Eles deram a volta ao mundo para carimbar o passaporte olímpico

Como Filipa Martins, Gustavo Simões, Ana Rente e Diogo Abreu se prepararam no estrangeiro até garantirem o Rio 2016

Foi uma espécie de volta ao mundo em acrobacias de ginasta. Nos últimos meses, Filipa Martins lançou-se por EUA e Suíça; Gustavo Simões equilibrou-se entre Alemanha, Brasil e Espanha; Ana Rente e Diogo Abreu saltaram por Canadá, China, Reino Unido e Rússia. Uma sucessão de estágios internacionais, junto dos melhores do mundo, serviu para aprimorar a preparação do quarteto. E os frutos apareceram nos últimos dias, no Rio de Janeiro (Brasil): os quatro carimbaram o passaporte para representar a ginástica portuguesa nos próximos Jogos Olímpicos.

O test event (evento-teste) de ginástica, realizado até ontem no Rio de Janeiro - as últimas provas, de rítmica, não tiveram participação nacional -, serviu para garantir mais quatro presenças nacionais nos Jogos Olímpicos (elevando para 63 o número atual de vagas garantidas, em 11 modalidades). Filipa Martins, Gustavo Simões (ambos da vertente artística), Ana Rente e Diogo Abreu (ambos de trampolins) traçaram mais um registo histórico para a ginástica em Portugal, igualando o número recorde de presenças nas provas olímpicas (quatro, como em Londres 2012). Mas a Cidade Maravilhosa foi a apenas a última paragem da longa viagem dos atletas portugueses até lograrem o objetivo.

Na ginástica de trampolins (onde Diogo Ganchinho também lutou pela qualificação olímpica, apenas não se apurando devido à limitação de uma vaga por país), os atletas fizeram "uma boa preparação, muito intensa", nos últimos meses, descreve ao DN Isabel Falcão, diretora técnica nacional da especialidade. "Além de estágios internos e da participação no circuito da Taça do Mundo, o processo de preparação passou por uma série de estágios internacionais na China, Rússia, Canadá ou Reino Unido, em centros de alto rendimento, com campeões mundiais e olímpicos", explica.

A possibilidade de estagiar junto das seleções nacionais das grandes potências mundiais da modalidade - graças a parcerias com federações, clubes e treinadores e a algum esforço financeiro da Federação de Ginástica de Portugal - é fundamental para a preparação dos atletas. Dá-lhes experiência competitiva entre as elites e permite-lhes usufruir de condições que não teriam em Portugal, lembra André Nogueira, diretor técnico nacional de ginástica artística. "Tudo começou a ser preparado há quatro anos, mas a preparação intensificou-se a partir de janeiro. Desde aí, a Filipa Martins passou pela Suíça, pelos EUA e pela etapa da Taça do Mundo do Qatar, o Gustavo pelo Rio de Janeiro, Madrid e Estugarda. Lá trabalharam junto de seleções potências mundiais, que já estavam qualificadas ou procuravam o apuramento coletivo para os Jogos [apenas Suíça e Espanha não o conseguiram]", acrescenta.

"Foi algo muito importante. É bom para ter todas as condições e experiências de treino, ver como trabalham e poder pensar 24 horas por dia na ginástica", destaca Gustavo Simões, ao lembrar as semanas que passou entre Espanha, Brasil e Alemanha. "Foi bom trabalhar em condições decentes, já que em Portugal não há muitas boas infraestruturas desportivas em modalidades para lá do futebol, tal como não há facilidade em conciliar os estudos com a prática desportiva", aponta o ginasta.

Em breve, a falta de estruturas poderá ser resolvida. "Há um projeto do Sport Clube do Porto a crescer, mas por agora o melhor ginásio do país ainda é o do Centro de Alto Rendimento de Anadia [que obriga a grandes deslocações dos atletas e é partilhado com outras modalidades]", esclarece André Nogueira.

Quem são e até onde podem ir?

Ainda assim, estas limitações não impediram o concretizar do sonho olímpico do quarteto de portugueses: por ordem cronológica, Gustavo Simões, Filipa Martins, Ana Rente e Diogo Abreu trataram de confirmar o passaporte para o Rio 2016. "Um sonho realizado" e "algo ainda mais especial" para Simões e Rente, casal de namorados que se apura em simultâneo para os Jogos Olímpicos, após em 2012 apenas ela o ter alcançado.

Na artística, Filipa Martins, de 20 anos, é um jovem talento, depois de se ter tornado a primeira portuguesa e chegar à final all-around em Europeus e Mundiais seniores. Já Gustavo Simões, de 25, é uma confirmação, após em Londres 2012 ter cumprido os critérios de qualificação mas ficado como reserva de Manuel Campos (devido aos limites de vagas).

"Ambos são atletas bastante determinados e focados, que falham muito pouco em competição. A Filipa é um talento conjugado com muito trabalho. Tem conseguido grandes resultados nos últimos anos e ainda tem uma grande margem de progressão. Já o Gustavo é mais velho, mas ainda pode fazer muito mais, até porque os homens têm mais longevidade", descreve André Nogueira. Perspetivando a participação de ambos no Rio 2016, o diretor técnico nacional de ginástica artística prefere "dar um passo de cada vez" e "estabelecer objetivos realistas; exigentes mas alcançáveis". Ou seja, serem semifinalistas (finalistas são os oito melhores nos aparelhos ou 24 melhores no all around).

Trampolins querem saltar mais alto

Nos trampolins, onde só há 16 participantes na versão feminina e outros tantos na masculina, o discurso é outro. "O que ambicionamos sempre é uma medalha... mas o objetivo é uma participação na final [reservada aos oito primeiros]", fixa Isabel Falcão (a melhor classificação nacional foi o 6.º lugar de Nuno Merino em Atenas 2004). A tentar saltar mais além estará Ana Rente, de 27 anos, que vai cumprir a terceira participação olímpica, após Pequim 2008 (16.ª) e Londres 2012 (11.ª), e igualar o recorde nacional da ginástica (Esbela da Fonseca Miyake participou em 1960, 1964 e 1968). E também Diogo Abreu, de 22 anos - uma jovem revelação que, ao ter uma melhor qualificação no test event, impediu que o experiente Diogo Ganchinho somasse também uma terceira participação olímpica (este ficará como reserva).

"A Ana é uma lutadora, uma mulher cheia de garra que consegue conciliar os treinos com o trabalho [é médica em final de formação, a fazer a especialidade]. Já o Diogo Abreu distingue-se pela humildade. É um ginasta espantoso com muito potencial", elogia a diretora técnica nacional de trampolins.

De resto, para os quatro ginastas nacionais apurados para os Jogos Olímpicos, a preparação não acaba aqui: até agosto, há mais competições - incluindo as etapas portuguesas das respetivas Taças do Mundo (artística, em junho, em Anadia, e trampolins em julho, em Coimbra). E, depois, talvez juntem mais algumas milhas aéreas de outro estágio internacional, antes de aterrarem no grande destino da época: o Rio 2016.

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