Da depressão a mais goleadora do Mundial no espaço de um mês

Norueguesa Nora Mork viu fotografias íntimas suas serem publicadas das redes sociais após o seu telemóvel ser atacado por um hacker. Deu a volta e marcou 66 golos no Mundial

No espaço de um mês, a andebolista norueguesa Nora Mork fez uma viagem do inferno ao céu. Em meados de novembro, sentou-se à frente das câmaras do canal televisivo TV2 para contar o drama que estava a viver. Um jovem - entretanto já detido - tinha hackeado o telemóvel dela e publicado nas redes sociais fotografias íntimas da jogadora, que caiu em depressão.

Durante o início da temporada, falhou vários jogos devido a uma lesão muscular que nunca existiu. Na verdade, a sua baixa devia-se aos problemas psicológicos que, durante algumas semanas, a fizeram sofrer também de distúrbios a nível de sono e alimentação.

Nora, 26 anos, chegou inclusivamente a pensar em abdicar do Mundial da Alemanha, que se realizou entre os 1 e 17 deste mês. "Quando a convocatória para o Mundial foi anunciada, tive muito medo e não queria falar com ninguém. Fiquei assustada. Pensava em comprar um bilhete de avião e viajar até ao outro lado do mundo e estar lá até que a quadra natalícia passasse. Mas apercebi-me que, se fizesse isso, essa pessoa me ganhava. Necessitava de recuperar a minha vida e boa parte da minha vida é o andebol. Adoro jogar pela Noruega, quero representar o meu país e não posso deixar que alguém me retire essa possibilidade", começou por contar a lateral direito nórdica, internacional desde 2010, durante a entrevista.

"Nunca tinha disputado uma batalha tão dura. A minha autoestima desapareceu e cada dia era esgotante. Lutava contra a minha raiva, a minha deceção, o meu pânico e a minha frustração. Ninguém consegue entender o que pode provocar uma exposição dessa natureza. Estou habituada a que me julguem pelas minhas exibições nos pavilhões, mas meteram-se na minha vida privada de forma tão agressiva que me senti insegura e atemorizada. Felizmente, tive muitas pessoas que me apoiaram e ajudaram", narrou a andebolista da equipa húngara Gyri ETO KC.

A sorte de Nora Mork começou a mudar no Campeonato do Mundo, prova em que se mostrou imparável. Com 66 golos (em 97 remates), foi a melhor marcadora do torneio e eleita a melhor lateral direito da competição. Ficou apenas a faltar a cereja no topo do bolo, o título. A culpada foi a seleção francesa, que venceu a Noruega por 23-21 há uma semana, na final disputada em Hamburgo. Mas na caminhada para o jogo decisivo, no qual faturou por sete vezes, brilhou com 11 golos à Espanha nos oitavos de final, nove diante da Rússia nos quartos e oito à Holanda nas meias.

Mas, muito mais do que os números, a norueguesa de 1,67 metros sente que, em jogo, as suas investidas nunca foram tão ferozes e as suas decisões tão acertadas. "Agora estou bem, estou cómoda de novo. Fizemos jogos de grande nível e nunca nos vi a defender tão bem. Posso dizer que estou contente", comentou a própria, novamente ao canal TV2, em vésperas da final.

Nora Mork levou para casa a medalha de prata, mas foi a grande vencedora da competição. Recuperou a alegria de viver, algo mais importante do vasto palmarés que tem para apresentar: campeã mundial (2015), tricampeã europeia por seleções (2010, 2014 e 2016), bicampeã europeia por clubes (2010/11 e 2016/17), medalha de bronze dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro (2016) e campeã europeia (2009) e mundial (2010 de juniores, entre outros títulos e taças nacionais. Individualmente, a lista de prémios é ainda mais extensa e contempla os títulos de máxima goleadora dos Jogos Olímpicos e do Campeonato da Europa do ano passado.

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