"Lázaro morreu porque utilizou produtos nocivos"

Gustavo Pires
Professor catedrático na Universidade Técnica de Lisboa

Francisco Lázaro morreu faz hoje 97 anos, um dia após participar na maratona dos Jogos Olímpicos de Estocolmo. Segundo a sua investigação, o português não morreu de insolação, como diz a autópsia, mas foi sim vítima de utilização de substância hoje consideradas doping?

Na época não havia controlo nenhum. Vivia-se um tempo de tecnologia, de descoberta. Recordo que o primeiro vencedor da maratona, o grego Spiridon Louis, era um precursor desses produtos. Era considerado normal na época.

O que é a "emborcação"?

A ideia era utilizar produtos que pudessem, segundos os dados técnicos da altura, atingir o aumento da resistência, controlo do esforço da fadiga através do cérebro. A "emborcação" era muito comum entre os atletas não só do pedestrianismo como do ciclismo. Este tipo de substâncias fazia parte da cultura do tempo pelo que não pode ser visto aos olhos dos nossos dias.

Que substâncias eram essas?

Num artigo intitulado "A Emborcação no Treino", da revista Tiro e Sport de 15 de Setembro de 1910, é descrito que a emborcação assegura a elasticidade e perfeita maleabilidade dos músculos de que se exigem os esforços mais efectivos, tornando-os insensíveis à dor e à fadiga. A receita: quatro claras de ovo; uma gema de ovo; água destilada; essência de terebentina rectificada e acido acético. Ao tempo, a emborcação ia bem mais longe. De facto, a comunicação social informou que Lázaro abusava da estricnina: "kola" (sterculia acuminata), que "estimulava o sistema nervoso, era também usado na época..

Mas o relatório dos Jogos diz que Francisco Lázaro morreu de insolação por causa de ter ensebado o corpo antes da corrida.

Lázaro não era estúpido. Não acredito que tenha morrido de insolação. Sabemos que se hidratou durante a prova. Ele estava preparado para o calor que na Suécia não era pior que em Portugal .A tese de se ter ensebado também não colhe, até porque ensebar as articulações era algo perfeitamente normal como forma de aquecimento.

Segundo a autópsia realizada ao atleta, este tinha o fígado completamente mirrado...

Do tamanho de um punho fechado e rijo, a tal ponto que só se conseguira partir a escopro, como se fosse uma pedra. Lázaro foi vítima de práticas que hoje continuam a ser utilizadas por muitos atletas. Só que hoje chamam-lhe doping.

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