenço) e um livro de poesia de Pedro Mexia, Bárbara vai assistir à final com os três filhos e a irmã - que vive no Rio de Janeiro - mais uma série de portugueses. "A minha irmã está a organizar as coisas para ser em casa dela. Mas ainda estou indecisa porque vi um dos jogos de Portugal no Jobi, que é um bar muito famoso do Leblon, de portugueses, e foi muito bom. Está lá uma bandeira gigante nossa e os brasileiros estão todos a torcer por nós. Dizem que não jogamos nada mas torcem na mesma. E eu peço a toda a gente que torça, como se adiantasse alguma coisa." Mas do que gostava mesmo, confessa, era de ver o jogo no meio de uma das muitas comunidades de portugueses que estão no Brasil e "estão a viver isso à loucura." Como os seus três filhos. "Estão doidos, é a primeira vez que estão a viver um Euro com Portugal a chegar à final. Eram muito miúdos antes. E como têm avião no domingo à noite queriam adiar por causa do jogo. Claro que como aqui são quatro horas mais cedo vai dar para ver."

O caso de Nelson Azevedo, advogado de 34 anos a viver em Macau, é diferente. Terá de estar a pé, de olho aberto e capaz de receber amigos (calhou a vez em sua casa) às três da manhã para sofrer - "Por estarmos longe, penso que o sentimento patriótico se agudiza" - e sonhar com a primeira vez que Portugal derrote a França numa grande competição: "Não será fácil mas acho que vai ser desta."

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