Açores ao continente em kitesurf. A última loucura de Lufinha

Velejador português vai ter a companhia da alemã Anke Brandt numa odisseia que começa amanhã em Ponta Delgada e que pode durar entre cinco e dez dias, sem parar

O velejador português Francisco Lufinha já é o recordista da maior travessia de kitesurf sem paragens, quando em 2015 conseguiu percorrer 874 km entre a ilha da Madeira e o continente, durante 48 horas. Em 2013 já tinha percorrido toda a costa portuguesa, entre o Porto e Lagos, durante 28 horas e 58 minutos.

No entanto, ainda não está satisfeito e agora o desafio é ainda mais impressionante - fazer a ligação entre os Açores e o continente, num total de mais de 1500 km. A partida será amanhã, em Ponta Delgada, mas o local da chegada é uma incógnita, dependendo das condições atmosféricas, especialmente do vento: Lisboa, Porto e Lagos são as hipóteses mais verosímeis. A travessia durará um mínimo de cinco dias, caso o tempo ajude, mas poderá chegar aos dez dias.

Francisco não vai estar sozinho nesta aventura, contando com a ajuda da alemã Anke Brandt, que, tal como ele tem 34 anos. Trata-se da mulher recordista da maior travessia de kitesurf sem paragens, estabelecida no ano passado ao ligar o Bahrain a Abu Dhabi, durante 30 horas e 489 quilómetros. "Não a conheço há muito tempo. Falámos pela primeira vez em 2014 depois de ela ter batido um recorde do mundo e uns tempos depois ela pediu-me emprestado um kite. Mais recentemente, voltámos a falar a respeito do meu projeto Portugal é Mar, que pretende ligar todo o território nacional por mar, em kitesurf. Ela gostou do projeto e convidei-a para me acompanhar nesta viagem entre os Açores e o continente, pois sozinho era completamente impossível. Felizmente, ela aceitou", referiu ao DN.

O velejador português não esconde a ansiedade com o início da viagem. "Está tudo a postos! O barco que nos irá apoiar já foi para Ponta Delgada há algumas semanas e agora é esperar que as condições atmosféricas nos sejam favoráveis. Se estou nervoso? Sim, bastante! Aliás, eu fico sempre nervoso quando me meto nestes desafios e não escondo que neste vamos estar muito expostos aos perigos do mar, ainda que tenhamos um barco de apoio, equipamento de satélite, médico e fisioterapeuta. Mas estou confiante de que tudo irá correr bem", confidenciou.

A imprevisibilidade do clima será o grande inimigo da dupla luso-germânica, com Francisco a explicar que "só é possível prever os ventos com um máximo de dois ou três dias". E, sem vento, como é sabido... não há kitesurf. "É quase certo que pelo menos durante um dia iremos estar muitas horas a boiar, sem vento. Mas tenho a certeza que logo virá o vento e conseguiremos prosseguir", antecipou.

Por outro lado, será muito importante que o céu esteja sem muitas nuvens, de modo a proporcionar a maior luz possível durante a noite, tendo-se jogado com o facto de haver lua cheia na próxima terça-feira.

Água será a única bebida que o português irá ingerir nesta odisseia e enquanto estiver no kite só irá comer barras energéticas. No entanto, no barco, Francisco e Anke terão acesso a comida quente, com muitos legumes e alimentos ricos em proteínas e hidratos de carbono.

Esta missão pode ser arriscada, mas Lufinha não é inconsciente. "Todos os dias só iremos para o mar se percebermos que não vai haver tempestade. E se porventura algo correr mal, temos sempre a possibilidade de contactar a Marinha e pedir um resgate", contou. Para esta missão, a dupla luso-germânica conta com o apoio financeiro do governo regional dos Açores e com diversos patrocinadores.

De referir que quem quiser acompanhar esta viagem em tempo real, com a atualização constante dos tempos efetuados, poderá fazê-lo através do site franciscolufinha.com ou na sua página oficial de Facebook.

Visões com baleias e falésias

Nas últimas semanas, o português e a alemã treinaram juntos, aperfeiçoando as trocas de kite. A intenção é que cada um faça oito horas de cada vez, trocando sucessivamente. "É essencial dormir quando não estivermos no kite. Não dormi nada quando fiz a ligação entre a Madeira e o continente e por causa disso alucinei e as coisas ficaram complicadas", lembrou, acrescentando: "Ao fim de 35 horas comecei a ter visões de falésias e baleias, isto enquanto cambaleava. Cheguei mesmo a adormecer e caí dentro de água, tendo visto o meu próprio catamarã passar por cima da minha cabeça. Saí ileso, mas tive mesmo muita sorte! Enfim, foi uma injeção de adrenalina tão forte que não voltei a adormecer!", atirou.

A grande distância que será percorrida nesta odisseia obrigou a que, tal como na viagem de 2015, fosse necessário providenciar um catamarã à vela, pois um barco a motor não conseguia ter a autonomia necessária. E o seu grande medo será "a forma como o corpo irá reagir a partir da décima entrada no mar, pois deverão aparecer lesões musculares e cãibras". É nesta altura que o trabalho dos médicos e fisioterapeutas será decisivo...

A ligação de Francisco Lufinha ao mar começou aos 15 dias de vida. "Nasci a 9 de agosto de 1983 e o meu pai sempre teve o hábito de fazer férias de barco à vela. Assim aconteceu nesse ano e eu já estava em alto mar apenas com duas semanas de vida. Acho que foi por isso que nunca enjoei em embarcações... Ganhei desde logo um grande amor ao mar, do qual não consigo ficar afastado muito tempo", confessou.

A paixão pelo Kitesurf surgiu em 2002, mas muito antes disso Francisco começou por competir em várias classes de vela (iniciou-se com apenas 11 anos), fez wind-surf, esqui aquático e wake board. "Passei a dedicar-me ao kitesurf porque tem um pouco de todas as outras vertentes que tinha experimentado. O único problema é que o material tem 30 metros de nós e por isso exige muito espaço no mar, mas isso é algo que não falta em Portugal", realçou, elegendo as praias do Guincho e da Costa de Caparica como as favoritas para praticar.

Formado em Engenharia e Gestão Industrial, decidiu no entanto dedicar-se em exclusivo à sua paixão pelo kitesurf: para além destes "loucos" desafios, tem a sua própria empresa e dá palestras de motivação noutras empresas.

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