"Estou na história do futebol com Maradona, Henry e Messi"

Vata ficou famoso pelo golo com a mão ao Marselha e com a mesma emoção de há 26 anos garante: "Foi com o peito!" Vive agora na Austrália e quer descobrir talentos para o Benfica

A noite de 18 de abril de 1990 mudou a vida de um discreto avançado angolano, muitas vezes utilizado como arma secreta pelo então treinador do Benfica, Sven-Göran Eriksson. Vata Matanu Garcia, ou simplesmente Vata, o nome de guerra que entrou para o baú de memórias do futebol. Os encarnados precisavam de um golo frente ao Marselha, no Estádio da Luz, para garantirem o apuramento para a final da Taça dos Campeões Europeus e, aos 82 minutos, após um canto de Valdo, lá estava ele a desviar para a baliza do incrédulo Jean Castaneda.

O estádio explodiu de alegria com mais de 120 mil espectadores a reativarem o inferno da Luz que, por essa altura do jogo, já começava a descrer num golo milagroso. Mais de 26 anos depois dessa noite, Vata, hoje com 55 anos e a residir em Melbourne, na Austrália, falou ao DN.

Assim que atendeu o telefone não conteve as gargalhadas. "A melhor recordação de Portugal? Ah! Ah! Ah! Ah!" Parecia que já estava à espera da pergunta para a qual tinha resposta na ponta da língua, mas ainda assim preferiu fazer dois dribles antes de rematar: "A primeira grande recordação foi ter jogado no Benfica, a segunda foi ter sido melhor marcador do campeonato... A terceira? (mais risos) claro, aquela meia-final com o Marselha."

A noite que jamais esquecerá começou com um aviso premonitório. "Quando eu entrei em campo na segunda parte, o Mozer, que era o patrão da defesa do Marselha, disse-me: "Não vens para aqui estragar a minha festa!"", recordou... parecia que estava a adivinhar. "Ele conhecia-me bem, tínhamos sido companheiros de equipa na época anterior e sabia do que eu era capaz", contou. "Ele ficou magoado com aquele golo, mas somos amigos e agora quando conversamos rimos do que aconteceu."

Mas Vata é um nome aziago sobretudo para os franceses e o próprio ex-jogador teve a oportunidade de confirmar isso mesmo quando visitou França em 2014. "Ninguém me esqueceu e não me perdoam. O engraçado é que falaram comigo como se o jogo tivesse sido ontem, com mágoa... diziam--me: "Vê bem o que nos fizeste!"."

Ao falar assim, parece que Vata já assume que utilizou a mão para marcar ao Marselha. Só que quando o DN lhe pergunta se assim foi, a resposta foi automática: "Com a mão? Não! Foi com o peito. Estou de consciência tranquila e tenho dito sempre o mesmo, mas respeito a opinião de todos, pois aquele era um momento importante da vida de muita gente."

O que importa para Vata é que a sua marca "vai perdurar por muito tempo" e não tem dúvidas de que aquele golo ao Marselha o tornou famoso: "Entrei para a história do futebol europeu e mundial, pois quando falam em golos célebres citam sempre o meu e os de Maradona, Thierry Henry e Messi." Porquê? Porque todos eles marcaram golos importantes com a mão, El Pibe à Inglaterra, o francês à Rep. Irlanda e da estrela do Barcelona no dérbi com o Espanyol em 2007.

"Com Valdo e Chalana era fácil"

Vata vive com a família na cidade de Melbourne, onde até há pouco tempo treinava a equipa de sub-20 do Werribee City. "O futebol faz parte da minha vida. Vim para a Austrália em 2001, depois estive três anos na Indonésia como treinador [do Deltras e Persija]. Voltei a seguir a Melbourne e em 2010 fui para Angola trabalhar com a Federação para incrementar o futebol de praia. Mas por causa de um problema familiar tive de voltar à Austrália. Tenho dois filhos, um com 9 e outro com 12 anos, e faço de mãe e de pai para eles", revelou.

Apesar de estar do outro lado do mundo, Vata não esquece os amigos que fez em Portugal e no Benfica. "Há pouco tempo falei com o Magnusson pelo Facebook, e quando estive em Lisboa, em 2014, encontrei vários amigos como o Valdo, Hernâni, Paneira, Diamantino, Veloso, Schwarz, Samuel e outros. E sabe uma coisa? Estivemos a falar e tudo o que vivemos estava ali bem vivo, afinal a nossa relação enquanto jogadores era muito forte, o grupo era fantástico", revela. "Devo-lhes muito. Tinha grandes jogadores ao meu lado. Só tinha de esperar que o Valdo, o Chalana e outros fizessem o seu trabalho para depois rematar a bola para dentro da baliza. E é por isso que as pessoas não se esquecem de mim."

O Benfica continua a fazer parte da sua vida. Acompanha os jogos, apesar das onze horas de diferença entre Lisboa e Melbourne, e não esconde a satisfação de ver o clube conquistar títulos. "Só falta fazer uma boa figura na Champions, porque de resto o Benfica está a dominar o futebol português", assumiu, não hesitando depois quando questionado se o Vata de há 26 anos tinha lugar no atual plantel de Rui Vitória: "Claro que jogava. No meio de grandes jogadores é mais fácil empurrar a bola para a baliza." Ainda assim, destaca o papel desempenhado por Jonas. "É um avançado fantástico, mas só se parece comigo por marcar muitos golos", diz, com mais uma sonora gargalhada.

O Benfica até bem pode voltar a fazer em breve parte da vida de Vata num futuro próximo. "De vez em quando colaboro com o clube. Estou sempre em contacto com o Gonçalo Nuno, diretor internacional das camadas jovens, e estou a pensar indicar alguns jovens para irem treinar ao Seixal para que se possam desenvolver e, quem sabe, serem aproveitados pelo Benfica", revelou, garantindo que "há bons talentos na Austrália... só precisam de trabalhar de forma diferente".

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