Ela abriu a maratona às mulheres, agora volta a Boston para celebrar

Há 50 anos, uma mulher entrou pela primeira vez numa maratona com um dorsal oficial. Kathrine Switzer acabou perseguida por um juiz mas levou à mudança de mentalidades.

A imagem - um rapaz corpulento a placar o juiz que tentava impedir a rapariga de prosseguir a sua corrida - tornou-se lendária. E ela, Kathrine Switzer, a primeira mulher a entrar numa maratona com dorsal oficial, garantiu um lugar na história, pelo seu papel na abertura das portas das provas de longa distância ao sexo feminino. Amanhã, 50 anos depois e com a igualdade quase garantida (no atletismo), a ex-atleta volta à Maratona de Boston, para celebrar.

"Será uma honra e alegria participar na Maratona de Boston. O incidente dramático de há 50 anos, quando um diretor de corrida furioso me tentou expulsar por ser rapariga, tornou-se um momento decisivo para mim e para as atletas de todo o mundo. O resultado foi uma revolução social: hoje há mais mulheres corredoras nos EUA do que homens", explicou Kathrine Switzer, ao anunciar a participação na prova, que se corre amanhã, na capital do Massachussets (EUA), a partir das 08.50 (mais cinco em Lisboa).

O regresso é emblemático porque Kathrine Switzer contribuiu, de forma decisiva, para a mudança de mentalidades no atletismo. Antes dela, as provas de meia e longa distância, a partir dos 1500 metros, estavam barradas às mulheres. E apenas Roberta "Bobbi" Gibb tinha corrido a Maratona de Boston, de forma incógnita, sem dorsal (seria considerada, a posteriori, a vencedora das edições de 1966, 1967 e 1968).

Kathrine - que tinha 20 anos e estudava Jornalismo na Universidade de Syracuse (Nova Iorque) - tentou outro caminho. Seduzida pelas descrições que o seu treinador fazia da Maratona de Boston e convencida pelo facto de o regulamento da prova não dizer de forma clara que excluía mulheres, inscreveu-se como K.V. Switzer ("não por medo de ser apanhada mas porque tinha J.D. Salinger, E.E.Cummings, T.S. Elliot e W.B. Yeats como referências literárias"). Recebeu o dorsal de participação n.º 261 e só foi descoberta aos primeiros quilómetros da prova.

"Quando me viram, os fotógrafos começaram a comentar "está ali uma rapariga!" Eu não me tentei esconder: estava bastante orgulhosa. Mas o juiz, Jock Semple, conhecido pelo seu temperamento violento, veio furioso atrás de mim, a berrar "dá-me o dorsal e põe-te fora daqui". Por sorte, o meu namorado [Tom Miller, de 115 kg e atleta de lançamento do peso] conseguiu fazer-lhe a mais bela placagem que alguma vez vi, enquanto Arnie [o treinador] gritava "corre que nem uma louca"", resumiu a maratonista.

O resto é história: embora a infame presença de K.V. Switzer não tenha sido registada pela organização (terminou em 4:20 horas), o caso e as fotos do incidentes ficaram estampados na imprensa dos dias seguintes. E Kathrine encontrou "um objetivo de vida": lutar para que as mulheres passassem a ter acesso às provas de longa distância.

De forma gradual, os esforços feministas - que vinham desde finais do século XIX - começaram a dar frutos. Em 1972, a Maratona de Boston tornou-se o primeiro grande evento a aceitar mulheres (e Switzer subiu ao pódio, em 3.º lugar); em 1979, a Associação Internacional de Federações de Atletismo passou a aceitar provas mistas sob a sua jurisdição; e, por fim, em Los Angeles 1984 deu-se a estreia feminina na distância mítica, em Jogos Olímpicos (com Rosa Mota a conquistar a medalha de bronze).

Kathrine Switzer - que ainda venceria a Maratona de Nova Iorque (1974) e voltaria ao pódio em Boston (foi 2.ª em 1975, com recorde pessoal de 2.51.37) - tornou-se comentadora televisiva, continuou a lutar pela igualdade de género (lançou a fundação 261 Fearless) e tem agora razões para celebrar: "Regressar a Boston, o local onde tudo começou, é extremamente gratificante."

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