A campeã europeia que o doping obrigou a mudar de sexo

Heidi Krieger, antiga campeã da Europa do lançamento do peso, foi uma vedeta do atletismo na ex-República Democrática Alemã (RDA). É o caso mais conhecido entre os milhares de desportistas do antigo Leste alemão que foram dopados pelo regime comunista, pois teve de mudar de sexo devido às alterações hormonais provocadas pelo doping intensivo e prolongado com testosterona. Hoje em dia chama-se Andreas.

Andreas Krieger, proprietário de uma loja de vestuário militar em Magdebour (Este), é um homem robusto de 1,87 metros, com um bigode emergente ao redor de um largo sorriso. Enquanto folheia um álbum de fotos da sua adolescência, mostra uma rapariga morena de olhar tímido, com os ombros largos envoltos num fato de treino preto e branco.

“Nunca tive a possibilidade de dizer: ‘não quero tomar hormonas’. Tinha apenas 16 anos e era o meu treinador que me dava os comprimidos azuis. Roubaram-me a minha história”, afirma à AFP este homem com 44 anos.

Como ele, cerca de 10 mil desportistas da ex-RDA foram vítimas da dopagem estatal entre os finais dos anos 60 e a queda do Muro de Berlim, em 1989. Os resultados desportivos era uma prioridade do regime comunista.

RDA: máquina de doping e medalhas

A Stasi, a polícia secreta, ficou encarregue do programa baptizado como ‘Plano 14.25'. A cada atleta era aplicado um plano de dopagem com doses obrigatórias de Oral Turinabol, um esteróide anabolizante usado para aumentar a massa e a força musculares. Heidi Krieger era a ‘desportista n.º 54’.

A RDA, país com apenas 16 milhões de habitantes, tornou-se numa máquina de conquistar medalhas, segunda na lista dos países mais recompensados nos Jogos Olímpicos de Montreal (1976), Moscovo (1980) e Seul (1988). A natação era o desporto-rei para as alemãs de Leste: em Moscovo, as nadadoras conquistaram 11 das 16 medalhas de ouro. A RDA chamava-lhes as "Wundermädchen" (“as meninas milagres”).

No total, enquanto país independente da República Federal Alemã, a RDA conquistou 519 medalhas em Jogos Olímpicos, 192 das quais de ouro.

Em 1986, nos Campeonatos da Europa de atletismo, em Estugarda, (Alemanha Ocidental), Heidi Krieger chegou ao lugar mais elevado do pódio. Andreas guardou o telegrama de felicitações de um dirigente do da RDA, Erich Honecker, que se dirigiu a Heidi por “cara amiga do desporto”.

Seguiu-se uma longa descida ao inferno. As lesões foram-se acumulando e a jovem atleta colocou um ponto final à sua carreira. Há doze anos, decidiu mudar de sexo. “Tornei-me oficialmente num homem. Obtive um novo certificado de nascimento”, diz.

Este novo homem casou com uma antiga nadadora, um dos raros casos de antigos desportistas a falar abertamente sobre dopagem. Um grande número de estrelas prefere calar-se, com medo de que as suas glórias de antigamente sejam ensombradas.

Operação “mãos limpas”

Muitos sofreram sequelas terríveis do consumo intensivo de anabolizantes enquanto eram adolescentes: cancros, esterilidade, masculinização (voz grave e pêlos abundantes) das mulheres, femininização dos homens (aumento dos seios). Segundo um estudo universitário, a taxa de abortos espontâneos entre as antigas atletas é 32 vezes superior à normal. As hipóteses de a criança nascer já morta ou com deficiências é dez vezes superior ao resto da população.

“Eu contenho a raiva. Após a reunificação [das duas Alemanhas], a Alemanha Ocidental limitou-se a absorver os conhecimentos que os treinadores da RDA tinham adquirido”, critica Krieger. Muitos foram os envolvidos no esquema de doping estatal que continuaram as suas carreiras nas instâncias desportivas da Alemanha reunificada. Cinco deles aceitaram em Abril reconhecer a sua participação na dopagem na ex-RDA, uma espécie de operação "mãos limpas" considerada história para o desporto alemão.

“Estes treinadores alemães de Leste sabiam fabricar campeões. Eles ainda ‘produzem’ medalhas hoje em dia. As medalhas valem mais que a moral”, vinca Andreas, que guarda ainda um saco de plástico cheio de medalhas, mas onde não está a medalha de ouro ganha em 1986: “Essa vitória já não significa nada para mim.”

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