"Mulher não entra": clube de golfe machista é nova polémica de Tóquio 2020

Kasumigaseki Country Club arrisca ser excluído do evento se até junho não abolir política de exclusão de atletas femininas

A marcha feminista pela igualdade de direitos nos campos de golfe é tão antiga quanto a primeira presença da modalidade no palco olímpico. No entanto, 117 anos depois, ainda há barreiras machistas por derrubar: uma delas é o Kasumigaseki Country Club, recinto que arrisca ser excluído dos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020 se não abolir a política de exclusão das mulheres como membros de pleno direito.

Depois da derrapagem dos custos do estádio olímpico, do plágio do logótipo do evento e das acusações de corrupção no processo de atribuição de organização da competição, o caso "mulher não entra" é a mais recente polémica a abalar Tóquio 2020. A controvérsia da escolha como sede das provas de golfe nos próximos Jogos Olímpicos de um clube que não admite mulheres como membros efetivos - e as impede de jogarem ao domingo - não é novo. Mas tem-se arrastado sem solução nos últimos meses, levando o Comité Olímpico Internacional (COI) a tomar uma posição de força.

"Os nossos princípios baseiam--se na não-discriminação. Manifestámos muito claramente essa posição", vincou o vice-presidente do COI, Joahn Coates, na semana passada, exigindo que o clube de golfe - situado em Saitama, a cerca de 30 quilómetros de Tóquio - tome uma decisão até junho, sob pena de perder a hipótese de acolher o torneio olímpico. "Registaram-se alguns progressos nas negociações com o clube esta semana, o que sugere que vamos na direção correta, tendo em vista o fim de uma política discriminatória", acrescentou o dirigente inglês, que esteve de visita à capital japonesa, para vistoriar os locais que vão acolher as provas de 2020.

Contudo, apesar de Hiroshi Imaizumi, diretor do Kasumigaseki Country Club, já ter admitido estar disposto a rever a política de admissão de membros, o processo tem-se arrastado. A organização de Tóquio 2020 tem recebido duras críticas pelo local escolhido para albergar o torneio olímpico. "O processo de escolha foi um pouco estranho. As pessoas de fora não podem jogar lá, a menos que sejam levadas por um membro de pleno direito. E as mulheres, além de não estarem autorizadas a ser membros regulares nem a jogar ao domingo, nem sequer podem estar envolvidas nas decisões de gestão e de funcionamento do clube", criticou Eiko Ohya, presidente do Conselho Japonês de Golfe, uma organização sem fins lucrativos, criada há um ano para modernizar a modalidade no País do Sol Nascente.

Clubes lendários têm cedido

A organização de Tóquio 2020 defende a escolha inicial, dizendo que o Kasumigaseki Country, um dos clubes privados mais antigos e prestigiados do país (fundado em 1929) "tem instalações fantásticas para a realização de competições" mas admite que "as suas regras de acesso deviam mudar". Ou seja, deve seguir os sinais dos tempos, numa época em que outros clubes emblemáticos que tinham práticas discriminatórias já deixaram cair a política "mulher não entra".

Em 2012, o lendário Augusta National Golf Club, palco dos EUA que acolhe o Masters, um dos quatro majors do circuito mundial masculino de golfe, passou a aceitar elementos do sexo feminino como membros de pleno direito. Em 2014, o escocês The Royal and Ancient Golf Club of St Andrews, tradicional organizador do Open britânico (outro dos majors) fez o mesmo. E, no ano passado, o Muirfield Golf Club, também da Escócia, perdeu a oportunidade de receber a edição de 2016 do Open britânico por não aceitar mudar as regras.

As políticas velhas e preconceituosas ficam para trás. E, desta vez, não há margem para qualquer volte-face, como quando em 1904 o torneio olímpico feminino de golfe deu lugar a uma prova de equipas masculinas (para claro desagrado das mulheres). O regresso, no Rio 2016, após 112 anos de ausência da modalidade, foi para ambos os sexos. E assim deverá continuar em Tóquio 2020, seja ou não no Kasumigaseki Country Club.

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