"Superliga? Atitude quase terrorista que põe em causa o futebol"

Português que lidera organização pela integridade do desporto espera mão pesada da UEFA para desertores "movidos pela ganância" e avisa para implicações nos contratos dos jogadores. Se Superliga avançar, Ronaldo pode rescindir com justa causa...

Como presidente da Sports Integrity Global Alliance, o que acha da Superliga Europeia de futebol?
Não é a primeira nem a segunda vez que acontece. São ameaças cíclicas a cada quatro ou cinco anos - a primeira em 1997 com o defunto G14 -, mas nunca de forma tão descarada e cobarde como o indivíduo que atira a pedra e esconde a mão. Cada vez que é preciso discutir alterações ou formatos da Champions, distribuição de dinheiro ou a lista de acessos às provas europeias, há um conjunto de clubes que se julga dono disto tudo e discute com a UEFA com a arma em cima da mesa, um ambiente de chantagem. Isto é inadmissível! Quando se esperava bom senso, solidariedade e soluções para ultrapassar a crise criada pela pandemia, assiste-se a uma atitude prepotente e quase terrorista que põe em causa o desenvolvimento sustentado do futebol europeu.

Isso são palavras muito duras...
Depois da atitude destes clubes a UEFA tem de ter mão pesada. É uma atitude grave de mais e a UEFA não pode passar uma esponja sobre o aconteceu sob pena de perder a credibilidade total. Estes clubes têm estado a orquestrar uma competição pirata, à margem do sistema, movidos pela ganância das receitas e para alimentar os gastos incontinentes que inflacionam o mercado de jogadores e tem conduzido o futebol europeu pelo abismo. Os grandes clubes têm sido os principais instigadores de uma espiral despesista. Se a UEFA não tivesse implementado o sistema do licenciamento de clubes há 21 anos, e depois o fair play financeiro, já não havia futebol europeu como o conhecemos.

É um assalto ao poder então?
É pressionar a UEFA a abrir os cordões à bolsa. É um jogo de poder. Por exemplo, porque é que há quatro clubes italianos com acesso direto à Liga dos Campeões? Que critério justifica isso? Não é o mérito desportivo... Chegou a hora de expor este bluff e cada um assumir as suas consequências. A Superliga é insustentável além de ser ilegal à luz do direito europeu. A UEFA só tem de aplicar os regulamentos e afastar esses clubes de vez.

Uma prova fechada ao estilo NBA é uma má ideia porquê?
Primeiro porque colide frontalmente com o modelo europeu do desporto, assente no Direito Europeu, que proíbe situações de cartel ou de posição dominante. Competições fechadas são ilegais e violam o tratado da União Europeia. Por isso a Comissão Europeia há uns meses lançou um aviso e ameaçou intervir caso acontecesse algo do género. Se algum dia a Superliga avançar será a destruição do futebol, porque o dia em que uma competição for fechada, o princípio do mérito desportivo vai ao ar, a solidariedade financeira vai ao ar, assim como vai ao ar a estabilidade dos contratos com os jogadores. Ou querem que um contrato de trabalho desportivo tenha o mesmo regime de um contrato geral de trabalho, sem períodos de proteção? Isto é muito perigoso...

Isso quer dizer que se a Superliga avançar, e uma vez que a Juventus é um dos fundadores, Cristiano Ronaldo pode rescindir contrato?
Pode. Se a Juventus ficar inibida de competir numa competição europeia oficial, o Cristiano Ronaldo pode rescindir com justa causa. Embora não conheça o contrato dele, qualquer jogador pode rescindir se o contrato tiver especificado objetivos por competição, por exemplo, uma vez que esta não é uma prova oficial nem reconhecida, por isso eles estão desonerados.

isaura.almeida@dn.pt

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