Águias da Beira Interior sonham com voo até às ligas profissionais

Benfica e Castelo Branco surpreende favoritos do litoral (como a U. Leiria) e lidera Série C. "Estamos cá para honrar a região e lutar contra todos", diz o presidente

"Não podemos menorizar a nossa equipa e a nossa região. Temos de provar que podemos ser iguais ou melhores de que outros", aponta, convicto, Dani Matos. As limitações da interioridade não pesam no discurso do capitão do Benfica e Castelo Branco. E, ano após ano, as águias da Beira Interior insistem em ignorar barreiras e sonhar com o voo de regresso às ligas profissionais (onde pousaram, de forma breve, na II Liga, entre 1990 e 1993). Esta temporada, mesmo que só a manutenção seja o objetivo declarado, voltam a ameaçar a subida: lideram a Série C do Campeonato de Portugal (terceiro escalão nacional), superando favoritos do litoral, como a União de Leiria.

O fenómeno é comum a quase todas as capitais de distrito do interior: as cidades de Vila Real, Bragança, Guarda, Castelo Branco, Santarém, Portalegre e Beja (assim como a cidade de Viana do Castelo) nunca tiveram uma equipa na I Liga - e Évora permanece há 52 anos longe da ribalta. No entanto, em terras albicastrenses, a ambição renasceu nas últimas épocas. O Benfica e Castelo Branco lutou pela ascensão à II Liga até aos últimos jogos, em 2013/14, 2014/15 e 2015/16. E, agora, ameaçar voltar a tentá-la, comandando a Série C, com 33 pontos - um de avanço sobre União de Leiria e Recreio de Águeda -, ao fim de 13 jornadas sem perder e cinco vitórias consecutivas.

Ainda assim, os beirões mantém os pés assentes no chão. "Temos de ser realistas e perceber que conseguir a promoção não será fácil, num campeonato com 80 equipas, em que só sobem duas [ao fim de um play-off que com os primeiros e os três melhores segundos classificados das cinco séries do Campeonato de Portugal]", lembra o presidente do Benfica e Castelo Branco, António Machado. Por isso mesmo, "conhecendo a série e o poderio de outras equipas, o primeiro objetivo" do clube albicastrense passa apenas por "garantir a manutenção".

"Já não faltará muito. Depois, se outras nos deixarem, poderemos manter este lugar", acrescenta o dirigente. "O objetivo interno é encarar cada jogo para ganhar - e o próximo é sempre o mais importante. Depois, no fim, se veem as contas da classificação", anui o capitão de equipa, Dani Matos. Afinal, há que gerir as expectativas de uma massa adepta ansiosa por ver o clube nas ligas profissionais (e a competir no mesmo nível do rival e vizinho Sporting da Covilhã - a II Liga): "aqui na cidade estão sempre a perguntar se é este ano que vamos subir", descreve António Machado.

O sonho tem ficado próximo, à medida que o clube "aposta na formação e projeta bastante jogadores" para os campeonatos profissionais - como refere o presidente. No Estádio Municipal Vale do Romeiro, mora uma equipa sem estrelas. "A nossa grande mais-valia tem sido a coesão do grupo de trabalho. Temos um grupo muito competitivo e com bom ambiente, que procura sempre receber da melhor forma quem vem de fora", descreve Dani Matos.

Tal espírito é fundamental numa equipa "que junta jogadores da região (muitos estudam ou têm outro trabalho) a outros 10/11 de fora, que fazem vida do futebol (embora sem contrato profissional). "Conseguimos sempre criar bons grupos, essa é base do sucesso", destaca António Machado. Afinal, construir um bom plantel nem sempre é simples para um clube do interior: "em distritos com uma densidade populacional mais elevada e maior número de jogadores, o recrutamento é fácil; aqui temos de ter três apartamentos e fornecer-lhes alimentação, são mais despesas a pesar no orçamento", descreve o dirigente.

As contas são controladas ao cêntimo: "não se cortam os dedos mas também não se anda a estragar". Até porque os apoios são limitados. "Temos ajudas da câmara municipal e da junta de freguesia e patrocinadores, que não são de patrocínios de milhões. Em vez de ter dois ou três que dêem muito (que aqui não há), temos muitos que dão o que podem", resume António Machado.

Confiança, apesar das limitações

No entanto, apesar do peso da interioridade - só há quatro clubes do interior nas ligas profissionais e 13 dos 23 do Campeonato de Portugal estão em posições de descida -, as águias albicastrenses não viram a cara à luta. "Não gosto de fazer comparações com o litoral, para não estar a diminuir o interior. Sente-se um pouco a diferença, tanto a nível de apoios como de outras questões extra-futebol... e há a tendência de se dizer que as equipas do Porto e de Lisboa vão levar a melhor. Mas temos de mudar de mentalidade e pensar que vamos conseguir", aponta Dani Matos.

"Há adversários que dispõe de outros meios, alguns até são SAD e terão outra palavra a dizer [destaca-se a União de Leiria, com 18 presenças na I Liga, a últimas das quais em 2011/12]. Mas nós também trabalhamos bem. Os jogadoes entregam-se bastante; a equipa técnica [liderada por Ricardo António, que soma 14 anos no clube, seis como treinador] sabe o que faz; e, lutando por cada jogo, poderemos continuar por cima", refere, por sua vez, o presidente.

Assim, o sonho da subida do Benfica albicastrense continua bem vivo - com António Machado e Dani Matos a desejarem que faça multiplicar os 300/400 espectadores que habitualmente se deslocam ao Municipal Vale do Romeiro. "Subir de divisão seria fundamental para mobilizar mais a cidade", admite o capitão, enquanto o presidente já perspetiva "o reviver" dos duelos com o vizinho Sporting da Covilhã (um velho rival, mas com quem o clube mantém "boas relações"). "Interessa é manter a chama viva", conclui António Machado - e o Benfica e Castelo Branco fá-lo como poucos no interior do País.

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