"Quando a Rosa Mota me abraçou pensei "como é que eu fiz isto?" Não se consegue explicar"

Há um ano, Inês Henriques sagrou-se campeã do mundo de marcha nos 50 km, quando a distância foi percorrida pela primeira vez por mulheres. Recorde a entrevista ao DN

Aos 37 anos, Inês Henriques gravou o seu nome e o de Portugal na história, ao tornar-se a primeira mulher a vencer a primeira prova de 50 km marcha num mundial de atletismo. Tornou-se também aí campeã da humildade, por ter diminuído a sua vitória perante o trabalho árduo da mãe (na fábrica de lenha e carvão). Mesmo duas semanas depois da vitória, ainda está genuinamente surpreendida com o carinho com que tem sido recebida. Diz que isso compensa os 25 anos de sacrifícios, que não são poucos. Inês vive com a bolsa olímpica, de 900 euros, e depende da boa vontade das marcas para, por exemplo, ter sapatilhas.

Ainda está a viver um sonho?

Já tenho mais a consciência do que consegui conquistar, mas... as pessoas estão a dar-me um destaque muito grande, a que não estou acostumada. Muitas entrevistas, muitas solicitações... Só no sábado passado [no dia 19, quase uma semana depois da vitória] é que tive tempo de ficar cansada [risos]. Porque tive mais um tempinho para relaxar e aí é que disse "eh pá, hoje estou muito cansada!". Porque verdadeiramente não tive tempo para ter um bocadinho...

Mas ainda pensa "isto aconteceu mesmo?"

Sim. E quando vejo imagens do final ainda me emociono. Fico ali com a lagrimazinha nos olhos. Depois há as mensagens que as pessoas me mandam, as pessoas que me abordam na rua... Aqui em Rio Maior é normal virem ter comigo, mesmo pessoas que antigamente não vinham, mas mas eu estava em Lisboa e ia a passar na rua e as pessoas a olharem. E a minha irmã "olha que as pessoas estão todas a olhar para ti". E eu: "A sério?"... Não estou habituada. Mas as pessoas têm sido muito carinhosas, têm valorizado o esforço destes anos todos e têm vindo a perceber como é que consegui conquistar isto. Sabem a minha história e têm curiosidade de saber como é que cheguei lá acima.

Sente que a sua vitória foi mais portuguesa ou mais feminina?

As duas. Para mim, a maior vitória foi a conquista de as mulheres terem uma prova só delas nos 50 km e com direito a tudo. Pedi a introdução de uma prova que era mista, em que não teria direito a nada, mas queria estar lá para demonstrar que era possível as mulheres fazerem... E para o mundo inteiro ver também. Porque, quando fiz em Porto de Mós, algumas pessoas puseram em causa, e queria, mesmo que fosse numa prova mista, mostrar ao mundo que aquilo que tinha feito anteriormente era verdade. Depois tive a agradável surpresa de que teríamos direito a tudo [prova feminina, com medalhas e marcas oficiais]. Vi o e-mail várias vezes - recebi um e-mail do advogado americano que também estava a trabalhar no assunto -, e mostrei ao meu namorado: "Vê lá se é isso mesmo, traduz como deve ser"... E ele "conseguimos"; e eu "calma". Mandei um e-mail ao meu treinador, a pedir para ligar para a Federação para saber se eles receberam a informação. Porque o advogado disse-me logo: "Contacte já a Federação, a ver se a Federação Internacional está a passar a informação de forma rápida." Isto porque as inscrições tinham de ser até segunda ou terça-feira. Essa foi a primeira conquista, as mulheres estarem lá e as sete guerreiras demonstrarem que podemos fazer a distância. Não foi feito da melhor forma, é óbvio que nós queríamos que os mínimos de 4h30 fossem estabelecidos desde o início. Mas teve de ser assim: os 50 km só entravam sob pressão.

Mais do que ganhar, também era importante provar que chegavam ao fim.

Depois, tendo em conta que conseguimos isto tudo, o meu objetivo - e o do meu treinador [Jorge Miguel] e do Nuno [o namorado] - era ir lá, tentar ser campeã do mundo. Sabia que estava a valer entre 4h06. E estipulámos como meta este ritmo, e o meu treinador disse logo: "A chinesa vai contigo, pelo menos até aos 30 km, depois dos 30 logo se vê." Preparou-me psicologicamente para aquilo. E andei 30 km com a chinesa atrás.

Chamou-lhe até uma carraça...

Exatamente, é que ela ia sempre, sempre ali atrás de mim... O ritmo que eu andava, ela andava. Podia abrandar, podia aumentar, ela ia sempre atrás.

Falou com ela depois da prova?

Sim, dei-lhes também os parabéns. Elas também eram muito simpáticas e acho que, sem dúvida, vai ficar um marco na história... Nós as três, as primeiras três a subir ao pódio, e também as outras que estiveram lá presentes, todas fomos responsáveis pelo que aconteceu. Eu só demonstrei que em termos de marca internacional era possível. É uma vitória das mulheres e, sem dúvida, pôr a nossa bandeira - já tinha acontecido em Porto de Mós - no topo mais alto do pódio, ouvir o nosso hino. É fantástico poder dar isso ao meu país. Os meus colegas vieram ter comigo e disseram: "Obrigado por nos proporcionares este momento, nunca tinha visto alguém ser campeão do mundo ao vivo"... Isso é, sem dúvida, fantástico. E receber os parabéns do nosso Presidente da República, que eu admiro bastante, orgulha-me muito.

Acredita que está nas mãos das mulheres conquistar os Jogos Olímpicos?

Sem dúvida. A continuidade dos 50 km, o que nós fizemos, porque nós melhorámos as marcas. Mas outras mulheres têm de fazer 50 km de marcha para termos mais força em termos internacionais e espero que daqui a dois anos possa estar a lutar por revalidar o meu título de campeã do mundo, com 20 a 30 atletas a fazer 50 km.

Mas não é um bocadinho injusto, em pleno século XXI, as mulheres ainda terem de provar que são capazes de fazer esta prova?

Estamos com mais de uma década de atraso, porque a última prova de atletismo a entrar, sem ser os 50 km, foi os 3000 metros obstáculos. Foi no Campeonato da Europa de sub-23 em 2001, e depois, nos Jogos seguintes em 2004 [Atenas], já tiveram a prova. Quer dizer, é 2017, estamos um bocadinho atrasados.

E as mulheres ainda têm de provar que conseguem fazer 50 km.

É verdade... Mas isto também se deve ao facto de anteriormente esta não ser uma luta das mulheres. Já tinha havido algumas provas que eram as melhores marcas, não existia recorde do mundo, mas também não houve uma força da parte das mulheres. E ainda há muitas mulheres que questionam: "Estão a fazer 50 km? Tu és louca..." E quando disse a primeira vez que ia fazer 50 km foram as palavras que ouvi mais vezes: "Tu és louca." E eu: "Mas porque é que sou louca?" Tenho uma carreira longa mas é possível continuar mais anos. Isto é óbvio para os atletas que continuam a ter prazer em treinar e ser atletas.

Entrou na prova com o recorde do mundo. É uma responsabilidade diferente?

Nunca tinha vivido uma situação destas, em que era candidata a alguma coisa. Podia estar candidata ao top 10, às 16 primeiras, mas nunca era candidata a ser campeã do mundo. Era uma responsabilidade grande, mas para mim era um grande desafio, fazer outra vez 50 km. Tinha algum receio de não conseguir manter-me calma, tranquila, e de não conseguir descansar durante a noite, antes da prova, porque sabia que seria mais difícil o corpo responder. Mas queria tentar manter-me tranquila para desfrutar daquele momento todo. Antes, durante, após... Porque é assim: posso nunca mais viver esta situação e, durante muitos anos, fui muito obcecada pelas provas e às vezes não desfrutava do resto. Mas agora vivi de outra forma e tive prazer no que estava a fazer. Isso é fundamental. E isto apesar de não ter dormido à noite - se dormi uma hora foi muito. Tentava descansar, fazer exercícios respiratórios, tudo, mas não consegui descansar. Nem disse nada ao meu treinador para não o stressar, que ele já andava suficientemente stressado. Lá fui fazendo a prova, mas tinha de estar concentrada para isso.

Mas 50 km são uma loucura, não?

Foi a palavra que mais ouvi. O meu treinador fez-me esse desafio e eu também disse "você é louco"... Porque depois não era só fazer 50 km, era fazer para recorde do mundo. E ele ainda dizia: "A gente depois divulga que vais fazer." Quer dizer , ainda íamos pôr pressão nas minhas costas. Mas vi isso como um desafio e não me preocupei nada, até me lembro de que fizemos uma conferência de imprensa uma semana antes, em Porto de Mós, e um dos jornalistas perguntou-me: "Então e se não conseguir, vai continuar a tentar?" Eu sorri e disse: "Não, no fim deste trabalho todo vou conseguir." E consegui.

Como é que se aguenta?

Tenho muitos quilómetros ao longo dos anos e normalmente nunca devo quilómetros ao treinador, pelo contrário. Mas agora já sou mais controlada e faço o que ele me manda. O Jorge Miguel disse-me "fala com o Nuno", porque ele faz parte da equipa, "e depois diz-me a tua resposta". E falei com o Nuno e ele vira-se para mim e diz: "Se tu não conseguires, com os anos todos que tens de treino, os quilómetros todos que tens acumulado, não há nenhuma mulher no mundo que consiga". E eu pensei que se eles acreditam tanto em mim eu também tenho de acreditar. Mas é óbvio que quando vejo que marchei quatro horas me questiono como é que consegui.

Sim, é uma pergunta que nós também nos fazemos...

Pois, eu às vezes não sei a resposta. Quando a Rosa Mota me veio abraçar no final, pensei "como é que eu fiz isto...". É aquelas coisas que a gente não consegue explicar. Mas acreditam que a prova passou rapidamente?

O que é que pensou durante a prova?

Ia muito focada pelo facto de não ter descansado. E tinha de controlar muito o ritmo. Não estava a ser fácil, porque um quilómetro era diferente do outro. Fazia o primeiro quilómetro do circuito muito depressa, depois abrandava, e depois fazia lento de mais... Depois tentava manter os dois iguais, andava depressa de mais, e o meu treinador reclamava. Não estava a ser fácil manter o ritmo. Ia vendo [o ritmo] de cinco em cinco voltas. Não se pode pensar que já se tem 15 e faltam 35. Consegui fazer as contas, percebi que conseguia fazer tudo, e tive de abrandar na parte final porque vi que em termos musculares estava muito desgastada. Os últimos cinco quilómetros foram os mais lentos, 26 minutos - andava ali entre os 24min18, 24min30, e os últimos já foi 26. Mas vi que tinha tempo de vantagem e que podia gerir para fazer as 4h06, porque não queria só bater o recorde do mundo, queria fazer menos de 4h06, que era o mínimo que eles tinham colocado anteriormente e queria provar que era possível.

A sua vitória foi também descrita como uma vitória do trabalho, em vez de uma vitória do talento...

Sim, porque um talento não demora 25 anos a fazer o que eu fiz...

Mas não a chateia que em vez de a reconhecerem por um talento a reconheçam como uma trabalhadora?

Pelo contrário, tem mais valor. É óbvio que tenho algum talento, porque senão não tinha chegado onde cheguei, mas o que valeu mais foi a persistência e o trabalho de 25 anos. De alguma forma, é para mostrar aos atletas mais novos que, mesmo não tendo um grande talento, se estiverem disponíveis para trabalhar, até pode demorar mas é possível chegar lá acima. Depois de tanto tempo à espera que isto acontecesse, e de alguma forma estar já a perder um pouco a esperança, estes 50 km deram-me uma oportunidade e eu agarrei-a com tudo.

E esta é uma prova que só se pode fazer a partir de uma determinada idade?

É necessário uma experiência muito grande, mesmo nos homens verifica-se que eles inicialmente vão para os 20 km e só com vários anos de experiência é que vão para os 50. O caso do João Vieira, ele vê que já não consegue tão boas classificações nos 20 km, foi aos 50 e foi 11º, fez quase o recorde nacional que é dele. Porque se se quiser andar a competir mais tempo, tem mais hipóteses nos 50. Também há os outros atletas que não conseguem os mínimos aos 20 e conseguem aos 50 km. Mas é preciso alguma experiência, alguma estaleca e muitos anos de trabalho.

Porque não se trata só de ter a capacidade física de fazer os 50 km, é mentalmente também estar preparado para o fazer...

Exatamente. Era muito obcecada pelo treino e a experiência foi-me mostrando que essa obsessão estava a prejudicar-me. Em muitos dos meus falhanços estava em over training. Pensava que tinha pouco treino, que precisava de treinar mais para melhorar mais! Estava a enterrar-me completamente.

Na apanha do tomate só não experimentei deitada. É duro

Como é que veio parar à marcha?

Vim parar ao atletismo pelo Torneio das Freguesias, em que até hoje participo. Este ano ganhei o Torneio das Freguesias, também é importante [risos]. Gosto de voltar às origens, por isso gosto de continuar com os miúdos...

Que idade tinha?

Tinha 12 anos. E na altura a Susana Feitor já tinha sido campeã do mundo e havia um grupo grande de marchadores. Nós fazíamos corrida, fazíamos marcha. Depois comecei a ir às provas de marcha e a ter bons resultados. Tinha jeito e então lá me mantive na marcha até hoje.

O futuro da marcha está assegurado?

Em termos internacionais tivemos um nível muito alto com várias atletas. Neste momento, o número de atletas está a diminuir de qualidade. Em 2010 fomos campeãs do mundo por equipas, durante 12 anos no setor feminino andámos quatro e cinco atletas a lutar por três lugares, o que era muito desgastante psicologicamente e fisicamente, e agora tivemos a Ana Cabecinha nos 20, a Inês Henriques nos 50. E tivemos mais dois homens nos 50 km. Penso que a marcha vai passar por algumas dificuldades porque a diferença entre mim e a Ana e as miúdas que estão a subir ainda é muito grande...

A vida no atletismo é mais difícil que noutras modalidades, em Portugal?

Não se compara ao futebol, não é? Fiz o feito de conseguir ser a capa d"A Bola. O atletismo acho que nunca tinha conseguido... Há pessoas que perguntam "os marchadores são o parente pobre?", eu não gosto que os da marcha sejam os coitadinhos porque nós somos dos melhores do mundo e temos provas dadas. Mas muitas marcas não nos acham atrativos. Quer dizer, fui notícia nos jornais de todo o mundo. Não somos atrativos? Às vezes não somos valorizados pelas nossas conquistas, enquanto outros atletas com nível inferior ao nosso têm muito mais apoio do que nós marchadores.

Este campeonato do mundo e o anterior recorde já em Porto de Mós não se refletiram em patrocínios?

O recorde do mundo deu-me algum prestígio, mas em termos de apoios mantenho-me no Clube de Natação de Rio Maior, tenho o pequeno apoio do Complexo Desportivo e continuo com a única marca que me quis apoiar, a Myprotein. E tenho o apoio de sapatilhas. Solicitei à Adidas e eles disseram que não podiam patrocinar, mas ofereceram-me sapatilhas para a época e agora na parte final precisei de mais e voltaram a oferecer-me. Mas mantive-me igual ao que fui, supostamente tenho direito a um apoio do Estado de 15 mil euros, mas ainda não fui à procura dele porque queria era estar em Londres. O resto disse que logo se via. Não era uma coisa urgente... urgente era estar em Londres e foi por isso que lutei e pedi à Federação para me ajudar.

Mas está no programa olímpico.

Sim, tive de garantir a minha bolsa olímpica. Depois de fazer os 50 km em Porto de Mós (janeiro de 2017) tive um problema na garganta, uma bactéria. Fui fazer duas provas [20 km] no México e o Grande Prémio de Rio Maior e não consegui fazer a marca que era necessária para me manter na preparação olímpica, já que os 50 km não são prova olímpica. E então precisava de fazer menos de 1h31 nos 20 km para me manter no ciclo olímpico porque se não tiver a bolsa não há forma de sobreviver. Como fui desclassificada na Taça da Europa (em maio, na República Checa), só consegui fazer essa marca a 4 de junho (no Grande Prémio de marcha da Corunha, Espanha).

Acha que essa dificuldade em obter apoios também está relacionada com o facto de permanecer num clube pequeno em Rio Maior?

É óbvio que os clubes grandes pagam aos seus atletas de forma diferente. Mas estou tão perto de terminar a carreira... Permaneci com o mesmo treinador 25 anos, estou no mesmo clube há 25 anos, queria era que a cidade me apoiasse para conseguir manter-me em Rio Maior.

Foi difícil tomar a decisão de viver exclusivamente para a marcha, como atleta, dado esta falta de apoios?

Não foi difícil pelo facto de adorar o que faço. É óbvio que tenho de fazer uma gestão diferente do dinheiro. Sou muito preocupada, tinha sempre muito receio do futuro e ainda hoje... ainda há bem pouco tempo pus-me na aventura de comprar uma casa sozinha. Tenho aquela prestação mensalmente para pagar e muitas vezes fui fazer as duas provas no México por causa do valor que no final poderia ganhar do circuito mundial. Na marcha ganha-se dinheiro, em termos das provas, ou no México ou na China, ponto. Então fui fazer essas duas provas do México porque ganha-se mais dinheiro e depois consegui... já vi a classificação, fui terceira no circuito mundial. A minha bolsa olímpica, ao pagar a prestação da casa e as despesas todas, torna-se curta. Consigo, de alguma forma, equilibrar as contas com esses prémios que vou ganhando nas provas internacionais.

Quanto é que podem render esses prémios?

Acho que o terceiro lugar no circuito mundial me dá 10 mil euros. Não tenho a certeza porque normalmente só vejo no final. Não vejo no início porque isso traz stresses adicionais e não gosto.

Além do trabalho duro que é preciso no desporto, a Inês não esquece o trabalho duro que é preciso fora do desporto. Até referiu o exemplo da sua mãe...

Se calhar fiz isso porque em casa nunca senti a diferença da mulher e do homem. Os meus pais sempre trabalharam muito duro e a minha mãe sempre esteve com o meu pai nesse trabalho, e não foi por ser mulher que deixou de fazer isto e aquilo. E até hoje, e neste momento, ela tem um trabalho mais duro do que o do meu pai em termos físicos... Esse foi o meu exemplo e, por isso, é que foi esta a minha luta.

A Inês também trabalhou no duro. Andou na apanha do tomate. Porquê?

Foi por opção própria. Os meus pais tinham as dificuldades deles e eu e a minha irmã não os queríamos sobrecarregar e queríamos ter a nossa independência. Eles pagavam-nos as coisas da escola, os livros... Tudo isso eram os meus pais que pagavam. Mas desde os 12/13 anos fui sempre eu que comprei a minha roupa, as minhas coisas. Queríamos ter o nosso dinheiro...

Até que idade andou na apanha do tomate?

Dos 12/13 até aos 18 anos.

Era duro.

Na apanha do tomate só não experimentei deitada [risos]. Nos dias de muito calor, era verdadeiramente duro. Posteriormente, como os meus pais tinham a empresa deles, eu e a minha irmã deixámos de ir para a apanha do tomate. Porque o meu pai disse "não, não, então se tenho aqui trabalho, vocês não vão para a apanha do tomate". E então durante as férias e aos fins de semana... Eu era sempre a mais protegida, era a mais pequenina e a minha irmã era mais a que ajudava os meus pais e também lhe devo esse favor. Quando estávamos com os meus pais no carvão, eu ficava sempre cá fora a pesar e a atar as sacas, nunca ia para dentro dos fornos, a minha irmã ia. Sempre tivemos a parte do trabalho duro. Por isso é assim: 50 km são verdadeiramente duros mas eu vi a outra parte do trabalho duro... e tantas pessoas fazem trabalho físico duro e têm de o fazer todos os dias. Em oito meses fiz 50 km por duas vezes. Óbvio que o treino tem a sua exigência, mas há dias mais duros, outros menos duros. Há pessoas que trabalham muito mais duro do que nós atletas. E nós estamos a fazer isto por prazer, enquanto os outros têm de o fazer para sobreviver.

Até quando quer continuar?

Quero fazer mais um ciclo olímpico, exista os 50 ou não nos Jogos. É óbvio que prefiro que exista 50, não é? Tenho um sonho olímpico e queria também lutar por uma medalha. Mas vamos aguardar, vamos ver se as mulheres fazem mais 50 km, que sigam o meu exemplo - demonstrei que era possível. Espero que isso aconteça.

Já tem planeado o que é que vai fazer depois?

Ao longo da minha carreira nunca descurei a parte da minha vida académica. Só ia lá basicamente três meses por ano... Porque sempre achei que era importante ter ferramentas para o futuro, porque isto tem um prazo de validade. Mesmo que não se queira pensar nisso, tem um prazo de validade, os anos vão passando e o corpo pode começar a ceder e é preciso ter o plano B. Ao longo da carreira, fui fazendo a licenciatura em Enfermagem, demorei mais tempo do que é normal. Acabei em 2014, porque queria em 2016 ter a licenciatura tirada, caso se verificasse que já não sentia prazer no que estava a fazer e que quisesse fazer algo diferente. Mas como acho que não vou conseguir viver sem o desporto, já tirei quiromassagem, já estou a tirar o curso de massagem terapêutica desportiva, e, às vezes, já dou algum apoio aqui ao Complexo Desportivo.

Ter filhos faz parte dos planos?

Tentámos no ano passado. Não aconteceu. É porque não tinha de ser, vai acontecer quando tiver de acontecer.

Mas vai parar a carreira para isso?

Posso fazer uma pausa e depois voltar. Mas ainda não temos definido...

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