A nova aventura do 'Imperador' Marco Aurélio no Quénia

Central deixou saudades em Alvalade. Foi olheiro e professor de religião... agora é adjunto de Zé Maria no Gor Mahia.

Marco Aurélio deixou saudades em Portugal, em especial em Alvalade. A elegância com que jogava e roubava a bola aos avançados adversários fez escola no Sporting. De tal forma, que ainda hoje os adeptos leoninos suspiram por um central como ele. Uma década depois de ter deixado os relvados (em 2007, na Real SPAL - série D de Itália), o brasileiro procura dar os primeiros passos como treinador no Gor Mahia do Quénia. "O meu grande amigo e irmão Zé Maria convidou-me para um novo projeto no Quénia e eu que já tinha o sonho de ser treinador aceitei. Tinha de começar por algum lado", contou ao DN o antigo central leonino, que jogou de leão ao peito entre 1994 e 1999.

Foi para Nairobi por seis meses, mas já lá está há um ano. "Estou feliz dentro do campo, a adrenalina, a felicidade da vitória, a preocupação da derrota... tinha saudades disto. Estou muito contente com o que estou a fazer", confessou Marco Aurélio, que se tiver um convite de Portugal vem imediatamente a correr: "Sou fiel ao Zé Maria como adjunto, por isso a iniciar um projeto seria com ele, mas seria fantástico, temos de tratar disso."

Assim que pendurou as chuteiras tirou o curso de Gestão Desportiva da FIFA, mas foi como olheiro e empresário de jovens que fez carreira até ao ano passado. "Quis trabalhar com os jovens, representá-los e aconselhá-los, porque eles criam expectativas e é preciso alguém que já foi jogador falar com eles e orientá-los", explicou, ele que chegou a recomendar um miúdo ao Sporting, mas "não deu certo". E depois disso não quis mais. "Quando amas um clube como eu amo o Sporting só queres mandar um Pelé, um Futre ou um Ronaldo", brincou.

A função de olheiro ainda lhe deixava tempo para espalhar a palavra do Evangelho, como professor de Escola Bíblica na Igreja do Evangelho Quadrangular nos arredores de São Paulo. Essa missão agora deu lugar ao treino, como adjunto e no Quénia.

A dupla nacionalidade e o baixinho...

Marco diz-se português por opção. "Não foi Portugal que me acolheu, eu escolhi Portugal, e deixei muita gente admirada por não ter ficado a viver em Lisboa quando deixei de jogar. Os meus amigos portugueses e italianos nem queriam acreditar que eu ia voltar ao Brasil, mas a vida surpreende-nos e temos de aceitar os caminhos de Deus", explicou o luso-brasileiro de passaporte e coração, que tem três filhos portugueses - "um rapaz e uma rapariga madeirenses e uma lisboeta"- e uma irmã a viver em Portugal.

Ficou conhecido por jogar no Sporting, mas o primeiro clube por cá foi o União da Madeira: "Quando cheguei à ilha dirigi-me à sede e assustei-me: o edifício estava em ruínas. Tinha ardido e eu pensei: "Meu Deus, onde me vim meter?"" Felizmente não se assustou o suficiente para dar meia volta e regressar ao Brasil, pois viria a mostrar um talento na arte do corte poucas vezes visto nos relvados portugueses, que lhe valeu a alcunha de O Imperador!

E quatro anos depois obrigou o então presidente do Sporting, Sousa Cintra, a quebrar uma promessa. "Quando assinei disse-me logo: "Vê lá o que vais fazer, hã? Não me faças arrepender, tinha prometido que não contratava mais brasileiros." Ainda hoje não sei o que os brasileiros lhe fizeram, qual foi o problema, mas foi uma entrada a pés juntos", recordou o central, que fez parte de um plantel "bacana", talvez "o mais talentoso" que o Sporting teve, que "infelizmente ganhou pouco e não foi campeão".

Nessa altura os leões tinham quatro excelentes opções para o centro da defesa. "Havia o Valckx, que era internacional holandês, o Naybet, internacional marroquino, e o Vujacic, internacional sérvio, só eu não era internacional, mas o Carlos Queiroz avisou-me de que não havia titulares definidos e aí eu decidi que era a minha chance", contou o antigo leão, que ganhou o lugar ao lado de Naybet: "Mas o Valckx e o Vujacic eram tão bons que não podiam ir para o banco, por isso o Queiroz meteu o Valckx a trinco e o Vujacic a lateral esquerdo."

Olhando para trás, Marco Aurélio recorda ainda o "baixinho, de caráter bem particular, muitas vezes explosivo e intenso", que fez dele capitão: Otávio Machado: "Foi uma surpresa, havia jogadores com mais anos de Sporting na equipa. Mas o Octávio chamou-me de lado no balneário, antes de o jogo começar, e disse-me que eu ia ser o capitão. Foi a primeira vez que fui capitão e levantei a Supertaça."