A mulher do camião que talvez nunca cumpra o objetivo de ser vista como piloto

Elisabete Jacinto prepara-se para realizar a sua nona African Race, prova que terminou por cinco vezes nos três primeiros. Ao DN conta como se prepara e quem faz o quê numa equipa a três em que ela é que conduz

Aos 53 anos "toda a gente" lhe pergunta quando estaciona o camião, mas Elisabete Jacinto sente que o melhor ainda está para vir. "Não sei o que fazer depois, e, se calhar, não sei porque não quero saber. Ainda não chegou o momento de parar. Não consegui o meu objetivo principal, que as pessoas me vejam como piloto e não como uma mulher que conduz. Acho que ainda não consegui e provavelmente nunca vou atingir esse objetivo, mas estou muito perto", confessou ao DN a propósito da participação na sua nona African Race, entre lamentos: "Portugal não olha para as mulheres atletas da mesma forma que olha para os atletas homens."

A maior maratona de todo-o-terreno do continente africano realiza-se de 2 a 14 de janeiro - a caravana atravessa Marrocos, Mauritânia e Senegal, finalizando o rali no lago Rosa, em Dacar, numa prova com mais de cem participantes. A piloto portuguesa parte dia 29 com a ambição de ir mais uma vez reclamar "um lugar no pódio", depois de ter terminado cinco vezes entre os três melhores.
Elisabete falhou o primeiro African Race para "experimentar o rali América Latina", aliciada pelo prestígio da prova e pela "curiosidade" de ver como seria o rali fora de África. "Fiquei desanimada e desiludida com o rali que encontrei, não era nada como o Dakar africano, que eu adorava, era uma grande corrida, mas não era para aquilo que eu tinha batalhado tanto. Achei que não valia a pena e optei pelo African Race", explicou, consciente de que "há sempre alguém a desvalorizar" a prova para dizer que o sucesso, afinal, não é assim tão grande. E isso "é daquelas coisas que chateiam...".
Isso e haver quem ainda pense que o desporto não é para mulheres: "Ultrapasso isso com inteligência e bom senso, mas a maior parte das vezes a culpa é nossa, das mulheres, que nos colocamos rótulos e barreiras. Gostamos de nos refugiar na sociedade que nos impõe obstáculos sociais e culturais, que nos afastam do desporto."

Mas se Elisabete desbravou o caminho no desporto motorizado e no automobilismo no feminino, poucas houve que o seguiram. "Com muita pena minha... mas não há razões para uma mulher não andar de moto ou não conduzir um camião. Há uns anos, sim, a direção era muito pesada e era preciso força. E se há coisa que temos é menor capacidade física do que os homens, mas hoje em dia a tecnologia já o permite", explicou.
No caso de Elisabete Jacinto, a mulher e a atleta são uma só: "Misturamo-nos. Abdiquei de coisas como mulher para ser atleta, nomeadamente a maternidade, mas foi uma opção, fui adiando, adiando e o desporto foi vencendo sempre. Mas não me anulei como mulher, não sou nenhuma maria- -rapaz, pelo contrário, e acho que todas as minha facetas femininas me ajudam como atleta e posso dizer que melhorei muito como pessoa à custa do desporto."

Ter um companheiro que, além de a entender, também a ajuda é o segredo. "Começamos a andar de moto juntos, a correr juntos. Chegou a uma altura que não tínhamos dinheiro para continuar os dois e ele abdicou e optou pela mecânica para me dar apoio a mim. Ele dizia que eu como rapariga iria conseguir mais patrocínios, como ele havia mais 300", contou, confessando que se ele um dia lhe disser que não quer mais, ela também para: "O meu trunfo é tê-lo do meu lado."

Um camião de 10 toneladas
"Somos uma equipa de três numa cabina. Eu conduzo, depois há um navegador que me diz o caminho que tenho de seguir e um mecânico que está lá para o caso de haver algum problema a qualquer momento, mas tem outras tarefas. Ele tem uma maquinazinha à frente dele que enche e vaza os pneus, porque a pressão do pneus é fundamental para o camião andar bem. E tem outra tarefa importantíssima que é dar-me de comer quando tenho fome", explicou a piloto.

Elisabete abastece-se com barras energéticas, barras de refeição, pão ou gel comestível usado pelos ciclistas. E ainda por "uns biscoitos que a mulher do Zé Marques, o navegador, faz". "Depois quando tenho fome, o mecânico vai-me dando aos bocadinhos, eu ponho na boca e vou mastigando. É assim que funciona, sem parar ou abrandar", contou, revelando que aguenta bem a etapa sem "fazer xixi".
O segredo para manter a circulação nas mãos, pernas e pés passa por uma boa preparação física: "Vou ao ginásio durante todo o ano, pelo menos duas horas por dia. Tenho a noção de que é isso que me dá força para conseguiu aguentar tudo."
Isto sem esquecer que está a manobrar um veículo de 10 toneladas: "Sente-se muito o peso. Uma das formas de conduzir bem um camião é saber manobrar o peso dele, a inércia que aprendemos na escola funciona. Se ele vai a acelerar e eu me engano no caminho não posso simplesmente virar para curvar. Ele não trava de repente, tenho de abrandar e depois manobrar. Para acelerar, a mesma coisa. Saber gerir aquela massa toda em andamento é o segredo."

Ainda mais no seu caso, que até 2002 estava habituada a manobrar uma moto. "A minha moto já era muito pesada e eu quando me irritava já a chamava de camião por causa do peso (risos). Entrei nos camiões com a experiência das motos, apenas com algumas dicas de algumas pessoas e nada mais, a ganhar quilómetros, cometendo erros com os quais aprendi", revelou a atleta, que teve de "ler muitas coisas na área da psicologia" para saber trabalhar melhor em equipa.

A solidão que sentia na longas etapas de Dakar desapareceu com ajuda da Medalha de Mérito, que recebeu das mãos do Presidente da República Jorge Sampaio, em 1999, por ser a primeira portuguesa no Dakar. Essa distinção ajudou-a a superar "aquela solidão massacrante", sentida de moto, e "a angústia do empréstimo" que pediu para poder participar na prova. Nessa altura percebeu que "não estava sozinha", que "tinha um país inteiro" a olhar para ela e que "todos os sacrifícios valiam a pena". Esse reconhecimento foi o conforto que precisava para continuar a lutar pelo objetivo maior, ser vista como piloto.

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