"Lopetegui? Quando se inventa torna-se mais difícil ganhar"

Paulo Futre foi formado no Sporting, mas foi no FC Porto que começou a brilhar. No clássico de hoje, diz, vão estar duas equipas que estão a fazer boas épocas. Mas não poupa críticas ao treinador dos dragões...

O que espera do clássico entre o Sporting e o FC Porto?

É um jogo que pode marcar o campeonato, pois se o Benfica ganhar em Guimarães e houver um empate em Alvalade, o Benfica fica na luta pelo título, algo impensável quando empatou na Madeira. No clássico não há favorito porque todos os resultados são possíveis, ainda para mais quando a diferença entre ambos é de um ponto.

A verdade é que o FC Porto chega a Alvalade com essa vantagem de um ponto na classificação...

É verdade, mas em agosto os sportinguistas não pensariam, por certo, estar nesta altura na posição em que estão. O Sporting está a fazer uma grande época e o FC Porto também, apesar de ter cometido alguns erros.

Que erros foram esses?

São os erros de Julen Lopetegui, especialmente em momentos cruciais como foi na Liga dos Campeões. Sobretudo em casa com o Dínamo Kiev, em que alterou cinco posições, e com o Chelsea, em que utilizou uma estratégia que deixou toda a gente de boca aberta. Isto a juntar ao que se passou na época passada: em Munique jogou com quatro centrais, impensável.

É uma tendência para fazer mudanças nos jogos importantes?

Quando se inventa torna-se mais difícil ganhar, pois até os jogadores ficam surpreendidos com as decisões que toma.

Por causa disso, considera que o Sporting tem vantagem no clássico?

Vamos ver o que fazem as equipas. É verdade que o Jorge Jesus conhece bem Lopetegui por tê-lo defrontado na época passada, mas o espanhol também conhece bem o treinador do Sporting. Por isso, estão em igualdade de circunstâncias. Falta saber se Lopetegui não vai inventar.

Tendo em conta a sua ligação a Espanha, o que dizem por lá sobre as decisões de Lopetegui?

Não falam sobre isso. A imprensa espanhola diz apenas se ele ganhou ou perdeu, mas não comentam sobre os equívocos dele quando muda em jogos importantes.

Que jogadores podem ser decisivos neste clássico?

Desde logo os dois pontas-de-lança. O Slimani e o Aboubakar podem desequilibrar a qualquer momento, mas pode sempre aparecer uma surpresa, um jogador que ninguém espera, como foi o caso do André André no FC Porto-Benfica.

O Sporting é uma equipa mais pressionada por ter perdido a liderança na jornada anterior?

Não creio. Já passaram alguns dias desde essa derrota com o U. Madeira e nos clássicos a pressão é normal. Este é um jogo importante, mas não é decisivo, pois ainda faltam muitas jornadas.

Será um jogo calculista e fechado?

Acho que se houver um golo nos primeiros 15 minutos poderá ser um grande espetáculo, com muitos golos, pois vai estar muita qualidade em campo. Além disso, pelo que mostrou nos jogos com o Benfica e com o Sp. Braga para a Taça de Portugal, o Sporting nunca desiste, mesmo que esteja em desvantagem. Quanto ao FC Porto, tem jogadores de muita qualidade e um meio-campo de luxo, mas falta saber se Lopetegui não inventa.

O Paulo Futre começou a carreira profissional no Sporting e foi ídolo no FC Porto. Estará por isso dividido neste clássico?

Vou desfrutar do jogo. Orgulho-me de ter jogado nos três grandes e, assim sendo, só nas últimas jornadas decidirei por quem vou torcer na luta pelo título.

O facto de se falar muito dos árbitros será uma pressão acrescida para Hugo Miguel, que foi designado para o clássico?

Faz parte da nossa cultura falar dos árbitros. Fala-se de mais. E só irá acabar quando houver meios tecnológicos para os ajudar a tomar decisões. Os árbitros têm, no entanto, de estar preparados para a pressão a que estão sujeitos neste tipo de jogos, mesmo sabendo que se falharem serão crucificados.

Qual foi clássico que mais o marcou na sua carreira?

Foi o único jogo que perdi nas Antas pelo FC Porto, foi para a Taça de Portugal. O Sporting ganhou 1-0 no prolongamento [em 1987] com um golo de Mário. Pelo Sporting, foi um jogo pelos juniores, com o Estádio das Antas lotado, em que ganhámos com um golo meu e fomos campeões.

Como é que um jogador se prepara para jogos como estes?

É daquelas partidas em que o treinador não precisa de motivar os jogadores. Logo no início da semana começa-se a pensar no clássico e na véspera do jogo já custa dormir, pois a adrenalina é muito alta.

Julen Lopetegui e Jorge Jesus tiveram problemas na última vez que se defrontaram, na Luz, na época passada. Acha que vão cumprimentar-se no início do jogo?

Acho que agora será mais pacífico. Naquela altura, o Lopetegui chegou à Luz depois de ser goleado em Munique e nesse jogo com o Benfica perdeu o campeonato e por isso as coisas aqueceram. Agora, acho que vão cumprimentar-se, mas se o jogo aquecer veremos o que acontece no final...

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Nasceu em Cabo Verde (a 2 de maio de 1985), país que deixou aos 16 anos para jogar basquetebol no Barreirense. O talento levou-o até bem perto da NBA, mas foi em Espanha, Andorra e Itália que fez carreira antes de regressar ao Benfica para "festejar no fim". Internacional português desde os Sub-20, disse adeus à seleção há apenas uns meses, para se concentrar na carreira. Tem 34 anos e quer jogar mais três ou quatro ao mais alto nível.