A grande dificuldade em conseguir um lugar ao sol

As quatro grandes transferências do último defeso não estão a singrar. O antigo internacional Abel Xavier, que disputou as principais Ligas europeias, identifica ao DN as razões

Portugal é um país formador, que sabe vender bem e disso dependem os clubes - grandes e não grandes. Na retina ficam sempre as saídas a troco de muitos milhões e, tirando uma ou outra exceção ao longo dos anos (Simão, Ricardo Quaresma, Anderson), os futebolistas que saem da I Liga, sejam portugueses ou não, normalmente é chegar, ver, jogar e vencer.

Pois bem, esta parece uma época atípica, pois as quatro grandes vendas do defeso - João Mário, Renato Sanches, Slimani e Gaitán - mostram enormes dificuldades em imporem-se e tornarem-se imprescindíveis para os seus treinadores e adorados pelos adeptos.

O DN foi tentar encontrar explicações para as dificuldades que os futebolistas que encantaram em Portugal estão agora a atravessar.

Abel Xavier, antigo internacional português e atual selecionador de Moçambique, traçou uma radiografia à situação individual de cada um, logo ele que passou, para além de Portugal, por Itália (Bari e Roma), Espanha (Oviedo), Holanda (PSV), Inglaterra (Everton, Liverpool e Middlesbrough), Turquia (Galatasaray), Alemanha (Hannover) e Estados Unidos (LA Galaxy).

Como opinião geral, o ex-lateral considera que temos de perceber que há outras premissas para além do valor económico de cada futebolista como "o ensinamento e a adaptação". Por isso, sustenta que "o valor aquisitivo não atenua o poder da adaptação". Para Abel Xavier há mercados que "oferecem um grau de maior competitividade" e jogadores que "eram mais--valia em Portugal nesses mercados são vistos como mais um, o que torna complicado dar continuidade ao que fizeram durante anos em Portugal".

João Mário é questão de tempo

Iniciando a sua análise individual, Abel Xavier utiliza a sua experiência como antigo futebolista de Bari e da Roma para garantir que "o futebol italiano, pela fortíssima pressão externa, é o mercado mais difícil de se adaptar, o mais difícil de todos... e ao nível dos clubes grandes mais ainda, porque a pressão externa incide muito sobre o jogo, mais do que em qualquer outro campeonato".

No entanto, Abel Xavier acredita que a qualidade do antigo médio do Sporting vai sobrepor-se: "Um jovem como o João Mário pode ser posto em causa muito rapidamente. Ele foi contratado com uma estrutura e um treinador, não houve resultados e o treinador saiu. Há determinadas situações à margem da qualidade do jogador que pesam. Não tenho dúvidas de que ele, tendo continuidade na seleção, irá marcar o seu espaço no Inter, talvez esteja a demorar mas vai marcar o seu espaço porque é um jogador muito acima da média."

Renato Sanches de futuro

No caso de Renato Sanches, Abel Xavier, que atuou na Bundesliga ao serviço do Hannover, fala "das etapas muito rápidas de Renato no Benfica devido a um conjunto de circunstâncias e coincidências que fez que ele prematuramente tivesse implantado um dinamismo e uma personalidade no seu jogo que o fez marcar pela diferença".

E, claro, o Bayern não é o Benfica. "Quando é inserido num contexto mais competitivo, com jogadores com mais traquejo e mais peso, isto respeitando os jogadores do Benfica, ele tem seguramente do ponto de vista psicológico um tempo de adaptação. É um processo que vai ser natural e progressivo. Percebe--se pelas manifestações externas do Bayern que há demasiadas expectativas em relação à qualidade do Renato e ao preço que pagaram. Não tenho dúvidas nenhumas de que é um jogador de futuro. Quando se investe num atleta desta dimensão não podemos esquecer a faixa etária", diz Abel Xavier, que não é apoiante da tese de que Renato devia ter ficado mais um ano em Portugal: "Quando se paga um determinado valor nós nunca sabemos o que vai acontecer na carreira de um jogador. Imagine-se que o Renato permanecia mais um ano e tinha a infelicidade de uma lesão. Seria um ativo menorizado. Tudo tem o seu momento, penso que fazendo o balanço entre o rácio de crescimento e a mais-valia foi tudo favorável às partes envolvidas."

Slimani vs. Vardy

Islam Slimani deixou o Sporting em agosto passado e rumou ao Leicester, campeão de Inglaterra, país onde Abel Xavier evoluiu mais tempo no estrangeiro em representação de Everton, Liverpool e Middlesbrough.

Para Abel Xavier, Slimani foi apanhado numa mudança de filosofia. "O Leicester era uma equipa de transições bem vincadas mas ao vencer a Premier League tentou dar ao seu jogo um pouco mais de domínio. E então constituiu-se um plantel com jogadores que fossem uma mais-valia em termos de finalização, mas acontece que nesse mesmo lugar havia uma grande referência, o Vardy, que tem as mesmas características. Penso que o Leicester devia ter mantido a sua filosofia e essa alteração levou a que Slimani fosse vítima desse processo. Ele integrava-se bem naquela dinâmica do Sporting com agressividade de frente para trás, onde era um jogador muito valioso nos momentos defensivos e ofensivos, penso que no Leicester houve uma parte que faltou", considera.

Gaitán e a adaptação

Quando confrontado com o caso de Nico Gaitán, Abel Xavier faz questão de rebobinar a cassete: "Não nos podemos esquecer de que o Gaitán levou o seu tempo a marcar uma posição de importância no Benfica. Aquilo que acontece na adaptação em Portugal também acontece nos outros países", recorda antes de analisar a situação mais ao pormenor. "Um jogador que fica cinco ou dez anos em Portugal mais facilmente pretende acabar a carreira em Portugal. A família, a sua importância, tudo isso é muito mais marcado em Por- tugal", diz, para depois salientar que o Gaitán "não deixou de ter valor" mas jogadores neste contexto "não deixam de ser um entre muitos em grupos tão competitivos e por isso é mais difícil assumirem--se. Leva o seu tempo". E continua: "Isto não pode ser visto com demasiada surpresa."

Para Abel Xavier estes quatro casos não vão levar a uma desconfiança dos mercados mais endinheirados face ao produto do campeonato português: "Não. Temos de analisar a relação de investimento face ao futuro. E não há no panorama europeu e mundial um mercado com o poder de formação e de venda como o português. Tem sido assim ao longo dos últimos dez ou mais anos e vai continuar."

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