"Chegámos a ter três denúncias de doping por semana e foram todas investigadas"

A luta contra o doping custa um milhão de euros por ano. Nova lei protege denunciantes e coloca a ADoP em conformidade com a lei internacional. WADA continua a exigir que o laboratório antidopagem saia da esfera do IPDJ para devolver credenciação e isso dava um certo jeito operacional e reduziria custos.

Na liderança da Autoridade Antidopagem de Portugal (ADoP) desde 2020, Manuel Brito explica a importância dos controlos feitos fora da competição e mostra preocupação com o "uso por simpatia" de substâncias ilegais nos ginásios. Em 2021 houve dez casos de doping no desporto federado.

Há uma nova lei antidopagem desde novembro. O que mudou?
A questão mais importante foi confirmada a 7 de janeiro, quando a Agência Mundial Antidopagem (WADA, sigla em inglês) nos informou que a ADoP está agora em conformidade com o código mundial antidopagem. A criação do conceito de praticante desportivo recreativo, o praticante desportivo protegido e as substâncias de uso recreativo, em que a parte sancionatória diminui bastante. Quem fumar um charro sem ser em competição pode ser castigado com três meses ou um mês se fizer um acordo com a ADoP para um programa de recuperação, quando antes a pena ia até aos dois anos. Outra novidade é a proteção dos denunciantes e o agravamento de sanções em casos de doping mais graves. Além disso, a Polícia Judiciária ficou com mais margem para o combate ao tráfico, venda e uso de substâncias proibidas. Do ponto de vista legislativo e operacional isto é muito relevante.

Também há novas substâncias proibidas...
São 700 substâncias e métodos proibidos, como as autotransfusões, um método antigo, que continua forte, ou injetar ar através do ânus aos nadadores. A lista é vasta e vai estar disponível numa semana ou duas numa aplicação que a ADoP está a desenvolver com a Faculdade de Ciências e que permitirá a todo o universo desportivo uma busca mais rápida das substâncias. Queremos ajudar o praticante a não cair numa armadilha por desconhecimento, o que acontece muitas vezes. A lei da responsabilidade objetiva é essencial.

Isso significa o quê?
O praticante é responsável independentemente de como a substância chega ao seu corpo. Dou-lhe um exemplo. Há um caso em tribunal muito complicado e sensível, de um atleta que foi punido com quatro anos por uso de EPO. Ele pode beneficiar ao denunciar o circuito da substância até chegar ao organismo, mas isso poderá envolver a mãe e o treinador e ter até implicações criminais.

E a canábis, que no ano passado foi autorizado para uso terapêutico?
A canábis é uma droga social proibida e por isso não permitida. O canabidiol de uso terapêutico não é considerado substância dopante, mas posso dizer que houve aí uns casos delicados com cocaína. Cocaína e deporto não liga de todo.

Com tantos controlos e métodos de deteção avançados, ainda é possível manipular resultados?
A história tem provado que há quem esteja à frente do conhecimento científico da antidopagem. Apesar de a luta não ser fácil, há um enorme avanço. Como se viu com o caso do Lance Armstrong, ninguém fica impune para sempre. As amostras ficam guardadas por dez anos e por isso durante uma década podem apanhar-se os batoteiros e os títulos de hoje podem ser retirados amanhã, além de terem de devolver apoios financeiros.

Esse prémio de consolação para quem joga limpo é pouco...
Quem joga limpo está limpo e ponto final. Mas em 2019 quando fui ao congresso mundial antidopagem assisti a um espetáculo muito triste que foi uma atleta ser chamada ao palco para receber uma medalha. A batoteira recebeu a medalha aclamada num estádio com 120 mil pessoas e a atleta limpa recebeu-a numa sala fechada com mil pessoas. Isto é uma perversão do que é o desporto limpo.

Qual é a maior arma da ADoP contra os batoteiros?
Muitas denúncias anónimas e controlos. Antes da pandemia chegámos a ter três denúncias de doping por semana, mais de 150 /ano. E foram todas investigadas. Atuamos sempre e a proteção do denunciante é sagrada. Depois temos os controlos em competição e fora dela, que são muito eficazes porque assim aqueles que fazem planeamento de dopagem com microdoses e chega ao dia da competição e estão aparentemente limpos, já não o podem fazer. Por isso podemos ir a casa de um atleta às seis ou sete da manhã. Há competições em que é quase obrigatório ir. Numa prova de ciclismo, os primeiro, segundo e terceiro têm de ser sempre controlados e ainda mais alguém do pelotão. Depois ainda fazemos as equipas todas de surpresa num dia.

O campeão olímpico Pedro Pichardo disse ter sido controlado 15 vezes em 2021. É normal?
Controlos feitos por nós foram quatro, os outros foram nas provas e pedidos pela World Athletics [federação internacional de atletismo]. Num atleta de elite internacional não é de todo anormal. Há ciclistas que são controlados 20 vezes por ano e posso dizer que os principais clubes de futebol foram controlados cinco vezes. Os resultados das provas para serem homologados têm de ser acompanhados de um controlo antidoping negativo. Quando alguém bate um recorde nacional, por exemplo, é logo mobilizada uma equipa para fazer o controlo.

Quanto custa a luta contra o doping em Portugal?
Um milhão de euros por ano (a nível mundial 100 milhões). Falemos de contas... O laboratório português ainda não recuperou a credenciação WADA perdida em 2016. É um problema herdado, mas que nos obriga a uma logística considerável e custa muito dinheiro. As amostras de urina vão para a Bélgica (750 mil euros) e o sangue para Barcelona (200 mil). Se tivéssemos um laboratório credenciado seria mais barato e até tínhamos a possibilidade de receber as amostras dos países da lusofonia. A recuperação da credenciação do laboratório de Lisboa é só uma questão formal. Os benefícios operacionais seriam enormes.

Por exemplo...
A janela de oportunidade para o sangue são de 36 horas o que significa que não pode ser recolhido sangue todos os dias até porque o laboratório nem sempre pode receber as amostras. Quando os controlos dependem dos correios, da DHL ou da disponibilidade do laboratório...

Isso não cria desconfiança?
As amostras são acompanhadas. Há um cuidado muito grande na expedição, têm sensores de temperatura e vão em envelopes lacrados. No caso da urina, são sempre dois frascos, a amostra A e a amostra B. É analisado o copo A e acusa substâncias proibidas então o o atleta tem o direito a pedir a análise da amostra B e tem o direito de acompanhar o processo na companhia de um advogado e de um técnico. Todo o processo é transparente e por isso o atleta não tem porque desconfiar da honestidade do laboratório e do processo, que seria facilitado se fosse em Lisboa.

E porque demora tanto a recuperar a credenciação da WADA?
A WADA exige completa separação entre as três entidades antidopagem. A ADoP, que faz os controlos, as autorizações terapêuticas e os processos disciplinares no caso de haver amostras positivas. Os processos são depois enviados para a outra entidade, o Colégio Disciplinar Antidopagem composto por cinco juristas, um médico e uma atleta (Filipa Cavaleri), que decide a punição ou o arquivamento. A outra entidade é o laboratório de Lisboa, que tem estado ligado ao IPDJ [Instituto Português do Desporto e Juventude], o que a WADA não permite e aí eu não me meto, mas pugno para que o laboratório volte a funcionar por razões financeiras e até de orgulho nacional.

Seis anos para encontrar nova casa para o laboratório não é demasiado? E que entidade o pode receber...
Uma universidade ou uma entidade de investigação cientifica... mas essa é uma matéria para o governo. Que o laboratório tem de sair do IPDJ isso eu sei porque até recebi uma cartinha a dizer isso no dia 7. Quando a WADA confirmou que a ADoP estava em conformidade com a lei internacional antidopagem, mandaram uma nota a lembrar que o laboratório tinha de sair do IPDJ.

Um novo governo pode fazer retroceder o processo?
De maneira alguma. A prova disso é esta nova lei aprovada apenas com abstenção de um partido. A luta antidopagem gera consenso. Todos querem um jogo limpo, defendem a honestidade das competições e a saúde dos portugueses. A dopagem causa mortes e ninguém admite facilitar.

A pandemia agravou ou atenuou o cenário de doping? Quais são os números de 2021?
Não há evidências de a pandemia ter potenciado o doping. Os atletas de elite são os mais controlados e têm enorme consciência social e pessoal. Não temos nenhum caso de doping nos Jogos Olímpicos. Portugal fazia mais de 3 mil controlos anuais antes da pandemia, mas em 2020 tivemos de parar durante algum tempo, estava a ser perigoso pois alguns atletas estavam infetados com covid e isso criava um problema enorme. Em 2021 recuperámos e fizemos quase 2500 controlos que resultaram em dez casos de doping. O ciclismo e o kickboxing são as modalidade com mais positivos.

E o futebol?
O futebol em tempos que já lá vão era uma modalidade preocupante, neste momento já não é. O futebol agrupa um terço de todos os atletas federados do país e por isso os números, dois casos, são residuais e não têm expressão alguma face ao número de praticantes. Temos trabalhado muito com a Federação Portuguesa de Futebol, nomeadamente em ações de formação, que é um dos requisitos para os clubes terem o licenciamento. Isto é um avanço de gigante na luta antidopagem no futebol. Há ainda um outro exemplo notável. A World Athletics antes dos Europeus e Mundiais obriga os atletas a fazer um exame antidopagem e só depois recebem um código para se inscreverem nas provas.

Ainda sobre futebol. Como está o caso Pedro Gonçalves (Pote)?
Não há caso Pote algum e tive o cuidado de dizer ao presidente da Liga que o rapaz estava absolutamente inocente. Quando foi controlado disse logo que tinha tido uma lesão e que tinha sido medicado e no mesmo dia o médico apresentou suporte cientifico a provar o uso da substância no âmbito da lesão. Foi uma patranha, uma denúncia anónima cobarde que foi comprada por uns jornalistas. Um ataque à ADoP e a quem cá trabalha e por isso há vários processos crime a decorrer. A ADoP tem independência politica e é imune a pressões e iso dá um tranquilidade enorme.

Existem estudos para saber em que contexto o atleta recorre ao uso de substâncias proibidas? Os ginásios preocupam?
Há atletas de alto rendimento que por razões técnicas fazem treino em ginásios e eu estou preocupado com isso, com o chamado uso por simpatia. No último seminário sobre essa matéria foi apresentado um estudo que mostra que o tráfico de esteroides é superior ao da cocaína, mas com maior aceitação social. Por isso em Portugal, com o apoio da associação de ginásios, começámos a fazer formação de dirigentes. A componente educativa é vital e só no ano passado fizemos mais de 300 ações de sensibilização e formação, uma delas aos atletas que foram a Tóquio 2020.

Portugal tem um desporto limpo?
Sim. Tem um desporto limpo e credível e podia ter mais praticantes. Há uns casos de doping que não adquirem o peso de outros países, onde há doping de estado. Isso nunca houve em Portugal. Temos cada vez mais apoio médico especializado ao serviço do desporto e por outro lado os atletas estão mais conscientes e têm medo de ser apanhados.

isaura.almeida@dn.pt

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