Eles deram cor aos dérbis da era preto e branco

Hilário e Simões defrontaram-se umas 30 vezes durante 11 épocas e construíram uma amizade dentro e fora do campo, com ajuda de Eusébio

A memória de Hilário da Conceição vai até 14 de janeiro de 1962, no Estádio José Alvalade, onde o Sporting empatou (3-3) com o Benfica na estreia de António Simões em dérbis. "Acabei expulso! O José Augusto era um jogador muito rápido e criativo, eu estava a marcá-lo de costas para o terceiro anel, ele foi caminhando a tentar fintar, eu fui recuando e consegui tirar-lhe a bola. Dei um chuto para o terceiro anel, caímos os dois no chão. Ele pegou-me no pescoço e disse: "ai seu filho da mãe", e eu tentei chegar-lhe. Não lhe dei, mas o árbitro viu o gesto, marcou penálti e expulsou-me. Eu fui bem expulso, o penálti é que foi mal marcado, porque quando faço a falta a bola já estava no terceiro anel", recorda ao DN o antigo lateral-esquerdo do Sporting, lembrando que Germano ainda teve de esperar pela bola que estava no 3.º anel para marcar o penálti.

Simões lembra-se que até começou no lado direito e teve "de levar com o Hilário uns minutos". Mas depois passou para o outro lado e "ele é que teve de levar com o Zé Augusto, a figura desse jogo verdadeiramente eletrizante". Arizava marcou para o Sporting no primeiro minuto, Santana empatou aos dois. Géo Carvalho fez o 2-1 e Sarmento fez o 3-1 para os leões. Depois, Germano apontou o 3-2 no lance do penálti de Hilário e José Augusto o 3-3 final.

Mas o jogo não terminou nesse domingo à tarde. Na segunda-feira, o leão encontrou José Augusto na rua a conduzir. "Parou o carro, virou-se para mim e disse: "ó Hilário foste um anjinho, provoquei-te e caíste nisso" e arrancou."

Foi o primeiro de 22 dérbis oficiais (19 no campeonato) entre Hilário e Simões desde a época de 1961/62, a da estreia do extremo das águias, e a temporada 1972/73, ano da retirada do defesa-esquerdo dos leões, a quem um dia elogiaram ao dizer que "era o Eusébio dos laterais-esquerdos".

Mais velho cinco anos (tem 77 anos), a antiga glória leonina jogou mais Sporting-Benfica na carreira do que o "miúdo" Simões, de 72 anos, mais afortunado nesses duelos, já que ganhou nove, empatou sete e perdeu seis. E também ganha em minutos jogados. Foi totalista nos duelos entre águias e leões nessas 11 épocas -1980 minutos, mais 15 do que Hilário (1965"), que foi expulso aos 75" no primeiro duelo entre ambos.

Prémios de quatro e cinco contos

Eles queriam era dérbis e clássicos. O antigo jogador do Sporting já não se lembra bem, mas acha que o prémio de vitória nos jogos com Benfica e FC Porto era na ordem dos "quatro contos de reis (20 euros)". Veio de Moçambique para Alvalade, em 1958, com um ordenado "jeitoso" - dois contos e meio (10, 5 euros)e um prémio de assinatura de 200 contos (1000 euros): "Só o Travassos ganhava isso e já era uma estrela."

No Benfica, vencer os rivais dava mais cinco contos (25 euros) ao bolso de António Simões e o empate dois contos e meio (10,5 euros), quando "o normal era 500 escudos (2,5 euros) nos jogos em casa e 1000 escudos (cinco euros) fora".

Valores que não têm comparação com os milhões que o futebol atual movimenta. "Não tenha dúvidas de que nascemos na hora errada para a profissão. Naquela altura o nosso único direito era não ter direito nenhum", atira Simões, ele que deixou o Benfica em 1975, depois de fazer opções políticas publicamente.

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