"Ainda vou jogar com o CR7." Éder já foi além da promessa feita no lar "O Girassol"

O herói improvável da final do Euro 2016 ainda é visto como um exemplo no lar de acolhimento onde cresceu, discreto e franzino. Éderzito não perde o contacto com as origens: "Alguns miúdos até lhe telefonam a pedir conselhos"

"O caminho para a felicidade está em viver o presente, não voltar ao passado nem tentar adivinhar o futuro." A frase, pintada em cartolina num dos corredores daquela casa humilde, podia ser o lema dos rapazes e raparigas que crescem no Lar "O Girassol". Para Éderzito António Macedo Lopes, o miúdo franzino que passou pela instituição de acolhimento de crianças e jovens (em Alcarraques, arredores de Coimbra) entre 1998 e 2007, o caminho sempre foi esse - viver o presente, focado no futebol, sem se dispersar a pensar nas agruras do passado ou a imaginar o futuro (mesmo que um dia tenha alvitrado "ainda vou jogar com o CR7"...). E isso trouxe-o até aqui, ao momento em que ajudou Portugal a sagrar-se campeão europeu de futebol e deixou de sorriso estampado na cara aqueles que o viram crescer.

"Estive aqui no lar a ver o jogo com os miúdos: eles já não conviveram com o Éder mas têm um carinho imenso por ele e fizeram uma festa fora do normal quando marcou. Ficámos super felizes, por sermos campeões e por ser o Éder a marcar", conta, ao DN, Isabel Ferreira, funcionária da instituição há 21 anos. Entre lágrimas e gritos "o Éder é meu", o sentimento era comum educadores, auxiliares e outros responsáveis d"O Girassol". E, ontem - quase 24 horas depois da final do Euro 2016, resolvida pelo avançado luso-guineense - com vozes roucas e orgulho no olhar, vivia-se um dia diferente no lar, com um constante entra -e-sai de jornalistas e os miúdos colados à televisão, para assistirem à festa dos campeões europeus.

Numa viagem no tempo, até à infância e a adolescência de Éder (nascido em 1987 e institucionalizado após os pais emigrarem para Portugal, em fuga da guerra civil na Guiné-Bissau), não há paragens para lembrar as asneiras próprias da idade, além de uns quantos vidros partidos - "mas isso era ele e todos; ainda é tão frequente... eles aproveitam qualquer espaço para jogar futebol", desculpa Filipa Nobre, psicóloga do lar. "Ele era um miúdo simpático, calminho, discreto mas com muita presença. Sempre liderou dentro do seu estilo", resume Alexandra Lino, diretora-técnica da instituição.

Para as responsáveis do Lar "O Girassol", Éderzito (Éder é o diminutivo) sempre foi um miúdo exemplar. Tanto que quase dez anos depois de lá ter saído, para se lançar numa carreira profissional com passagens por Tourizense, Académica, Sp. Braga, Swansea e Lille, ainda é visto como uma referência pelos miúdos da casa. "Ele é um exemplo extraordinário e uma inspiração para os outros", diz Alexandra Lino, explicando como a instituição "aposta no desporto como factor protector e potenciador de bem -estar físico e emocional", dos 31 rapazes e raparigas que ali moram.

Éder deu os primeiros pontapés no Adémia, dos distritais de Coimbra - onde a fama de goleador lhe rendeu uma oferta original de um talhante da terra (uma costeleta por cada golo marcado, rendendo um farto churrasco a todo o plantel). E, como ele, são muitos os rapazes d"O Girassol" que se vão iniciando nos clubes da zona. "Alguns até lhe telefonam para lhe pedir conselhos sobre para que clube se devem transferir", conta Filipa Nobre, para ilustrar os laços que ainda perduram entre o jogador e a instituição. "Ele tem contacto telefónico frequente com algumas funcionárias e alguns educadores. E enquanto jogou em Portugal vinha visitar-nos com uma certa regularidade", indica.

"Já dizia que ia chegar longe"

Os reencontros - com Éder como com os outros antigos moradores da casa - são sempre vividos de sorrissos nos lábios e memórias à flor da pele. "Ainda me lembro quando ele ia para o Adémia, muito magrinho, com uns calçõezitos e eu a pensar para onde é que ele ia... Era um jovem muito humilde, muito meigo, com uma educação exemplar", recorda Ana Gomes, outra das funcionárias da casa.

Então, Éder já sabia bem o seu caminho. "Ele sempre foi muito tranquilo, muito equilibrado. Embora tenha ido até ao 12.º ano, se tivesse de escolher entre uma bola e os trabalhos de casa, a paixão pelo futebol era muito maior. Então, já dizia que tinha que chegar longe e jogar em grandes clubes e que ia conseguir", relata a psicóloga. "Ele andava sempre bem disposto e todo o tempo que tinha era para jogar à bola aqui no pátio. Recordo-me de uma vez estarmos a falar da bola, pouco antes de ele ir embora [aos 19 anos, para o Tourizense], e ele dizer, na brincadeira, "um dia ainda me vão ver jogar com o Cristiano Ronaldo"", acrescenta Isabel Ferreira.

A promessa foi cumprida: o rapaz franzino estreou-se na I Liga (em 2008, pela Académica), chegou à seleção nacional (em 2012, frente ao Azerbaijão) e tornou-se o herói improvável da vitória portuguesa no Euro 2016. E, neste espaço de tempo, o lar também evoluiu: tem "menos crianças e mais condições para acompanhá-las com proximidade e fazê-las singrar", nota a diretora técnica. No entanto, agora celebra outro título especial: "Este Campeonato da Europa é muito especial para "O Girassol"", remata Ana Gomes.

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