"Uma equipa que perde a vantagem seis vezes tem que ver com o clima emocional"

O treinador fala da falta de confiança do plantel, com exceção de Jonas, e elogia o discurso hábil de Rui Vitória. Pedro Henriques considera que os encarnados permitem muitas situações de perigo devido a mau posicionamento

O Benfica já efetuou 27 jogos oficiais esta época e em 13 desses encontros não ganhou. O mais estranho, assim à primeira vista, tem que ver com uma tendência que se tem vindo a registar. São seis episódios, o último dos quais ocorrido quarta-feira em casa com o Portimonense - depois de estar em vantagem, o Benfica não a segurou, acabando por empatar ou perder. E, vendo bem, isso já custou uma entrada em falso na Liga dos Campeões, a única derrota no campeonato, a eliminação na Taça de Portugal e uma posição periclitante na Taça da Liga (ver quadro).

"Isso tem que ver com o estado emocional dos jogadores. Uma equipa da grandeza do Benfica que perde a vantagem seis vezes, isso tem que ver com o clima emocional e com os níveis de confiança dos jogadores, que estão em baixo claramente", sustenta Manuel José ao DN, que não tem pejo em elogiar como Rui Vitória lida publicamente com aspetos menos positivos: "Nota-se, apesar do discurso hábil do treinador, na forma como contorna essas situações, que o laço vai-se apertando e cada vez há menos espaço de manobra para poder fugir a estas questões. Isso tem que ver com os níveis de confiança da equipa e do plantel, que não é capaz de aguentar a pressão durante o jogo."

Pedro Henriques, antigo futebolista do clube encarnado e hoje comentador, faz uma analogia curiosa para explicar esta tendência pouco positiva do tetracampeão nacional. "Quando as coisas não correm bem, é natural que exista receio. Repare, quando somos mordidos por um cão passamos por outro que pode nem ter dentes, mas temos medo à mesma. O Benfica permite muitas situações de perigo ao adversário, é mais frágil na reação à perda da bola em relação ao ano passado e comparativamente a FC Porto e Sporting esta temporada", considera o ex-lateral-esquerdo.

Já Manuel José insiste na sua tese da personalidade de cristal, mas agora dá nomes a quem podia estar melhor na equipa e não está.

"Exceção feita ao Jonas, que é o melhor marcador do campeonato e faz golos atrás de golos, os jogadores do Benfica neste momento estão com uma enorme falta de confiança e personalidade de cristal. Sofrem um golo, entram em stress e num estado depressivo. Repare, na época passada o Pizzi foi o maior destaque do campeonato. Marcou dois golos com o Tondela, mas até ali o Pizzi passou praticamente pelos jogos. Isto é estranho. Um jogador que chegou ao Benfica perante a desconfiança de muita gente, afirmou-se, foi chamado à seleção, inclusivamente...", refere.

E continua, traçando um diagnóstico: "Há uma série de coisas que têm de ser avaliadas mas a conclusão a que chegamos é que a equipa do Benfica tem uma personalidade de cristal caracterizada pela insegurança que se reflete nos erros que cometem. O Benfica tem entradas meteóricas, agressivas, com golos nos primeiros minutos ou mesmo segundos como aconteceu com o Portimonense. Mas depois fecha a loja, mete-se atrás e começa a segurar o resultado, o que não se percebe. Isso tem que ver com os níveis de confiança e acho que já ninguém acredita em ninguém."

Treinador sem responsabilidades

Ainda assim, apesar de uma exceção que confirma a regra, Manuel José não vê o atual treinador do Benfica como principal responsável pelos resultados menos bons, em especial pelo clima de insegurança que leva a equipa a desperdiçar vantagens no marcador.

"Rui Vitória, jogue quem jogar, dá sempre uma segunda oportunidade. Houve, é verdade, um desvio de comportamento com o Bruno Varela após o jogo do Bessa, mas com Rui Vitória ganham e perdem todos. Não é um treinador indesejado pelos jogadores, é um treinador em quem os jogadores confiam. Não acredito que o plantel esteja contra ele", sustenta o técnico.

Pedro Henriques recorre às vendas de futebolistas de valor para justificar a turbulência na zona defensiva do tetracampeão nacional: "Os jogadores que sobraram da época passada não estão tão bem. O Pizzi é um exemplo, depois a linha defensiva tem menos três elementos e isso nota-se. Como se resolve? Trabalhando, vão ter de ir à luta com estes. O mercado de janeiro é difícil, sinceramente não vejo como é que possa resolver todos os problemas, talvez dê para solucionar a situação do lateral-direito." Curiosamente, Manuel José vê em André Almeida um jogador "mais forte defensivamente do que Nélson Semedo" e lembra que "Lindelöf era eficaz".

A finalizar a questão dos jogos a meio da semana. Em dez realizados esta época, o Benfica apenas venceu a 1.ª jornada da I Liga diante do Sp. Braga. E o dérbi de 3 de janeiro com o Sporting é a uma quarta-feira. "Não tenho explicação para isso", garante Manuel José.

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