Dos jogos de computador a mais jovem treinador das ligas profissionais

André David começou a treinar aos 21 anos. Aos 30 chegou ao Académico de Viseu, da II Liga. O sonho é atingir o escalão maior

É o espelho de uma nova geração de treinadores que nasceu das pisadas de José Mourinho. Cresceu a admirar as proezas do Special One e a colecionar títulos no Football Manager, o conhecido jogo de simulação que, a custo de muitas horas de sono, o ajudou a descobrir a paixão pela profissão. Alia ao desejo de cumprir objetivos a vontade de implementar um modelo que lhe permita "rentabilizar os ativos" que tiver em mãos. Faz questão de falar (quase) sempre na primeira pessoa do plural: o "nós" em vez do "eu". O eu é André David, técnico do Académico de Viseu, aos 30 anos, o mais jovem dos campeonatos profissionais portugueses.

A primeira vez que experimentou a responsabilidade de orientar uma equipa foi em frente ao computador, devia ter pouco mais de dez anos. "Gostava muito daquela dinâmica de ganhar e de estar na pele de treinador. Ajudou-me a perceber que gostava disto", conta ao DN. Ainda se lembra "daquelas cópias que quase não funcionavam" do então Championship Manager 94-95 - a versão mais antiga de que se recorda. Quando chegou à faculdade, já o hobby tinha ganho contornos de religião. "Foram muitas noites de sono perdidas. Às vezes, até para sair de casa era complicado", brinca.

Perante este cenário, a decisão de se licenciar em Educação Física pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro surgiu com naturalidade. Aos 21 anos, já treinava nas camadas jovens do Sabroso, em Vila Pouca de Aguiar, a sua terra natal. Durante dois anos, ainda conseguiu conciliar essa atividade com a de jogador - era guarda-redes numa equipa amadora. Aos 23, após ganhar o seu primeiro título, ao comando dos iniciados do Abambres, decidiu "pendurar" as luvas para se dedicar inteiramente à sua vocação. A partir daí, foi sempre a subir: Tourizense, Oliveira do Hospital, Bragança e, agora, o Académico de Viseu, da II Liga.

A ideia é "construir as bases para chegar à I Liga dentro de dois ou três anos". Pelo menos foi o que lhe pediram. Para já, o objetivo é alcançar a permanência "o mais depressa possível" e valorizar alguns jogadores no processo. "Vamos procurar desenvolver um futebol atrativo, que traga gente ao estádio", promete André David.

"Quando se contrata um treinador, contrata-se uma ideia de jogo", defende. Que ideia contrataram, então, os viseenses? "Melhor do que falar, é ver a equipa a jogar, ou esperar que tenham visto as nossas anteriores equipas. Se tiver ficado na memória, já é bom sinal", atira. "Valorizamos muito o processo ofensivo. Embora achemos que as equipas devem ser equilibradas e sofrer poucos golos, acreditamos que ter a bola é a melhor forma de chegar à vitória. O processo ofensivo é o que mais valoriza os jogadores, mas isto tem de estar alicerçado em vitórias."

De Mourinho a Jorge Jesus

Para André David, a primeira pessoa do singular é quase proibida. "O meu trabalho sozinho é zero. Sem os meus adjuntos não existia, sem os jogadores muito menos", explica. E este "nós" vai dos conhecimentos que bebeu em todos o clubes por onde passou até aos treinadores que encara como referências.

"A grande referência e motivação é e foi claramente José Mourinho. Depois, há vários treinadores que me agradam, como Pep Guardiola, as equipas de Jorge Jesus ou as do Jürgen Klopp. Também admiro o Pochettino, que está a fazer um bom trabalho no Tottenham. E o Paulo Fonseca, por cá. Há sempre alguns treinadores com os quais nos identificamos mais, sem tirar o mérito aos que vencem jogando de formas diferentes", sublinha.

A idade é apenas um número

"Ainda sou do tempo em que todos os miúdos queriam ser jogadores. Agora já não é bem assim..." Mais do que inspiração, Mourinho foi revolucionário. "Houve uma tendência pós-Mourinho para começar a olhar para treinadores mais jovens. Ele abriu algumas portas, mas isso não é assim tão linear. Idade, raça ou sexo não querem dizer nada. Há muitos treinadores mais velhos com grande qualidade e vice-versa. Jovens também. Não creio que haja relação direta entre idade e competência", considera.

Segundo este raciocínio, lidar com um balneário em que há jogadores mais velhos não se afigura um problema para André David. "A idade não importa. O John Terry era capitão do Chelsea aos 23 anos. O mais importante é ter personalidade e competência. Quando veem competência, os jogadores seguem-na", resume.

E onde é que este jovem técnico se imagina dentro de cinco ou dez anos? "Nas entrevistas que dei nos últimos anos, falava do sonho de chegar aos campeonatos profissionais. Queria ser melhor como treinador do que como jogador. Agora que já cumpri isso, quero consolidar-me e continuar a crescer. Acredito estar preparado para, dentro de dois ou três anos, treinar na I Liga. Mas o futebol é muito volátil", frisa. Quem sabe se um dia será capa do Football Manager.

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