"A reconstrução da Chapecoense nunca vai apagar a enorme dor"

Nilo Traesel, antigo presidente do clube brasileiro, é dentista e vive em Portugal há 18 anos. Acredita que a Chape se vai reerguer da tragédia, mas descarta estrelas como Ronaldinho

Nilo Traesel, antigo presidente da Chapecoense, viveu na madrugada de 29 de novembro um autêntico pesadelo quando recebeu a notícia de que o avião que transportava a equipa tinha caído na Colômbia, onde iria defrontar o Atlético Nacional na primeira mão da final da Copa Sul-Americana, uma espécie de Liga Europa da América do Sul. Não podia ser verdade, afinal o clube estava a viver o momento mais alto da sua história.

Foi nas Caldas da Rainha, onde vive e trabalha como dentista, que despertou para a dura realidade. "O mais curioso é que sempre tive muito receio de que isto um dia pudesse acontecer. Não tenho explicação para este meu sentimento. Quando era presidente nunca viajava com os jogadores, ia sempre no meu carro, e a primeira coisa que fazia às segundas-feiras de manhã era perguntar se a viagem da equipa tinha corrido bem", contou ao DN.

A tragédia acabou por ser bem mais dramática, pois 71 dos 77 passageiros a bordo do avião da LaMia morreram. "Perdi 35 amigos que praticamente considerava como irmãos, e não estou a falar de jogadores. Ainda não consegui assimilar bem o que aconteceu. Nas últimas semanas estive muito mal, não tinha condições sequer para conduzir", desabafou Nilo Traesel, que está em Portugal há 18 anos.

Aos poucos, e na medida do possível, as coisas estão a regressar à normalidade. À distância, tem-se mantido a par da reconstrução da sua Chapecoense, que na última sexta-feira elegeu Plínio David de Nês como novo presidente do clube. "Ele era o presidente do Conselho Deliberativo e era para ter viajado naquele avião, mas decidiu acompanhar o prefeito de Chapecó, Luciano Buligon, numa viagem a São Paulo, e de lá seguiriam para Medellín", lembra Nilo Traesel, recordando que o amigo Plínio foi um parceiro importante quando liderava o clube: "Fui presidente da Chapecoense em 1995 e 1996 e, na altura, só o patrocínio da empresa dele pagava todos os salários."

Neste processo de reconstrução do clube, muito se tem falado em nomes sonantes para reforçar o plantel, algo que Nilo Traesel nem quer ouvir falar. "O clube precisa de jogadores que querem aparecer e crescer no clube. Falou-se no Ronaldinho Gaúcho, mas sei que não há qualquer interesse... nem de borla. Nem Riquelme nem Kaká... Precisamos de jogadores que sintam a camisola e que queiram crescer na carreira", assumiu, mostrando-se muito otimista em relação ao futuro do clube. "O pessoal da direção não se dobra perante a tragédia. O processo de reconstrução não está a ser difícil. A Chapecoense tem o suporte das empresas da região e tem uma estrutura invejável, apesar de se tratar de um clube pequeno no Brasil", sublinhou.

As promessas de apoio que surgiram nos dias que se seguiram ao acidente "estão a deixar o presidente chateado", pois "foram promessas muito vagas". "Alguns clubes brasileiros ofereceram jogadores, mas só para se livrarem deles e dos seus salários. É muito frustrante. A Chapecoense precisa de carinho e de apoio palpável, não de sentimentalismos", explicou, admitindo que "a reconstrução da Chapecoense nunca vai apagar a enorme dor e a imagem dos caixões no relvado".

Recordar as vítimas como heróis

Nilo Traesel acredita que o clube "vai continuar a crescer", até porque, "além da simpatia mundial após a tragédia, tem também uma base de apoio que vai muito além da cidade de Chapecó ou do estado de Santa Catarina, pois é bastante apoiado nos estados vizinhos do Paraná e do Rio Grande do Sul". Ainda assim, admite que "alguns adeptos não vão tão cedo ao estádio porque aquele relvado está manchado de sangue", por isso considera que é preciso "fazer o luto completo para que tudo regresse à normalidade o mais rapidamente possível".

E a normalidade tem que ver com o regresso dos jogos ao estádio, com a nova época no início do novo ano. "Não devemos fazer da tragédia um drama. É preciso lembrar as vítimas com carinho e recordá-las como heróis", sublinhou.

A revolta pela tragédia é maior porque não se tratou de um problema técnico do avião. Para Nilo Traesel, o responsável pelo que aconteceu está muito claro. "Tratou-se de uma tentativa de homicídio, porque o problema é que o avião não tinha combustível para chegar ao destino. E o piloto tentou até à última livrar-se da multa, que é astronómica, se aterrasse por falta de combustível. Foi por isso que ele evocou falha técnica", explicou, lembrando que "o piloto do avião era sócio da LaMia e fazer uma escala para reabastecimento custava 13 mil euros". "Ele só pensou no lucro, nem pensava na vida dele, porque ele já tinha feito isto mais vezes."

Neste sentido, além da empresa, considera que as autoridades bolivianas de aviação também têm de ser responsabilizadas "porque deram alvará à LaMia apesar de terem várias queixas contra ela por causa de falta de combustível": "Agora que a tragédia aconteceu é que foram apreender a licença." Ontem ficou a saber-se que o piloto do avião não tinha horas de voo suficientes para pilotar aviões comerciais.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG