1990: Brehme, de penálti

No Mundial de Itália, um golo de grande penalidade ao cair do pano deu a vitória da Alemanha sobre a Argentina

A única nota artística foi a atuação de Luciano Pavarotti na abertura, cantando o hino do Mundial 1990 Nessun Dorma, que lhe valeu fama planetária. À exceção dos entusiasmantes camaroneses, esta terá sido uma das mais aborrecidas edições, com as meias-finais definidas no desempate por penáltis. Argentina e República Federal da Alemanha (RFA) repetiram a final de quatro anos antes, mas desta vez fizeram-no de forma entediante. Brehme, de penálti (duvidoso, aos 85"), resolveu a questão.

Num dos eventos desportivos com mais espetadores da história (quase 27 mil milhões, número superado pelo Mundial 1994 e Mundial 2002), Roger Milla foi o grande empolgamento do torneio, marcado pela mais baixa média de golos de sempre (2,21/jogo) e recorde de expulsões até então (16, duas na final, estreia na competição) quando foi introduzida pela FIFA em todos os jogos a bandeira Fair Play. Jogou-se de forma tão descarada para trás (e os guarda-redes ainda podiam agarrar a bola com as mãos), que dois anos depois se mudaram as regras. Os guarda-redes deixaram de poder agarrar passes de colegas efetuados com as pernas e as vitórias começaram a valer três pontos, em vez de dois.

Foi também uma era de grandes mudanças políticas, com a queda do Muro de Berlim no ano anterior e a consequente queda da Cortina de Ferro a determinarem que este foi o último torneio com Checoslováquia (dividir-se-ia em República Checa e Eslováquia; URSS, desmantelada em 15 países; e República Federal da Alemanha, que após a reunificação com a República Democrática da Alemanha passou a ser só um país - Alemanha.

A competição iniciou-se de forma promissora, com os Camarões a baterem a campeã mundial Argentina no jogo inaugural, por 1-0, Omam-Biyik. E Roger Milla foi animando a prova com golos e festejos sempre muito originais, aos 38 anos. Os camarões só foram parados pela Inglaterra (2-3, após prolongamento), com Lineker a ser decisivo de penálti (bisou), no único jogo dos quartos-de-final em que foi marcado mais do que um golo.

Maradona estava a dar as últimas como jogador sobrenatural (ganhou poucas semanas antes o penúltimo troféu ao sagrar-se campeão pelo Nápoles, ganharia em setembro o último: a Supertaça de Itália). Os campeões do mundo em título ainda conseguiriam chegar à final, deixando para trás o arquirrival Brasil (golo de Caniggia, futuro avançado do Benfica, a passe de Maradona), Jugoslávia (no desempate por penáltis) e Itália

Nota para o escrete que caíra nos oitavos-de-final: o capitão era Ricardo Gomes (Benfica) e ainda havia Mozer (saíra do Benfica em 1989 para regressar em 1992), Branco (FC Porto) e Valdo (Benfica); entre as reservas, estavam Silas (Sporting), Aldair (Benfica) e Zé Carlos (guarda-redes que posteriormente passou por Farense, V. Guimarães e Felgueiras (de 1992 a 1996), além de Ricardo Rocha (passara fugazmente pelo Sporting em 1988).

O jogo da Argentina com os anfitriões foi dos mais emblemáticos dos mundiais, porque se realizou em Nápoles e os napolitanos ficaram do lado do seu ídolo, o argentino Diego. Novamente no desempate por penáltis, os sul-americanos chegaram à final

A rivalidade entre Holanda e Alemanha atingiu o cúmulo com uma cuspidela de Frank Rijkaard nas costas de Rudi Voeller após o triunfo germânico nos oitavos-de-final (2-1), que frustrou a (finalmente) vencedora Laranja Mecânica: fora campeã europeia, e logo na Alemanha, em 1988. Rijkaard tinha sido expulso. Tão condenável, foi a combinação da manutenção do empate (1-1) entre Ruud Gullit e Mick McCarthy, que apurou Holanda e Irlanda, afastando o Egipto. A RFA ultrapassou depois a Checoslováquia de Tomás Skhuravy, que foi o segundo melhor marcador com cinco golos, e em 1995/96 teve uma passagem modesta pelo Sporting. E, em mais uma decisão no desempate por penáltis, os germânicos bateram a Inglaterra de Bobby Robson (que passaria por Sporting e FC Porto, iniciando a série do penta) para chegarem à final.

Eliminados nos penáltis, Itália e Inglaterra enfrentaram-se em Bari na luta pelo 3.º lugar. Foi mais forte a anfitriã (2-1), com golos de Roberto Baggio e a grande sensação da competição, Toto Schillaci, que passou por Juventus (Taça de Itália e Taça UEFA em 1990) e Inter (Taça UEFA em 93/94), mas nunca foi tão popular e apreciado como no Itália 90. Foi o melhor marcador, com seis golos, e considerado o melhor jogador (às custas do campeão do mundo Lothar Matthaus).

O jogo decisivo realizou-se em Roma, mas foi dececionante. Apesar da Alemanha ser liderada por um grande Lottar Mathaus, e ter um grande plantel (Brehme, Kholer, Augenthaler, Littbarski, Hassler, Voller, Riedle, Moller ou Klinsmann), e da Argentina ter Maradona, a final foi entediante. E marcada pela primeira expulsão de sempre: Pedro Monzon (65"). Ainda assim, aos 85", Sensini envolveu-se com Voller na área argentina e o árbitro mexicano Edgardo Codesal assinalou penálti. Andrea Brehme não perdoou. E seguiu-se nova expulsão para os sul-americanos, a segunda da história em finais: Gustavo Dezotti atirou Kholer ao chão e viu o vermelho.

A RFA sagrava-se tricampeã mundial, juntando-se a Brasil e Itália. Ultrapassava Uruguai e Argentina e distanciava-se da Inglaterra (1966).

Franz Beckenbaur tornou-se o único a ser campeão mundial como capitão (1974) e treinador. Juntou-se a Zagallo a ganhar tanto no relvado como no banco.

Depois do tristemente célebre México 86, Portugal não se qualificou, mas Carlos Valente voltou a ser chamado e apitou dois jogos. O Argentina 1-1 Roménia, na fase de grupos, e o Itália 1-0 Irlanda dos quartos-de-final.

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